ARTIGO. Luciano do Monte Ribas, fim dos radares e, junto, também o aumento de acidentes e das mortes

ARTIGO. Luciano do Monte Ribas, fim dos radares e, junto, também o aumento de acidentes e das mortes

O especialista em morte

Por LUCIANO DO MONTE RIBAS (*)

ARTIGO. Luciano do Monte Ribas, fim dos radares e, junto, também o aumento de acidentes e das mortes - luciano-artigo-1Quando comecei a escrever esse pequeno texto, confesso que pensei em fazer alguma graça com as fixações escatológicas do néscio. Afinal, é difícil ter à frente de um país importante como o nosso alguém que fale de cocô “dia sim, dia também”. Inclusive, eu já tinha um título – “A indústria da m…” – quando me dei conta que era metido a engraçadinho demais para um assunto tão sério como a violência no trânsito.

Esse título abandonado também faria referência à expressão “indústria da multa”, cunhada por algum espertalhão e que se tornou uma espécie de escudo para muitas pessoas. Algumas delas ingenuamente influenciadas por políticos e por uma parte sensacionalista da imprensa; outras, porém, espertamente interessadas em justificar os próprios erros, querendo ganhar salvo conduto para a irresponsabilidade ou angariar votos em cima do “caldo de ignorância” que nos assola.

Tudo se uniria em outra fixação do sujeito que queria colocar bombas em quartéis: a condenação do conhecimento, do estudo científico e da opinião dos especialistas. Na verborragia do boquirroto, a ciência virou pária e inimiga a ser exterminada. Estatísticas e números se tornaram mera “I-DE-O-LO-GI-A” e a verdade passou a estar nas correntes do WhatsApp e na iluminação alaranjada dos filhos que fritam hambúrgueres.

Tudo isso seria enredo para tragicomédia se o custo não fosse cobrado em vidas e em destruição. E, ao contrário do que prega a versão tosca do “liberalismo” que está contaminando a juventude, cadeirinhas para bebês, cintos de segurança, limites de velocidade e outras coisas do tipo não podem ser objeto de “opção”, simplesmente porque as possíveis consequências e custos da irresponsabilidade são sociais e não apenas individuais. Falo de dinheiro, inclusive. Pesquisem o que custa o socorro médico nos EUA, que costuma ser cobrado da pessoa acidentada, para entenderem isso.

Além do óbvio, que são as mortes de entes queridos e as lesões temporárias ou definitivas, há para a sociedade como um todo um conjunto de implicações seríssimas. Elas vão de atendimentos de emergência nas estradas e ruas até indenizações e pensões decorrentes de invalidez ou morte.

Me pergunto: se não houvesse o atendimento por parte do Estado malvadão e as pessoas não pudessem pagar (e mais de 90% delas não poderiam), deixaríamos que morressem ou apodrecessem nos acostamentos e nas calçadas? Que definhassem? Que as famílias dos mortos fossem condenadas à miséria? Faríamos isso mesmo quando as vítimas fossem, como provavelmente seja a maioria delas, alguém que não estava pisando no acelerador?

Não se enganem, essa é a I-DE-O-LO-GI-A que está por trás da condenação ao que os especialistas em trânsito afirmam: a enorme redução de acidentes e de vítimas fatais com a fiscalização ativa em ruas e rodovias. Retirar radares fixos e móveis das estradas, portanto, não é apenas mais um ato caricato de um insano empoderado, mas um grande incentivo à indústria da morte. Morte, outra fixação do fascismo, diga-se de passagem.

Por fim, quem escreveu esse texto abertamente defendendo a fiscalização e o endurecimento das leis de trânsito já passou por uma reciclagem.

Fiquei cinco anos indo e vindo praticamente todas as semanas de Porto Alegre e, numa dessas viagens, passei a 96 km/h em um local onde o limite era 60 km/h (hoje, ele subiu para 80 km/h e a BR teve o limite aumentado para 100 km/h). Mas não me sinto vítima de nenhuma indústria da multa, muito pelo contrário. Se fiz o errado, fui punido e cumpri todas as etapas necessárias para recuperar o direito de dirigir (achando isso agradável ou não). O que fiz, acertando na prova escrita, pela segunda vez na minha vida de motorista, vinte e nove questões em trinta.

(*) LUCIANO DO MONTE RIBAS é designer gráfico, graduado em Desenho Industrial / Programação Visual e mestre em Artes Visuais, ambos pela UFSM. É um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema e já exerceu diversas funções, tanto na iniciativa privada quanto na gestão pública. Para segui-lo nas redes sociais: facebook.com/domonteribas – instagram.com/monteribas

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: A foto, também do autor do artigo, é do trânsito em uma rua nas proximidades do Museu de Arte de São Paulo (MASP), em São Paulo, SP



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