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O mundo invertido da cultura – por Atílio Alencar

1Nada melhor do que conhecer os bastidores da produção cultural pra desfazer a impressão glamourosa que por vezes esse tipo de trabalho pode gerar. Nesse sentido, o trânsito pelas dimensões invisíveis do espetáculo – palcos em processo de montagem, cabines de controle, coxias, camarins, backstages e afins – permite uma perspectiva do processo mais do que do produto. Dizer isso parece reforçar o óbvio, mas dado o volume incomensurável de bobagens preconceituosas que se diz sobre o trabalho com cultura, às vezes é necessário um certo didatismo.

Pois bem.

2Santa Maria tem, via de regra, uma agenda cultural bastante agitada. Claro que frequentar todos os eventos é praticamente impossível para quem precisa conciliar fruição artística com o batente na manhã seguinte. No meu caso, o “privilégio” reside no fato de que meu trabalho consiste justamente em me fazer presente em muitas apresentações. Não que isso me favoreça enquanto espectador; talvez por uma questão de ângulo de observação – mas jamais pela tranquilidade e relaxamento. Quem trabalha com o aspecto operário da arte sabe do que estou falando. Para quem não trabalha, recomendo atenção aos detalhes.

Sabe aquele som cristalino que pulsa nos amplificadores direcionados ao público? Ou a luz que cria a atmosfera dos shows e espetáculos teatrais? Os elementos visuais que compõem o cenário? Pois é. Tenha certeza que foram necessárias centenas de horas e muitas mãos envolvidas na construção da paisagem sensível que você admira ou critica enquanto assiste ao espetáculo. Os acertos técnicos, embora geralmente creditados pelos artistas nos agradecimentos, acabam eclipsados pelo resultado geral do evento, com ampla ênfase para os talentos expostos sobre o palco. Já os erros, esses não passam nunca despercebidos – e são nesses momentos ingratos que se costuma amaldiçoar a face ausente do técnico responsável pela falha. Triste sina, a de quem só conhece da fama seu lado cruel.

4Semana passada foi um desses períodos que coincidem com uma alta concentração de eventos culturais. Como trabalhador, estive presente em pelo menos um deles. Como espectador, em outros dois. Em todos eles – nos shows do magrão Pylla, da Louis&Anas e da Pegada Torta – o que testemunhei foi a habitual confluência de esforços entre artistas, técnicos e produtores para que a coisa acontecesse da melhor maneira possível. É um troço fascinante. Apaixonante, na verdade. A respiração nos bastidores, a jornada intensa de trabalho para deixar o som redondo, a luz afinada, o figurino ajustado, o cenário funcional e expressivo – tudo isso, perdoem-me o clichê, é um espetáculo à parte.

Quando os artistas enfim sobem ao palco e os primeiros acordes avançam como ondas buscando o corpo da plateia, um primeiro alívio se esboça. Mas logo é substituído por uma nova tensão, pela necessidade de corrigir alguma falha, pela urgência da manutenção permanente que qualquer evento exige.

Conhecer esse “mundo invertido” da cultura, o avesso do palco, é uma experiência arrebatadora. Acima de tudo, fortalece o respeito por quem dedica inteligência e força braçal para materializar o espetáculo.

As fotos que acompanham esse texto são um pouco isso: uma dedicatória singela para todos e todas que aplicam sua criatividade como ferramenta de suporte para a expressão artística. Os registros, nesse caso, são breves testemunhos dos bastidores do show ASSIM SOUL, que a banda Louis&Anas apresentou no Theatro Treze de Maio.

O show, aliás, foi lindo. A banda brilhou em cena – e outras pessoas, como sempre, também brilharam na órbita escura do palco.

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