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É CINEMA. Bianca Zasso e “O Irlandês”, nova obra genial de Martin Scorsese, que chega direto na Netflix

A solidão do pintor de paredes

Por BIANCA ZASSO (*)

Antes de tudo, um alerta: se o prezado leitor faz parte da turma que torceu o nariz para o diretor Martin Scorsese por conta de sua opinião sobre os filmes da Marvel ou fica criticando o fato do novo trabalho do cineasta ser uma produção da plataforma de streaming mais famosa do mundo, informamos que este texto não vai lhe fazer nada bem.

Para evitar a fadiga e também discussões infinitas que não levam a nenhuma mudança ou questionamento, recomendo que aguarde o próximo texto desta humilde colunista, que será publicado daqui a 15 dias e que, talvez, seja menos “incômodo” aos mais puritanos ou marveletes de plantão. Recado dado, vamos ao que realmente interessa. Ou seja, um dos melhores filmes do ano.

O Irlandês pode assustar os mais preguiçosos com suas mais de três horas de duração. Mas desde já é preciso deixar claro que essa minutagem não é para impressionar, mas sim necessária para contar a saga de Frank Sheeran (o irlandês do título, conhecido por “pintar paredes” de uma maneira, digamos, insólita) desde sua entrada discreta para a máfia, passando por sua ascensão na famiglia e chegando ao maior desafio de sua vida (que vamos deixar em suspenso para evitar spoilers).

Interpretado por um inspirado Robert De Niro, o protagonista é cercado por uma atmosfera melancólica, bem diversa da apresentada nos filmes de máfia mais clichês. O glamour das festas luxuosas é apenas o pano de fundo para Scorsese apresentar o que podemos chamar de gângsteres operários, trabalhadores que não podem perder tempo entre um copo de whisky e outro e arquitetam seus planos enquanto a orquestra toca.

Tentar resumir os acontecimentos principais do longa seria tirar do espectador a maravilhosa experiência de desfrutar da surpresa e da aula de cinema que cada sequência proporciona. O roteiro, assinado pelo talentoso Steven Zaillian (que tem no currículo maravilhas como O Gângster, de Ridley Scott e a série The Night Of) é conduzido com primor por Scorsese e, já no plano inicial, percebe-se que o diretor está em ótima forma para essa grande história.

Deixando de lado a verborragia típica dos personagens italianos estereotipados de Hollywood, O Irlandês apresenta uma coleção de homens lacônicos que, mesmo que tenham seus momentos de fúria, como é o caso do ótimo Jimmy Hoffa de Al Pacino, ganham atenção especial da câmera quando estão em silêncio. Solidão é a palavra de ordem, mesmo que as reuniões da máfia sejam lotadas. Joe Pesci, em especial, mostra que nem só de personagens esquentados vive sua carreira. Seu Russell Bufalino merece um lugar na galeria de grandes mafiosos do cinema.

E por falar em quietude, Scorsese fez da falta de palavras a grande marca da, até agora, melhor personagem feminina de seus filmes. Peggy, a filha de Sheeran com mais destaque na trama, fala pouco mais que três frases durante O Irlandês, mas suas aparições são soberbas justamente pelo seu silêncio aterrorizante.

Interpretada na fase adulta por Anna Paquin, a atriz consegue sustentar o olhar de eterna dúvida de sua antecessora na trama. Peggy não é uma personagem silenciada por ser mulher, mas uma mulher que optou por se fechar diante do pai assassino e tudo que o cerca. Sheeran circula entre os grandões do crime com desenvoltura, mas não consegue se manter firme diante dos constantes nãos da filha. Todos silenciosos e, por isso mesmo, ainda mais doloridos.

Se houvessem premiações justas, Anna Paquin já podia reservar um espaço na estante para que seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo belíssimo O Piano, de Jane Campion, ganhe companhia. Se ela já encantava aos 11 anos, hoje, na casa dos 30, tem a segurança e o talento necessários para dar vida a essa grande personagem.

São tantos os planos fortes e inesquecíveis em O Irlandês que cada um deles renderia um artigo, que renderia uma conversa longa no bar, que renderia mais um espaço na lista de melhores do ano para essa produção de Scorsese. O termo obra-prima, quase banalizado em tempos onde os comentários se resumem a elogios rasgados ou ódio incontrolável, pode soar controverso e o ranço (para usar um termo dos “nossos tempos”) que algumas pessoas têm com o ítalo-americano pelos mais diversos (e, muitas vezes, idiotas) motivos podem fazer com que voltemos àquele papo do primeiro parágrafo.

Scorsese é um dos grandes da atualidade. Não porque realizou clássicos absolutos que devem ser sempre revisitados, como Taxi Driver e Touro Indomável, mas porque continua se desafiando e colocando sua assinatura sempre com um quê de ousadia. Domina a arte cinematográfica como poucos e tem muito a nos ensinar sobre maneiras de contar histórias.

Aos que insistem que ele só sabe fazer um tipo de filme, fica a dica: você também está batendo sempre na mesma tecla quando reclama disso. Senta a bunda na cadeira e conte a sua história diferenciada. Ou então, fique quietinho e aprenda com tio Martin. Preguiça de ensinar ele não tem. Sua aula chamada O Irlandês que o diga.

O Irlandês (The Irishman)

Ano: 2019

Direção: Martin Scorsese

Disponível na plataforma Netflix

(*) BIANCA ZASSO, nascida em 1987, em Santa Maria, é jornalista e especialista em cinema pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Cinéfila desde a infância, começou a atuar na pesquisa em 2009.  Suas opiniões e críticas exclusivas estão disponíveis às quintas-feiras.

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2 Comentários

  1. E o tal ‘Irlandes’? É mais um filme de mafiosos do Scorsese com os mesmos atores de sempre. Arrastado. São três horas e meia de duração. Vantagem: é no streaming. Existe a possiblidade de parar e continuar depois. Alás, streaming é um passo, realidade virtual é o próximo. Alás, Netflix exige 30 milhões de visualizações para um filme de custo médio para considerar um sucesso. Para filmes como este o numero aumento, vai para 120, 150 milhões de visualizações. Concorrência está chegando, novos canais de streaming estão entrando no mercado. Não sei se o Netflix vai muito longe.
    Scorsese, segundo a crítica, pode ate mostrar como se fazia um filme no século passado. Com 77 anos o tempo joga contra.

  2. Questão de ponto de vista. E de faixa etária. As coisas têm o valor que colocamos. Se alguém apresenta alguma coisa já com a etiqueta de valoração apensada existe algum problema. Talvez ego, talvez falta de sintonia com a estação Planeta Terra, não sei. Quando escrevo isto, sem qualquer sentimento ou vinculo afetivo, sem raiva, sem achar que é algo pessoal, tenho noção de quem ler pode achar qualquer coisa, inclusive nada.
    Scorsese. O que ele disse dos filmes de super-heróis não tem importância. Ninguém vai deixar de assisti-los ou assistir mais os filmes que ele recomenta por causa da declaração. Sujeito tem obra respeitável, mas é só. Alás, além dos títulos óbvios organizou ‘The Blues’. Foi na esteira do ‘Jazz’ de Ken Burns, só que é mais aprofundado no aspecto social, não fica só no musical. Grande falha da carreira dele foi promover DiCaprio (sem conotações politicas), duble de ator tem a expressividade de um manequim, alguns filmes foram estragados por causa dele. Vide o “Homem da Mascara de Ferro’, o elenco é fenomenal, só o dito cujo destoa.

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