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ESPAÇO ALVIRRUBRO. Inter-SM não perdeu apenas um jogo, constata, triste, Leonardo da Rocha Botega

Duas derrotas em um jogo

As derrotas são parte do futebol. Algumas derrotas marcam a nossa vida, sobretudo, as derrotas da infância. Essas são as mais doloridas. Lembro que tinha somente quatro anos quando nosso futebol começou a perder a magia com a derrota para a Itália em 1982. Apesar de muito menino, ali eu começava a entender a tristeza da derrota. Em 1986, chorei o fim daquela geração na decisão por pênaltis com a França. Em 1990, chorei pela estúpida mania de setores do Brasil em copiar o que é feio. A nossa incapacidade em parar a genialidade de Maradona e a precisão de Caniggia foi uma punição por isso. Me redimi em 1994, mas ali não estava a beleza de nosso futebol.

Deixando a juventude de lado, não chorei os 7×1 de 2014. Engasguei quando liguei para o meu sobrinho e ele me disse que se refugiou no quarto diante do quinto gol alemão. Ainda sigo engasgando o nosso 7×1 cotidiano, onde dono de helicóptero que transportava droga vira dirigente da CBF e o silêncio oportuno da indignação seletiva se faz presente. As derrotas do futebol são doloridas, mas as derrotas da vida são cruéis. As derrotas do futebol nos deixam tristes, mas não mudam a nossa vida para além de alguns instantes. As derrotas da vida nos abalam e nos questionam sobre o que é o ser humano.

Na derrota que tivemos em Ijuí, em 2017, tive a sensação de que perdemos no futebol e na vida. Em campo, perdemos para o time que tinha melhor estrutura financeira. Nós, humildemente, estávamos (ainda estamos) consertando o estrago de irresponsabilidades de direções anteriores e perdemos com a sensação de que podíamos ganhar (por pouco não conseguimos).

Mas a derrota mais triste daquele jogo foram os atos racistas oriundos de poucos torcedores do São Luiz (clube que faz louváveis campanhas antirracistas). Atos que foram protegidos por quem deveria proteger os que sofrem a violência covarde do preconceito. Aquela derrota da vida doeu muito em mim que sou branco, oriundo da “classe média” e em tese socialmente aceito. Imagine como não doeu em que é negro, periférico e sente no dia a dia o desprezo por sua cor da pele?

Em Pelotas, na primeira partida do returno, perdemos mais uma vez. E mais uma vez perdemos duas vezes, em campo e na vida. Não estive no jogo. Infelizmente, o trabalho intelectual (muito desprezado em um dos últimos países da América Latina a ter o acesso universal ao ensino primário) não tem jornada certa. A jornada do professor e do pesquisador depende não apenas do tempo disponível, mas sim, de sua saúde mental (E o tempo da estrutura social não esta nem aí para isso). Por isso muitas vezes somos renegados a não poder acompanhar o girar do mundo como queríamos.  Por não estar presente, o que eu trago aqui são relatos de rádio e de amigos torcedores que lá estiveram.

A equipe de cobertura do jogo me contou que em campo tivemos um jogo equilibrado. O Pelotas estava disposto a “vingar” a derrota amarga do último jogo e o Inter-SM não queria ser vingado. Resultado: primeiros minutos de tirar o fôlego do narrador. O alvirrubro teve uma chance de gol com Pablo aos 2 minutos. O adversário perdeu um gol inacreditável aos 3 minutos. Bola na trave de Hugo Sanchez e, sem goleiro, Carlão Moraes chutou para fora. O mesmo Hugo Sanchez ainda chutaria próximo a trave aos 9 minutos.

Quando o clima parecia empolgar menos o nosso narrador, saiu o gol. Aos 26 minutos, o experiente Giancarlo cabeceou para o fundo das redes um cruzamento de Jean Roberto. Pelotas 1×0. O bom goleiro alvirrubro, João Paulo, evitaria o segundo gol do áureo-cerúleo com uma grande defesa aos 37 minutos. O primeiro tempo, terminaria com uma oportunidade de empate desperdiçada pelo alvirrubro em uma jogada de Chiquinho.

No segundo tempo, com Rafinha e Paulo Henrique nos lugares de Jardisson e Jackson, os meninos de Vinicius Munhoz tiveram o domínio do jogo. Aos 4 minutos, Rafinha tentou. Aos 14 minutos, Pablo cruzou e Chiquinho chutou mal. O Pelotas só respirou aos 29 minutos, quando Jean Roberto quase ampliou o placar cobrando falta. E seguiu respirando defensivamente para que aos poucos o jogo fosse amornando e chegando ao final com a derrota alvirrubra. Assim foi a nossa derrota em campo.

Torcedores alvirrubros em Pelotas. Chegam com eles relatos de racismo explícito. Para quem não sabe, um crime (foto Gabriel Mathias)

A derrota da vida foi mais amarga e com ares de repetição. Mais uma vez o racismo esteve presente nas arquibancadas. O jogo não havia nem terminado e os relatos já vinha chegando. Relatos de meninos que na última semana empolgadamente insistiam para que eu fosse no jogo com eles. Chegavam com a desesperança de quem mais uma vez é violentado em um país onde os tempos sombrios naturalizam a estupidez. Relatos que falam de gestos imitando macaco e agentes públicos que preferiram retirar violentamente nossa torcida para fora do estádio antes do término do jogo para “evitar confusão”.

Triste, muito triste! Oxalá a direção do Inter-SM, que recentemente fez um belo gesto de apoio institucional contra o racismo, minimamente faça uma queixa formal as instâncias cabíveis. Não se pode tratar tal ato como apenas uma animosidade entre torcidas rivais. Que as derrotas da vida sejam tratadas como as derrotas de campo! Só assim o futebol e a sociedade serão melhores! Só assim esses tempos tão brutais que vivemos nos trarão alguma esperança!

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