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ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega e lembrança de um bispo como muito poucos: Dom Pedro Casaldáliga

O adeus ao Bispo dos Pobres e da Esperança

Por LEONARDO DA ROCHA BOTEGA (*)

“(…) peço ao Divino para transformar a raiva em esperança indignada. E assim fico aliviado. Nosso coração tem que ser assim, cada vez mais largo, relativizar. Não é ceder politicamente, é não guardar ódio. Eu choro, eu me emociono, e isso me fortalece. Alguns às vezes falam que sou muito emotivo. Mas a vida sem paixão é uma corrida sem tempero. É a paixão que move a gente”. – Dom Pedro Casaldáliga.

É possível “humanizar a humanidade”? Essa pergunta tem permeado as discussões filosóficas ao longo de muitos séculos. Para Santo Agostinho e São Tomás de Aquino a humanização passa pelo reconhecimento da imperfeição do ser humano e a busca da perfeição pela fé. Para o contratualista Jean Jacques Rousseau a humanização só é possível a partir do estabelecimento de um pacto social. Para Karl Marx é o trabalho que humaniza o ser humano. Para Paulo Freire a humanização ocorre através da educação. “Humanizar a humanidade” foi o lema episcopal escolhido por Dom Pedro Casaldáliga, o Bispo do Povo.

Dom Pedro Casaldáliga nasceu em 16 de fevereiro de 1928 em Balsareny, um pequeno município situado na província de Barcelona, na comunidade autônoma da Catalunha – Espanha. Quando criança vivenciou o drama da Guerra Civil Espanhola. Filho de camponeses pobres viu seu tio, um padre que atuava junto à comunidade, ser assassinado. Viu também a ascensão do Franquismo, o Regime Fascista espanhol que iria perdurar no país entre 1939 e 1975. Foi ordenado sacerdote em 1952. Pertencia à Congregação Clarentina, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, desde 1943. Chegou ao Brasil em 1968 e encontrou em São Félix do Araguaia o seu lugar de vocação e a sua morada.

Na Amazônia Mato-grossense, Dom Pedro Casaldáliga desenvolveu sua principal ideia: “Na dúvida, fique ao lado dos pobres”. Foi nomeado o primeiro Bispo da região em 27 de agosto de 1971, pelo Papa Paulo VI. Diante das benesses do cargo episcopal, preferiu a simplicidade. Rezava a missa para agricultores e sem terras entre as galinhas no quintal da casa que transformou em Sede Diocesana.

Em seu quarto havia duas camas e a porta sempre estava aberta durante a noite para que se alguém precisasse, encontrasse ali um lugar para descansar das mazelas do mundo. Raramente usava a batina, preferia a calça jeans e o chinelo. Ao invés do anel de ouro, preferia o anel de Tucum, símbolo do compromisso preferencial da Igreja com os pobres. Em meio à marginalização social, ao analfabetismo e a violência gerada pelo latifúndio, construiu seu segundo lema de vida: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”.

Tendo seus dois lemas como guia, lutou pela dignidade e pela justiça social. Fundou, juntamente com Dom Tomás Balduíno, o Conselho Missionário Indigenista (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Alinhado com a Teologia da Libertação, sempre esteve ao lado dos sem-terras, dos indígenas e dos pequenos agricultores.

Entrou em choque com as alas conservadoras da Igreja e com a Ditadura Civil-Militar. Sofreu inúmeras ameaças de morte. Viu o seu amigo Padre João Bosco Burnier ser assassinado por um policial, enquanto ambos defendiam duas mulheres que estavam sendo torturadas em uma delegacia. Não tinha medo da morte!

Chamava a doença que o afligia nos últimos 15 anos de o “Irmão” Parkinson. Apesar de debilitar seus movimentos e a sua fala, esse incomodo “irmão”, que o levou a renunciar ao cargo da Bispo em 2005, não foi capaz de o fazer renunciar à luta social. Por causa dela, teve que deixar sua casa por alguns meses em 2012, quando apoiou a desocupação das terras indígenas de Marãiwatsédé, invadidas por produtores rurais e grileiros.

Dom Pedro Casaldáliga faleceu no último sábado, dia 8 de agosto. No mesmo dia em que o descaso governamental e a insensibilidade social fizeram o Brasil alcançar 100 mil mortos pela Covid-19. Para ele, “Humanizar a humanidade” sempre foi levar Amor, justiça e esperança aos desamparados deste mesmo descaso e desta mesma insensibilidade. Em um país onde alguns vendilhões de templo lucram e se locupletam no poder afirmando “Deus acima de todos”, o Bispo dos Pobres e da Esperança sempre preferiu Emanuel, o “Deus conosco”.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: a foto, sem autoria determinada, é do Vaticano News.

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