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CRÔNICA. Orlando Fonseca e o inevitável adiamento de nosso maior evento cultural, a Feira do Livro de SM

Maio

Por ORLANDO FONSECA (*)

Em tempos de normalidade estaríamos vivendo a Feira do Livro. Ao longo das duas últimas décadas, tivemos nosso maior evento todos os anos. Nesse mesmo tempo, e não por acaso, consolidaram-se entidades ligadas ao livro e à literatura – Academia, Casa do Poeta, coletivos de escritores, editoras.

Certamente, organizou a rotina de livreiros e de amantes da boa leitura. Isso, inclusive, ao longo de vinte anos, movimentou uma cadeia produtiva quase invisível. Sim, porque para se fazer um livro não basta apenas o redator e uma gráfica – mesmo uma das maiores, como a Pallotti.

Para que na banca da Feira o leitor encontre o seu objeto de consumo, é preciso ainda um bom revisor, um diagramador, um capista – aquele que compõe e produz a capa, o primeiro fator de atração de um livro.

Se tomarmos os números das últimas edições da Feira, em que mais de 100 autores autografaram obras, pode-se ter uma ideia de quão grande é esta mobilização de profissionais. Mas vivemos em tempos de pandemia, e o que se prepara é uma nova normalidade para o depois da curva epidemiológica.

E isso ninguém ainda arrisca dizer quando será. Alguns apontam o mês de maio como ápice da disseminação do vírus – notícias do fim de semana apontam o Brasil como o novo epicentro da pandemia. O que significa que em junho ainda é preciso manter os cuidados para não aumentar os vetores de contágio.

Mas há, entre especialistas internacionais, quem sustente que o vírus estará ativo ainda por mais 10 a 12 meses. Sem uma vacina, sem um remédio específico, especialmente para os grupos de risco será perigoso circular por lugares com grande número de pessoas.

Então fica a pergunta: a Feira do Livro será no segundo semestre? Entre meus pares, a resposta é que fica temerário pensar em uma participação. Desde 2005 esse grupo tem lançado livros na Praça.

Temos uma nova Secretária de Cultura, Rose Carneiro, que tem muita experiência na realização de eventos. E começará sua gestão com uma dificuldade grande em termos de planejamento. E não apenas nos termos da Feira, mas justamente no mês das comemorações do aniversário da Cidade: são 162 anos de emancipação do Município de Santa Maria.

É certo que há prejuízo de toda ordem nesse caso, pois não é recomendável que se organizem festejos, em que os convidados sejam instados a comparecerem de máscara. Além do mais, que mantenham um afastamento de 2 metros entre si. Fora de cogitação eventos que propiciem aglomeração, um dos indicadores de sucesso: quanto maior o entrevero, tanto maior a Feira.

Olhando os livros que registram fatos de nossa cidade, é possível conferir que a cidade já viveu outros terríveis dias e meses de calamidades com a peste bubônica e a gripe espanhola. Tanto pelo tamanho da cidade quanto pela extensão da endemia, esta é outra das pestes que ficarão nos anais oficiais e registrados em crônicas da imprensa da cidade – como a de Romeu Beltrão, sobre o fatídico 1912 (em coletânea lançada na Feira de 2018).

Voltando ao evento Feira do Livro, o qual, olhando desde este início do mês de maio, fica difícil adiantar qualquer palpite sobre a sua realização. Por enquanto, acompanho o receio dos meus amigos e parceiros de aventuras – e venturas – literárias: em havendo, não me sinto em condições de participar.

Ao contrário de outros artistas, como os músicos, que podem se apresentar através de eventos pela internet, os escritores estão limitados quanto à difusão de suas obras. Podem ler poemas, ou crônicas, trechos de seus contos ou romances – mas convenhamos, não é algo desprovido de alguma chatice. É difícil imaginar que a Feira possa se realizar virtualmente, com as vendas através de aplicativos e entregas do tipo delivery.

E pensar que, em meio à pandemia, marcada por tanta ignorância, que gera boatos e fake news, a necessidade do livro, assim como uma vacina contra o coronavírus, é algo com uma certa urgência humanista. Resta a esperança de que tudo passe, e passe logo.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editor: A foto da Feira do Livro de Santa Maria, que ilustra esta crônica, é do Arquivo da Assessoria de Imprensa da Prefeitura.

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4 Comentários

  1. Humanismo foi abastardado com finalidades politicas. Bom lembrar que existem anti-humanistas (Nietzsche, Heidegger, Foucault) e humanistas marxistas (Gramsci, Paulo Freire, Marcuse, etc). Bom ficar nos nomes conhecidos para não fazer como a academia da comunicação social que gosta de citar filósofos obscuros. Ou certos políticos que gostam de citar livros que só eles sabem que existe e só eles leram.

  2. Especialistas internacionais é algo meio forçado. É a primeira pandemia de coronavirus. SARS e MERS não dobraram a esquina. Há quem diga que é um ‘cisne negro’, não se trata disto, quem cunhou a expressão na acepção que é utilizada já se manifestou a respeito.
    Grupos de risco é expressão traiçoeira. Sistema imunológico de um chinês, de um europeu, de um ianque e de um brasileiro não são exatamente iguais. Questiono se o de um amazônida é igual ao do gaúcho. Há pessoas de 70 anos com sistema imunológico de 40 e pessoas de 40 com sistema imunológico de 80. Dizem que a qualidade do ar é, pelos efeitos que produz, fator importante. Dizem que o Covid é três vezes pior nos lugares poluídos. Semana passada a qualidade do ar no RJ, com os Exus Tranca Rua a todo vapor, nunca foi melhor do que a de SP.
    Procurando a qualidade do ar na aldeia descobri um trabalho e só no bairro centro. Levantamentos sobre obesidade (inclusive entre os trabalhadores da saúde) não vi.
    Toda esta lenga lenga para dizer algo óbvio. Corona é aquele jogo de truco diário. Pode vir o Bastião, uma manilha e um três. Mas pode vir só porcaria também. Sem ponto e sem flor.

  3. Adiamento é otimismo. Há que se ver se a feira de 2021 vai sair.
    100 autores autografando obras. Maioria são ‘wannabe’s’. Gente que escreve, domina o idioma, publica com dinheiro do bolso e não tem nada para contar (deixando livros técnicos redundantes de lado). Obras com tiragem baixa que são empurrados para os amigos. Nada impede que surja algo de bom ou que alguém encontre um nicho, mas o atual estado de coisas é este. O espirito autocongratulatório da cidade é algo que só leva a estagnação. Sem falar no narcisismo patético.

    1. Onde vou receber e dar elogios a amigos?
      Onde vou tirar um retrato, bater uma chapa, para mostrar como sou querido pelos meus 3 leitores e dezenas de outros escritores com quem troquei livros?

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