Salada de frutas - por Orlando Fonseca

Salada de frutas – por Orlando Fonseca

Salada de frutas - por Orlando Fonseca - orlando-2Tudo o que os regimes de força querem é que se ria deles. Vou pensar, para não morrer de vergonha alheia, que o que está acontecendo, na cômica transição em nosso país, é uma ação estratégica. Extra-trágica traduziria melhor a situação, mas o que fazer?

O propósito do que alguns de nós assistem estupefatos é tornar palatável tudo o que vem aí pela frente. Lembrando que, segundo o Ibope, 75% dos brasileiros acham que o novo governo está no caminho certo. Ou seria parte da estratégia desviar a atenção dos mais atentos para que não se incomodem com coisas, digamos, menos nobre? Pareceria ao menos algo inteligente. Em meio a goiabas, jabuticabas e laranjas, este final de feira na política nacional deixa uma pequena margem para o humor, em meio à perplexidade.

Desde a Antiguidade, os poderosos sabem que a política de pão e circo funciona para acalmar a patuleia. Neste marketing político, um ditador sabe que, por mais jocoso que lhe pintem os artistas, uma imagem capaz de provocar riso é sempre simpática e oportuna.

Não é à toa que, através dos tenebrosos séculos da Idade Média, os senhores feudais – reis e imperadores – mantinham em suas cortes um especialista: o bobo. Por outro lado, os comediantes, humoristas e clowns sabem que rir da desgraça é um primeiro passo para superá-las.

Imaginar uma outra possibilidade, um outro mundo como crítica ao que está aí tem o poder de provocar desejo de mudança. O difícil é se equilibrar na estreita faixa entre a crítica e o cinismo.

Do mesmo modo é difícil de saber se é pra rir ou pra chorar o que estamos presenciando com as decisões tomadas para o próximo período. A impressão que se tem é de uma gestão errática, com as idas e vindas, com as marchas e contramarchas (a propósito, um gabinete formado com a maior participação de militares, desde a redemocratização).

Anúncio de mudança da embaixada do Brasil em Israel, sem um propósito claro; política de afastamento do Acordo de Paris, em meio a evidências de que parceiros comerciais fecharão as portas a quem não cuidar do meio ambiente; política de privatizações, com a entrega ao capital estrangeiro de setores estratégicos.

Enquanto um general quer punição, considerando “burrice ao cubo” as falcatruas, outro alardeia inocência no esquema do clã Bolsonaro, considerando “irrisório” um valor apurado de R$ 1,2 milhão.

Ao mesmo tempo, três em quatro brasileiros acreditam que a equipe do governo e seu líder estão tomando as decisões corretas para o país. Fico pensando que algo tem a ver com a queda na venda dos jornais. Isso eleva o que se percebe na fala de algumas pessoas no supermercado, nas lojas, no calçadão – e eu achando que era ironia: “agora a coisa vai melhorar, com esse daí!”

Os números do Ibope mostram que, quanto maior a renda familiar, maior o percentual dos que acreditam nisso – por ironia, estamos na época em que o Papai Noel deve aparecer. Como falei, são os que ainda podem ir às compras. Sob o efeito da decoração festiva e das vibrantes canções natalinas, fico pensando o que é a democracia.

Em outros tempos bicudos, como diria o Quintana, um antigo compositor baiano nos apresentava a Geleia geral. Agora, na iminência de tudo o que se pode realizar, teremos a salada de frutas. Jabuticaba não dá em goiabeira, como se sabe.

A presença de JC em um pé nacional – a se acreditar no testemunho de uma futura ministra -, mostra que esse milagre brasileiro é possível. É esperar o ano que vai nascer, caminhando e cantando: “Ê, bumba-yê-yê-boi/ Ano que vem, mês que foi/  Ê, bumba-yê-yê-yê/ É a mesma dança, meu boi”.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *