ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega e 80 anos da morte de Walter Benjamin, pensador indispensável

ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega e 80 anos da morte de Walter Benjamin, pensador indispensável

ARTIGO. Leonardo da Rocha Botega e 80 anos da morte de Walter Benjamin, pensador indispensável - 05e758d9-leonardo-artigo80 anos sem Walter Benjamin

Por Leonardo da Rocha Botega (*)

Portbou, 26 de setembro de 1940, fronteira entre a Espanha e a França. Após meses de incerteza, com o visto emitido pelo consulado estadunidense em Marselha, porém sem o visto de saída da França, Walter Benjamin tem o seu ingresso em território espanhol rejeitado.

A fronteira para a fuga do martírio nazifascista que o perseguiu, primeiro na Alemanha, depois na Polônia, chegando até a deslumbrante Paris, estava fechada. A frase “há (…) esperança infinita, só que não para nós”, que escrevera algum tempo antes sobre o fracasso kafkiano, parecia remoer a sua mente.

Diante da impossibilidade da fuga, uma overdose de morfina foi a saída. Era a morte solitária de quem estava exausto dos atropelos das catástrofes da História Coletiva. Uma tragédia que ganhou dimensões ainda mais trágicas um dia depois, quando a permissão para que seus companheiros de grupo entrassem na Espanha foi concedida. Melancólico, Benjamin não esperou o brotar da esperança.

Nascido em 15 de julho de 1892, em Berlim, oriundo de uma família de comerciantes judeus, Walter Benjamin desenvolveu desde a adolescência um inquieto gosto refinado pelos estudos das artes, da literatura e das ciências humanas. Este inquieto gosto foi fundamental para a construção de um espírito crítico autêntico.

Foi com esse espírito crítico que participou do Movimento da Juventude Livre Alemã, um grupo libertário ligado ao ideário socialista. Foi esse espírito crítico que conduziu o conjunto de suas elaborações e a sua forma não dogmática de interpretação de temas tão diversos como os escritos de Charles Baudelaire, de Franz Kafta e de Marcel Proust, a infância em Berlim, as obras de arte e as suas “auras”, as cidades da modernidade e a História.

Foi justamente sobre a História que Benjamin se debruçou em um de seus últimos textos. Suas “Teses sobre o conceito de História”, escritas poucos meses antes de seu suicídio, reivindicam a “tradição dos oprimidos”. Aquela que “nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é na verdade a regra geral”, por isso é necessária uma visão libertadora da História.

Uma visão que arranque o historiador do conformismo e lhe desperte a consciência de que sequer os “mortos” estarão em segurança se o “inimigo vencer”. Um “inimigo” que tenta nos convencer de que há apenas um caminho para a humanidade. Contra esse “inimigo” é que a História deve se voltar, não como uma linha reta que conduz ao inevitável, mas sim, como um tempo aberto e em construção que é disputado e pode levar a felicidade ou a barbárie.

Desse tempo aberto, o Anjo da História recolhe os vestígios das ruínas que estão para além da “cadeia de acontecimentos” que nós vemos. Da junção dessas ruínas esse Anjo vê a catástrofe e nos impõe uma mudança de olhar rumo a crítica do que chamamos de Progresso.

Essa visão de uma História crítica as Teorias do Progresso, fez de Walter Benjamin uma importante referência nos debates sobre a modernidade. Para Benjamin, tais teorias impunham um caminho único rumo a um futuro predeterminado, produzindo a resignação e a negação das múltiplas possibilidades abertas pelas lutas sociais.

Onde muitos viam (e ainda veem) apenas um continuo na evolução tecnológica e na ação do homem sobre a natureza, Benjamin via um caminhar conjunto de um potencial destrutivo. Onde muitos viam a libertação, Benjamin via o potencial da opressão e da redução da criação humana.

Foi dessa forma que desenvolveu um marxismo aberto, onde a crítica substitui o dogma, onde as águas calmas das certezas preestabelecidas são substituídas pelo mergulho nas águas do incerto. Foi nessas águas que Benjamin descortinou o agir humano.

Walter Benjamin foi um dos homens que viveram “em tempos sombrios”, para fazermos uma referência ao livro de Hannah Arendt. Tempos onde os crimes e as catástrofes eram naturalizados. Tempos onde ódios e ressentimentos implodiam os desejos coletivos de felicidade. Tempos em que a humanidade foi arrebentada pelas máquinas de guerra.

Tempos onde o que restou para muitos humanistas foi apenas a melancolia. 80 anos depois, seu legado nos “ensina” que dessa melancolia pode brotar uma ponta de Esperança, senão para a sua geração (ou para a nossa geração), para as gerações futuras. Afinal, o futuro é um longo caminho a ser construído e em meio as ruinas do passado e do presente sempre existe uma fronteira que teima em abrir, mesmo quando nós não estamos mais diante dela.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: a imagem (sem autoria determinada) aqui publicada, é uma reprodução da internet.



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