EM DEBATE. Como novas formas de mídia afetam desenvolvimento das crianças e dos adolescentes

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O computador, geralmente de uso coletivo, perdeu espaço para dispositivos individuais, como o smartphone (Imagem de Divulgação)

Por PAOLA SALDANHA (com fotos de Arquivo Pessoal), Especial para o Site

Nos últimos anos, a multimidialidade se faz presente na forma como se consome conteúdo. Comunicação, informação, entretenimento em aparelhos do tamanho da palma da mão. Entre outros dispositivos, o telefone compõe o cenário de casas, escolas, empresas e chega a todas as faixas etárias, inclusive, a crianças e adolescentes.

Conforme a pesquisa Kids Online 2017, desenvolvida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), entre 2012 e 2017 houve um salto de 72% no uso do telefone para acesso a internet da população dos 9 aos 17 anos.

Para a elaboração dos dados, foram aplicadas 3.102 entrevistas com crianças e adolescentes, dos 9 aos 17 anos, e seus responsáveis, em todo o país, entre novembro de 2017 e maio de 2018. O estudo também apontou que 85% dos jovens ouvidos haviam acessado a web há pelo menos três meses.  Para o professor universitário e mestre em comunicação midiática, Maurício Dias, as tecnologias mais baratas, assim como planos mais acessíveis, contribuíram para que a possibilidade de acesso fosse maior. Além disso, o celular permitiu um consumo mais personalizado e pessoal. “Pela primeira vez tu tem uma mídia que é individual. Um dispositivo que é teu. Esse comportamento favorece a maior disponibilidade no uso e modificou também a forma como se utiliza, por ser mais privado”, explica.

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Família Souza: pais de Ana Flávia e Francisco não acompanham os conteúdos, mas dialogam a respeito dos riscos oferecidos pela internet

João Flavio de Souza, 60 anos, conta que seus dois filhos, Ana Flávia Gonçalves de Souza e Francisco Gonçalves de Souza, de 18 e 15 anos, respectivamente, já possuem seus celulares. A filha mais velha possui seu aparelho há cerca de quatro anos enquanto o menino há pouco mais de seis meses. “Não há regras de horários e nem um controle do conteúdo que é acessado, mas conversamos e explicamos os ricos e os cuidados que devem ter”, relata Souza.

Ana Flávia afirma que os pais sempre tiveram uma relação liberal quanto ao seu uso de dispositivos e acesso, mas que sempre a conscientizaram sobre a utilização devida. “Eu passo o dia no celular ou no computador estudando, é como se eu dependesse disso, mas nunca tive um excesso por ficar em redes sociais ou algo do tipo e nunca tive minha vida social afetada por isso também”, salienta.

O psicólogo Diogo Gomes destaca que o contato com novas tecnologias e internet gerou uma grande mudança no desenvolvimento infanto-juvenil, entretanto, as modificações pendem mais para os aspectos negativos. “Isso porque quando a gente não tem algo pronto, se trabalha mais com o imaginário, com o criar e produzir. No momento em que isso vem completo, acaba por não ativar algumas partes do nosso cérebro responsáveis pelo desenvolvimento”, alerta.

Dias evidencia que as mídias e os materiais são desenvolvidos para que as pessoas consumam mais. “Os conteúdos são feitos para que as pessoas fiquem mais tempo, que elas se divirtam mais, busquem mais. Os profissionais de desenvolvimento e de marketing desenvolvem recursos e conteúdos para chamar atenção e reter mais as pessoas”.

Contudo, o professor e pesquisador também adverte que o uso em excesso pode trazer prejuízos além das mídias e que é preciso mensurar até que ponto essas atividades paralelas afetam o dia a dia. “As pessoas são mais multitarefas, fazem mais coisas ao mesmo tempo.  Mas existe um limite para essa multitarefa, inclusive, para a qualidade dessas varias atividades feitas ao mesmo tempo”, frisa.

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Família Martins Iessen: ainda que as filhas tenham seus dispositivos móveis, Alexandra monitora as atividades que elas desenvolvem

Alexandra Martins Iessen, 32 anos, declara que costuma examinar o que a filha mais velha, Kaylane Martins Iessen, de 15 anos, acessa. “A gente sempre conversa sobre o que é perigoso e eu dou uma olhada no telefone dela”, conta. A filha mais nova, Ketelyn Martins Iessen, de 6 anos, também possui aparelho, mas sem conexão com a internet. Para Kaylane “é meio chato eles ficarem olhando o telefone, mas também temos que ver o lado deles, que querem o melhor pra gente, para não nos envolvermos com coisas erradas”.

Gomes assinala que os pais devam ter um controle mais rígido sobre o acesso dos filhos. “As orientações são para terem bastante controle em relação ao que a criança ou adolescente vai usar, o que está acessando. Ter horário e local para usar”, pontua. Já para Dias, a pressão em excesso também pode ser prejudicial, pois não garante que a criança e o adolescente não tenha contato com outros conteúdos. Porém, também afirma que quando se libera demais se perde o controle.

Ambos concordam, então, que a base para uma boa relação dos filhos com as tecnologias é o diálogo. “É preciso ter um meio termo na relação com os filhos, no contato com os dispositivos, com as redes e nos conteúdos como um todo. Também faz parte do diálogo que os pais devem ter com os filhos, falar sobre o que é uma fraude via internet, como ela acontece, saber que a gente pode receber informações phishing (técnica online de fraude) via e-mail, rede social. Quebrar um pouco o tabu”, frisa Dias.

Para Gomes, “a comunicação é fundamental. A família não pode tapar o sol com a peneira. Tem que conversar, se mostrar próxima e não julgar, porque o adolescente, depois, tem dificuldades de contar para os pais algumas coisas por causa do julgamento”.



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