CRÔNICA. Orlando Fonseca, o poeta Bob Dylan e noções de Justiça – no que toca, claro, ao nosso Brasil

CRÔNICA. Orlando Fonseca, o poeta Bob Dylan e noções de Justiça – no que toca, claro, ao nosso Brasil

CRÔNICA. Orlando Fonseca, o poeta Bob Dylan e noções de Justiça – no que toca, claro, ao nosso Brasil - orlando-2Sobre justiça

Por ORLANDO FONSECA (*)

Fim de semana, tentando me desvincular das amarguras e surpresas da conjuntura em nosso país, pensei em me evadir, procurando algum entretenimento nos canais pagos da televisão. Mas a semana avança sobre o tempo de ócio, avassaladora, com suas notícias deprimentes e pouco alvissareiras.

Tendo encontrado um filme que me pareceu interessante, pus-me a observar atento às cenas do documentário sobre um dos maiores artistas populares da música internacional. Justamente aí é que a realidade contemporânea e presente invadiu a narrativa cinematográfica, daquela obra produzida por ninguém menos que Martin Scorsese.

A letra de uma das canções interpretadas pelo protagonista saltou da tela com força: “Vê-lo obviamente condenado numa armação/ Não houve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha de morar em um país/ Onde a justiça é um jogo” (numa tradução livre).

O filme em questão chama-se Rolling Thunder Revue, e trata de uma experiência criativa protagonizada por Bob Dylan e um grupo de poetas, cantores e músicos, pelo território americano profundo, em meados dos anos 70, do século passado. Em vista da letra referida acima, e de tantas outras, com suas implicações existenciais e engajamentos políticos, é que entendo ter sido justa a premiação do Prêmio Nobel de Literatura, com a qual o Bardo foi agraciado em 2016.

A música “Hurricane”, um dos sucessos de Dylan, não apenas relata uma injustiça praticada contra um boxeador negro, preso, julgado e condenado injustamente, mas também foi parte de uma cruzada que o cantor realizou para resgatar a liberdade e a dignidade de Rubin Carter.

Pus-me a pensar, em seguida, após os créditos do filme, nos sentidos que a palavra justiça pode ter. Deveria ser um apenas, uma vez que, vivendo em uma sociedade civilizada, em uma república democrática, a lei deveria ser uma para todos, sem que houvesse distinção entre os cidadãos quanto à garantia do que é direito.

Esta seria a verdade que liberta, pois a lei deveria estar no exato lugar em que se garantem as simetrias sociais, a igualdade, a fraternidade, que conduzem à sonhada liberdade dos Iluministas. Os operadores do processo jurídico não poderiam ter manuais distintos para tanto, o que significaria que “justiça” só pode ter um significado, o qual se pode encontrar no dicionário.

Entretanto não é o que vemos. Como diz a letra do poeta pop americano, trata-se de um jogo. Para muitas pessoas – ditas “de bem” – a resposta, ainda que não explícita, é “justiça é o que me favorece”. Se não me favorece é injustiça. Se favorece o meu adversário, ou meu inimigo, não é justiça. A régua é individual, egocêntrica, e o exercício do poder não tem a virtude republicana de promover o bem comum.

Aliás, o que vemos no país no momento é estarrecedor, pois o senso comum ocupa o centro das decisões para favorecer uma minoria, em detrimento da maioria. Nada de ações afirmativas e reformas sociais, o que importa é impulsionar o lucro – o lucro, o rendimento é que salvará o país. E para isso pratica-se a justiça do favorecimento aos capacitados – gerenciar o dinheiro não é para todos.

Que graça tem um elevador social, se até os empregados domésticos podem se servir dele para ascender, ainda que seja por uns 8 andares? Programas sociais para beneficiar gente pobre? Precisamos é subsidiar os juros para garantir o crescimento econômico!

Estamos sendo sacudidos, já há duas semanas, com as notícias de uma armação que condenou um brasileiro. Não um qualquer, mas, enfim, diante do que pode ser, estamos à mercê da mesma balança de uma justiça que não é cega, mas apenas míope.

Se é culpado ou não, quem sou eu para julgar? Refiro-me tão somente à armação, que já era de desconfiança geral – e não apenas no Brasil, e não apenas por leigos como eu, mas por juristas de renome pelo mundo afora.

Então, passei o final de semana com a sensação amarga que a música do Dylan pôs em minha cabeça: como não sentir vergonha de morar em um país onde a justiça é um jogo?

(*) ORLANDO FONSECA é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

OBSERVAÇÃO: a imagem que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet (Freepik.com)



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