Artigos

Economia mundial em desaceleração e os dilemas do Brasil em ano eleitoral – por José Renato Ferraz da Silveira

“Os tolos dizem que aprendem com seus próprios erros; eu prefiro aprender com os erros dos outros.”
– Otto von Bismarck

A Organização das Nações Unidas lançou, na última quinta-feira (8 de janeiro), o relatório “Situação e Perspectivas da Economia Mundial 2026” (WESP 2026). O documento aponta para uma desaceleração do crescimento global neste ano, marcada por um comércio internacional mais contido, riscos geopolíticos persistentes e pressões contínuas sobre o custo de vida – fatores que seguem moldando as perspectivas econômicas globais e regionais.

O relatório enfatiza que a economia mundial enfrenta o risco de ingressar em um período prolongado de crescimento mais lento quando comparado à era pré-pandemia. A ONU e outras entidades internacionais projetam um crescimento global abaixo da média observada antes da crise sanitária, com estimativas variando entre 2,4% e 3,1%, frente aos cerca de 3,2% registrados no período anterior a 2020. Entre os principais fatores explicativos destacam-se a manutenção de juros elevados e o aumento das incertezas políticas.

A desaceleração da economia chinesa – decorrente de fatores endógenos e exógenos -, somada à postura cautelosa da política monetária dos Estados Unidos, tende a limitar o dinamismo da atividade econômica global. Na Europa, o crescimento deverá permanecer mais contido, pressionado por tarifas comerciais, tensões geopolíticas e fragilidades estruturais persistentes.

No caso brasileiro, a ONU projeta um crescimento de 2% em 2026, ano de eleições presidenciais. A cientista política e especialista em análise econômica Rita Mundim avalia que o modelo econômico baseado no estímulo ao consumo tende a manter a taxa Selic em patamares elevados, produzindo um conflito estrutural entre política fiscal e política monetária. Segundo Mundim, a Selic deverá encerrar 2026 em torno de 12,5%. “Nós vamos ter uma taxa de juros de dois dígitos enquanto prevalecer esse modelo que incentiva o consumo via crédito ou por meio da ampliação de benefícios sociais”, afirmou a especialista em entrevista à CNN Brasil.

Ainda de acordo com Mundim, enquanto o governo federal adota políticas de estímulo ao consumo, o Banco Central reage elevando os juros para conter pressões inflacionárias, configurando um cenário contraproducente para a economia brasileira. Em ano eleitoral, a tendência é de manutenção dos juros em dois dígitos, ao mesmo tempo em que o governo preserva políticas expansionistas, o que amplia as tensões sobre o equilíbrio macroeconômico.

Outro elemento relevante é o chamado Risco Brasil, indicador que funciona como termômetro da confiança do mercado internacional na estabilidade econômica e política do país. Em 2025, o Risco Brasil atingiu 145 pontos, o menor patamar registrado no período recente. Contudo, segundo análise da Revista Exame, “os principais riscos para o Brasil em 2026 devem ter impacto moderado no curto prazo, mas podem se tornar decisivos à medida que o país se aproxima das eleições presidenciais, marcadas para outubro”.

A consultoria Eurasia Group avalia que os riscos internacionais tendem a ter impacto moderado sobre o Brasil e que, em alguns casos, podem inclusive gerar benefícios de curto prazo. Ainda assim, as eleições presidenciais de 2026 serão altamente competitivas e decisivas para o rumo político e econômico do país, e os choques externos possuem potencial para influenciar significativamente esse processo.

Diante desse cenário, o Brasil entra em 2026 pressionado por um ambiente internacional menos favorável e por contradições internas entre política fiscal, política monetária e dinâmica eleitoral. A combinação entre desaceleração global, juros elevados e incerteza política doméstica impõe limites claros ao crescimento sustentável. Mais do que nunca, a capacidade de coordenação institucional, a previsibilidade econômica e a responsabilidade fiscal serão decisivas para determinar se o país atravessará o próximo ciclo como mero receptor de turbulências globais ou como um ator capaz de transformar riscos em oportunidades estratégicas.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo