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CRÔNICA. Orlando Fonseca e a Feira do Livro: não será por falta de motivação que o leitor ficará sem ler

Feira, mais uma vez

Por ORLANDO FONSECA (*)

Nesta semana começa mais uma Feira do Livro, em nossa cidade. Nascida ainda em tempos difíceis, nosso maior evento cultural tem a marca da resistência. Em 1973, viviam-se os tempos duros da ditadura no Brasil, e a legislação não permitia aquele perigoso encontro de gente, em praça pública, em busca de livros. Um povo instruído, leitor, que se aglomera para debater sobra vida em sociedade, era considerado um risco para a segurança nacional.

Antes desse ato corajoso dos alunos do Curso de Comunicação da UFSM, houve duas tentativas ainda no início da década de 1960, mas a Feira não teve outras edições, justamente por ter sido interrompida pelo golpe civil-militar de 64. Uma coisa podemos ter certeza: o livro é a maior arma contra uma democracia em crise.

Os números da leitura no país são críticos. Várias tentativas institucionais têm sido feitas ao longo dos anos de redemocratização. Temos experiências elogiáveis nos projetos de popularização do livro e formação de leitores. O patrono da nossa Feira, este ano, Maurício Leite, é um desses persistentes missionários da disseminação do livro. Com seu projeto Mala de Leituras, com apoio da UNICEF, tem circulado por lugares onde os braços institucionais não alcançam, tanto no interior do Brasil quanto fora dele, como Angola, Moçambique e Portugal.

De acordo com os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro e Ibope, a escola tem sido o espaço privilegiado da leitura. Nossos índices gerais de menos de 2 livros por ano, ainda têm nas crianças em idade escolar o público mais leitor do país. Trabalho persistente de professores preocupados com a formação cidadã, para além da instrução formal das disciplinas curriculares. Fora da escola, as causas para o desinteresse crescente para com o livro são muitas, mas temos convicção de que é possível superá-las.

Por falta de motivação é que os leitores de Santa Maria não ficarão sem ler um livro este ano, como tem acontecido com uma parcela significativa de brasileiros – falando apenas nos grandes centros. Além da possibilidade de encontrar grandes lançamentos e o já tradicional desconto, a Feira tem um cardápio variado de atrativos para um verdadeiro banquete cultural. Nos encontros do Livro Livre, teremos momentos para ficar na história.

Pela primeira vez teremos a presença de um escritor à altura de Antônio Skármeta, autor do best seller O carteiro e o poeta, que virou de filme também consagrado com Oscar e tudo. Outro livro seu, Um pai de cinema, foi para as telas, com a produção do brasileiro Selton Mello. Além desse, ainda temos nomes de peso como os da jornalista Eliane Brum e da escritora Marina Colassanti. A lista de lançamentos tem importantes nomes da literatura nacional e local.

Teremos a oportunidade de homenagear o nome de um grande incentivador da Feira do Livro, interessado também em divulgar o valor da literatura, especialmente entre os pequenos. Falo do poetinha, Humberto Gabbi Zanatta, que nos deixou há poucos meses.

Também, nesta mesma preocupação com os autores locais que já passaram, teremos uma homenagem ao Prado Veppo, que nos deixou há 20 anos. Será no Livro Livre do dia 3 de maio, um bate-papo com o professor homenageado desta edição, Pedro Brum Santos, e convidados.

A Feira do Livro, uma das mais antigas em espaço público do país, ocupa um espaço significativo na vida cultural de Santa Maria. No momento em que a produção editorial no país padece com a sucessivas crises econômicas, temos durante estes 16 dias muitos motivos para buscar a sabedoria dos livros.

De minha parte, convido os leitores para o lançamento do livro Baixada Melancólica – contos da depressão central, dos autores que compõem o coletivo literário, Turma do Café, há 17 anos ajudando a movimentar a cultura local. Dia 2 de maio, 17h, no espaço de autógrafos da Feira, esperamos os amigos.

(*) ORLANDO FONSECA é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e  Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a imagem que ilustra esta crônica (da Feira do Livro) é de arquivo.

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