ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega, o carnaval e a hora de ouvirmos os Josés, Neis, os ‘loucos’, os… as…

ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega, o carnaval e a hora de ouvirmos os Josés, Neis, os ‘loucos’, os… as…

ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega, o carnaval e a hora de ouvirmos os Josés, Neis, os ‘loucos’, os… as… - leonardoO GEPA e as Histórias que Santa Maria não conta

Por LEONARDO DA ROCHA BOTEGA (*)

A maior festa popular da América Latina, o Carnaval, e a História sempre estiveram lado a lado. Desde 1960, quando o Quilombo dos Palmares foi levado ao desfile pelo Salgueiro, passando pela ditatorialmente vigiada “História da Liberdade no Brasil” contada pelo Império Serrano em 1969, pela “Festa das Raças” da Kizomba promovida pela Vila Isabel em 1988 e a Liberdade que “abria as asas sobre nós” da Imperatriz Leopoldinense em 1989, as avenidas sempre foram um palco privilegiado para a promoção do diálogo entre o popular e o erudito. Obviamente, 2019 não foi diferente! Ou melhor foi!

“A História para ninar gente grande” trazida pela Estação Primeira de Mangueira não somente seguiu os caminhos anteriormente traçados, como representou um sopro de inteligência em tempos onde o anti-intelectualismo é arrogantemente propagado como uma virtude em medíocres exercícios de desrecalque.

Comandada pelo carnavalesco Leandro Vieira, a “maior Escola de Samba do Planeta” transformou em cultura popular o que muitos acadêmicos espalhados por Cursos de História no Brasil todo tem feito já há algum tempo. A bibliografia utilizada na apresentação do Enredo demonstra isso.

Lá estão os “Bestializados” de José Murilo de Carvalho, as “Memórias Sertanistas” organizadas por Felipe Milanez, “Rebelião escrava no Brasil” de João José Reis, “Caminhos e fronteiras” de Sérgio Buarque de Holanda, entre outras obras que fazem parte da formação dos historiadores e das historiadoras brasileiras.

Uma explosão de conhecimento que serviu para registar, resgatar e popularizar os estudos sobre os grupos subalternos que com sacrifícios e lutas construíram o país e que são desmerecidos pela narrativa de uma elite que despreza o seu próprio povo.

Em Santa Maria, tais estudos ainda estão longe de ser popularizados. Ainda predominam as lendas e os “mitos fundadores” que não deixam revelar as negociatas e as exclusões que estiveram por trás dos “grandes feitos”. Porém, muitos estudos da subalternidade têm sido feitos, apesar das dificuldades de sobrevivência de muitos jovens pesquisadores. Um exemplo vigoroso destes estudos é o Grupo de Estudos do Pós-Abolição do Curso de História da UFSM.

Coordenado pelo professor Luís Augusto Farinatti, pela doutoranda na UFSM, Franciele Rocha de Oliveira, e até 2018 pela agora mestranda na UFRGS, Helen da Silva Silveira, o GEPA tem sido uma exitosa experiência de reconstrução de uma História de baixo para cima, ou seja, da História dos “excluídos da História”.

A dissertação de mestrado “Dos laços entre José e Innocência: trajetórias de uma família negra entre a escravidão e a liberdade no Rio Grande do Sul” de Franciele Rocha de Oliveira, os trabalhos de conclusão de graduação “Eu négo que aqui só tenha branco: experiências negras no Pós-Abolição em Venâncio Aires/RS” de Helen da Silva Silveira, “Na saúde e na doença: perfil social das mulheres pobres na Santa Maria/RS do início do século XX (1903-1913)” de Gabriela Rotilli, “Os loucos e a rua: espaço da loucura em Santa Maria/RS 1900-1910” de Izadora Dorneles, e “Menores populares na primeira República Santa Maria 1917-1921” de Felipe Farret Brunhauser, além da Campanha de Campanha de Preservação dos Jornais da Imprensa Negra de Santa Maria e do projeto de resgate da História dos times de futebol negros da cidade desenvolvidos por Taiane Lima, são partes desse processo.

Um processo que é anterior ao próprio GEPA, basta mencionarmos o trabalho de conclusão de curso “Moreno rei dos astros a brilhar, querida União Familiar: trajetória e memórias do clube negro fundado em Santa Maria, no Pós-Abolição” também da Franciele Rocha de Oliveira, publicado em livro pela Câmara de Vereadores de Santa Maria em 2016, e os trabalhos sobre a História da Nova Santa Marta, sobre os movimentos ferroviários e comunitários da região.

Trabalhos esses que procuraram e procuram dar voz e ouvir os protagonistas de uma história esquecida pela história. Um processo que tem servido para derrubar as barreiras entre o acadêmico e o popular.

Por isso é que se a Estação Primeira de Mangueira afirmou que “chegou a hora de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, por aqui podemos afirmar que chegou a hora de ouvir os Josés, as Innocências, os Neis, os “loucos”, os “menores populares”, as mulheres pobres, e de ler as Francieles, as Helens, as Gabrielas, as Izadoras e os Felipes! Vida longa ao GEPA!

(*) LEONARDO DA ROCHA BOTEGA é professor do Colégio Politécnico da UFSM.

NOTA DO EDITOR: A imagem que ilustra este artigo é uma reprodução da internet.



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