ARTIGO. Luciano do Monte Ribas e a proposta para cessão da Gare à iniciativa privada: questionamentos

ARTIGO. Luciano do Monte Ribas e a proposta para cessão da Gare à iniciativa privada: questionamentos

ARTIGO. Luciano do Monte Ribas e a proposta para cessão da Gare à iniciativa privada: questionamentos - 70e0ea42-luciano-artigoA gare da Estação não pode ser palanque eleitoral

Por LUCIANO DO MONTE RIBAS (*)

O grande responsável pela destruição da Estação Ferroviária de Santa Maria não foi nenhum dos muitos vândalos que a atacaram, mas um governo tucano, do PSDB, o mesmo partido do nosso atual prefeito.

Caso você não lembre ou não tenha idade para ter presenciado isso, foi durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso que a RFFSA recebeu seu tiro de misericórdia. Esse processo absurdo de privatização resultou no abandono da maior parte do patrimônio ferroviário, onde o que havia de histórico foi descartado como se nada representasse. Um crime, sob qualquer ponto de vista, que em nossa cidade significou atingir também o coração da nossa identidade cultural.

Vinte e quatro anos depois da saída do último trem de passageiros rumo a Porto Alegre, não deixa de ser um tanto irônico que uma administração tucana queira iniciar, a toque de caixa, um pretenso processo de recuperação do patrimônio que eles mesmos abandonaram.

Para quem não sabe, há alguns dias a Prefeitura de Santa Maria publicou um edital de cessão da Estação Ferroviária que, sob a capa das boas intenções, esconde dúvidas importantes.

A primeira delas é o porquê de a comunidade não ter sido ouvida sobre o que deve ser feito com esse patrimônio coletivo. Nem mesmo o Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC), que reúne 20 segmentos culturais da nossa cidade, foi consultado. Sem falar em uma infinidade de pessoas, instituições e grupos que poderiam colaborar com seus conhecimentos e experiências, inclusive para tornar mais transparente todo o processo.

Há dúvidas, também, sobre as reais garantias do que será feito lá. O edital é vago quanto a assegurar a manutenção das finalidades culturais para as quais o imóvel foi cedido pela União. Como se daria isso, em que percentual do espaço, com quais destinações, onde se localizaria dentro da área cedida, quem poderia utilizar, qual o mínimo que deve ser garantido disso tudo? É evidente que um edital sério jamais pode deixar questões como essas para avaliações subjetivas.

Outra dúvida é sobre como serão avaliadas as capacidades de investimento dos proponentes. Da maneira como está, me parece, qualquer um pode prometer mundos e fundos e depois “correr atrás” do dinheiro pata fazer. É evidente que isso abre espaço para aventureiros e pode gerar, inclusive, demandas judiciais sem fim, o que acrescentaria novos problemas a algo que, por sua natureza, já é de difícil solução.

Também levanta questionamentos sobre a exclusão do CMPC e da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer da própria Prefeitura da comissão que avaliará as propostas. Estão nela o COMPHIC e o COMTUR, que são conselhos consultivos, ao lado da secretaria ligada a essas áreas, mas quem responde pela política cultural da administração e quem é responsável pelo controle social dessa área (com funções deliberativas) não está. É um pouco estranho isso, não é mesmo?

Indo adiante e antes que algum cínico diga o contrário, é uma verdade com as dimensões do Largo da Estação que todos nós queremos ver aquele patrimônio recuperado, cumprindo funções sociais, culturais e econômicas relevantes e, principalmente, voltando a orgulhar quem vive aqui e a admirar quem visita a nossa cidade. Nossa alma ferroviária ainda habita aquelas ruínas, ouve o sino roubado, olha as horas no relógio desaparecido, espera um húngaro ou embarca na comodidade de uma cabine. Mas isso não pode se dar a qualquer preço e de qualquer jeito, muito menos servir como laranja de amostra eleitoreira.

Se já esperamos mais de duas décadas, qual o problema de adiarmos por alguns dias a data da realização dessa chamada pública para promovermos consultas à comunidade e os necessários ajustes capazes de sanar as fragilidades desse edital? Por que não ampliar a representação social e da própria administração na comissão de avaliação? Há algum motivo para usar o distanciamento causado pela pandemia e “passar a boiada” também no patrimônio histórico?

Se não há falcatruas nesse processo – e eu não tenho nada a apontar que contrarie isso, quero deixar claro – também não há motivos para não agir com prudência e encontrar, com a contribuição de todos, o melhor caminho possível para dar um futuro brilhante à Estação Ferroviária de Santa Maria.

(*) Luciano do Monte Ribas é designer gráfico, graduado em Desenho Industrial / Programação Visual e mestre em Artes Visuais, ambos pela UFSM. É presidente do Conselho Municipal de Política Cultural e um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema, além de já ter exercido diversas funções na iniciativa privada e na gestão pública.

Para segui-lo nas redes sociais: facebook.com/domonteribas – instagram.com/monteribas

Observação do autor, sobre a foto: luminária com vidro quebrado em frente a casa da Vila Belga.



2 comentários

  1. O Brando

    Efeagá teve erros e acertos, mas o citado não foi um deles. Ferrovias quebraram na mão do Estado. Ainda existem linhas de passageiros no pais, na mão da Vale se lembro bem. Anos atrás vi uma reportagem (ou uma ponta de documentário) e foi mostrada uma senhora que faria uma viagem de 8 horas de trem (só ida) para ser submetida a uma mamografia (número de aparelhos no SUS é ridículo).
    O patrimônio não ficou a cargo das empresas que adquiriram a concessão porque políticos (na sua grande maioria analfabetos funcionais apesar dos diplomas e incompetentes) queriam fazer museus e memoriais. Em poucos lugares o prometido aconteceu (há exceções no estamento politico), o museu de Curitiba dá gosto de ver (ou dava, não sei como se encontra).
    No Canadá (e outros países) existem linhas turísticas que atravessam o país. São ‘cruzeiros’ sobre terra. Aqui é um sonho, viajaria em 6 horas para POA sem susto, mas o pensamento geral é outro. É linha aérea, é limite de velocidade da rodovia ampliado para não levar multa. Em 6 horas, sem ter que dirigir, dá para fazer muita coisa. Não só o computador, ler um bom livro também.
    Concessão agora não acredito que dê em algo. Mas o local tem potencial. Barzinhos, bistrôs, cafés, choperias. Teria que ser repensada a segurança da região e da Avenida Rio Branco.
    Sendo muito chato, gare é estação em francês. Quando fechou a Aliança Francesa não entendi a choradeira, hoje entendo o tamanho do desastre.
    A Gare é o Cais Mauá da aldeia. Há que se fazer alguma coisa. Séria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *