KISS, SEIS ANOS. Luiz Alberto Cassol e a sugestão: Santa Maria e um abraço que vença “a soma do não”

KISS, SEIS ANOS. Luiz Alberto Cassol e a sugestão: Santa Maria e um abraço que vença “a soma do não”

Um abraço ou a soma do não

Por LUIZ ALBERTO CASSOL (*)

KISS, SEIS ANOS. Luiz Alberto Cassol e a sugestão: Santa Maria e um abraço que vença “a soma do não” - kiss-selo-1Vamos aos fatos. O resto é meio termo, covardia, impunidade, hipocrisia.

A data de 27 de janeiro de 2019 marca os seis anos da tragédia da boate kiss. Todas as perguntas feitas ainda não receberam respostas efetivas. Isso cria um não pertencimento de parte da comunidade para com a realidade. E o real é que pedido algum de desculpas em nome da cidade de Santa Maria foi feito para as mães, pais e sobreviventes. Isso teria como resultado o devido respeito a elas e eles, além da autenticidade coletiva em entender todas as manifestações das pessoas atingidas.

Mas isso não aconteceu. E foi inacreditável o que ocorreu nesse tempo. Três pais e uma mãe foram processados por buscarem respostas. Questionamentos, entre outros, de como a boate estava em funcionamento? Afinal se comprovou por toda investigação que o espaço não poderia estar aberto. E como entender que o prefeito da época na tragédia foi nomeado Secretário de Segurança do Rio Grande do Sul em 2016? Se ele em nenhum momento fez o que se esperava de alguém em sua função, um pedido de desculpas em nome de toda a comunidade. Se isso tivesse acontecido como o restante teria funcionado?

Como entender essa sucessão de fatos? Qual exemplo fica para o futuro? E a conclusão final das causas que levaram até aquela madrugada e os atos de hoje? E a justiça no sentido amplo da palavra? E a execução das leis? Qual o aprendizado? Acontecerá novamente?

Por tudo isso, a cada mês em que se avizinha a data 27, a cada ano em que se aproxima o mês de janeiro, é fundamental refletir sobre as injustiças e atitudes contra os familiares, sobreviventes e a causa que defendem nesses seis anos.

A causa é por busca de respostas, de justiça e, acima de tudo, para que nunca mais aconteça. No entanto saber que mesmo assim, e por tudo que passaram, ainda recebem desaprovação por parte da comunidade não é aceitável em nenhuma hipótese, conjuntura ou raciocínio. Nessa causa só existe um lado!

Pais e mães enterraram seus 242 filhos e filhas numa das maiores tragédias da história.  Flagelo que além das mortes deixou mais de 600 pessoas feridas.

Muitas instituições e pessoas abraçam a causa dos familiares e sobreviventes e merecem toda a consideração. Mas é preciso muito mais! É crucial que toda a comunidade abrace. Se não houve o pedido de desculpas em nome do todo, então que o abraço de cada pessoa se torne um pedido de desculpa por vez, num ato concreto de solidariedade. Uma catarse de adesão para com essa causa.

Um dos movimentos que surgiu logo após a atrocidade daquela madrugada foi o “Santa Maria do Luto à Luta”. Seu significado diz muito até hoje. Da luta por justiça, passando pela luta pelo respeito, até chegar hoje na luta por um abraço.

E por que chegar na luta por abraço?

Porque foram e são cometidos atos torpes contra mães, pais e sobreviventes atingindo a inversão total no que se entende por compaixão, por humano. Frases e palavras que são ditas e pensadas diariamente por uma parcela da população da cidade de Santa Maria. Resultado das respostas e desculpas não proferidas nos primeiros meses após a tragédia. Consequência de tanta inversão de valores. Efeito de uma cidade que não sabe lidar com seu luto, pois não houve um encaminhamento para isso. O caminho até aqui é trilhado de outra forma.

“Não! Não! Não!”

“Não importune, não grite, não fique em silêncio, não converse, não reúna, não proteste.”  “Não faça nada!”

“Não atrapalhe a cidade, o desenvolvimento, o comércio.” “Não faça nada!”

“Não chore e prossiga com sua vida!” “Não!”  Expressão que resulta da covardia, da impunidade e da hipocrisia.

Seres humanos que dizem isso para outros seres humanos. Aqueles seres que enterraram seus filhos e filhas ou, então, os seres sobreviventes que vivem até hoje com sequelas físicas e psicológicas.

Como sentir o que passa quem foi atingido pela tragédia?

Como se colocar no lugar da mãe, do pai, do sobrevivente? Impossível. Mas não se colocar no lugar, não significa não se colocar ao lado.

Chega do não. Chega da soma desse termo. Basta dessa mordaça invisível. Basta de tamanha violência diária. O luto de cada mãe e pai, só eles podem sentir. Mas um abraço terno e longo deve ser dado.  Um abraço a cada encontro, a cada dia.

Um abraço que vença a soma do não.

Um abraço que ajude a entender que o luto é de Santa Maria. E só aceitando o luto é que ele será compreendido.

Quem sabe o abraço proporcione um efeito devastador de abraços a ponto de um dia a cidade pedir desculpas.

Quem sabe o abraço proporcione um efeito descomunal para que seres humanos respeitem o valor inexplicável da vida para outros seres humanos a ponto de respeitar todos os seus gritos, choros, silêncios e saudades.

(*) Cineasta; diretor do documentário “Janeiro 27” (codirigido com Paulo Nascimento)



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *