Universidade e compromisso: entre a política e o humano – por Amarildo Luiz Trevisan
Algumas palavras sobre a crítica feita pelo ex-deputado estadual à UFSM: ser estratégica para Santa Maria “não é fazer coro com discursos fáceis”

Recentemente, uma crônica assinada por um ex-deputado estadual e atual secretário municipal da capital acusou a Universidade Federal de Santa Maria de estar “desconectada da realidade” local, de omitir-se frente a cortes orçamentários e de transformar-se em “uma extensão do Planalto”. A crítica, embora apresentada como preocupação com o desenvolvimento regional, revela mais do que diz: não se dirige apenas à universidade, mas tenta enquadrá-la dentro de um projeto político que subordina o conhecimento às urgências de mercado e ao jogo eleitoral.
A crítica de que a UFSM estaria “desconectada da realidade” por não atacar diretamente o governo atual confunde duas dimensões distintas: o enfrentamento político e a formação crítica. A política partidária, como bem se sabe, opera no vaivém das disputas de poder – e é entre os próprios entes políticos que esse jogo se desenrola. Tentar arrastar a universidade para essa arena imediata é desviar seu foco mais essencial: formar consciências livres, profissionais competentes e cidadãos comprometidos com o bem comum.
É preciso esclarecer bem: a universidade pública não é um partido, tampouco uma repartição do governo. É, por excelência, uma instituição formadora de pensamento, de autonomia, de compromisso com o bem comum. O enfrentamento político de que fala o articulista não é, em regra, entre universidade e governo, mas entre agentes políticos entre si, disputando espaço, narrativa e poder. A universidade, quando fiel à sua vocação, não entra nesse jogo – e é justamente por isso que incomoda.
Não se trata de ser de esquerda ou de direita – categorias que, no ambiente universitário, só têm sentido quando abrem espaço para o debate fundamentado, e não para rótulos apressados. A universidade, quando cumpre sua função, não forma militantes nem empreendedores prontos, mas seres pensantes, capazes de criar, dialogar e transformar. Isso não é ideologia; é competência ética.
A tentativa de empurrar a universidade para o campo das disputas imediatas desmerece sua função maior: formar pessoas. E é por meio das pessoas – e não de slogans – que a sociedade se transforma. Isso não é ideologia, como gostam de repetir aqueles que desconfiam de tudo o que pensa diferente. Isso é competência ética, é fidelidade à missão pública, é compromisso com a causa mais urgente de todas: o bem-estar humano, a dignidade social, a qualidade de vida.
Cobrar da UFSM que “forme lideranças para o agro, para a indústria, para a tecnologia” é justo – mas só se reconhecermos, no mesmo fôlego, que ela também forma artistas, professores, filósofos, cientistas sociais, médicos, engenheiros e cidadãos. Reduzir sua função a uma engrenagem do “desenvolvimento” econômico é um erro grave. A universidade é, antes de tudo, um lugar de pensamento. E onde há pensamento, há crítica – inclusive a governos, de qualquer orientação.
É sintomático que, quando a universidade não ecoa certas vozes, estas logo a acusem de viver “numa bolha”. Mas talvez o incômodo esteja em outra parte: a universidade resiste, e sua resistência não é silêncio nem omissão – é trabalho, é pesquisa, é formação lenta e profunda. É ciência comprometida com o presente, mas sem ceder ao pragmatismo do imediatismo.
Afinal, o desenvolvimento de uma cidade ou de um país não se faz apenas com fábricas ou escolas de sargentos. Faz-se com qualidade de vida, justiça social, acesso à educação, saúde e cultura. Faz-se com respeito à diversidade de saberes – do agro à filosofia, da engenharia à arte. A universidade não pode ser reduzida a uma linha de produção de soluções imediatas. Sua grandeza está em gestar processos, visões de mundo, formas novas de viver juntos.
Ser estratégica para Santa Maria não é fazer coro com discursos fáceis ou bajular qualquer governo, seja ele “amigo” ou não. É cultivar pensamento crítico, fundar projetos consistentes, articular ciência e comunidade, oferecer espaços de diálogo público. É ser voz, sim – mas uma voz que pensa o tempo, não apenas que grita contra ele.
A autonomia universitária não é uma licença para o silêncio, mas um compromisso com o conhecimento que se faz em liberdade. E é nesse lugar de liberdade que se gesta a verdadeira transformação – aquela que não se rende ao jogo raso das aparências, mas se constrói na espessura lenta, difícil e necessária da educação.
Portanto, que se critique a universidade, sim – mas com a honestidade de reconhecer o que ela faz, que aliás, como dito acima, não é pouco. Enquanto alguns jogam pedras de fora, ela constrói – com essas mesmas pedras – pontes de conhecimento e de emancipação. E segue fazendo o que sempre fez de melhor: formar gente capaz de pensar além das pedras.
Porque é somente no exercício do pensamento livre, da escuta atenta e da reflexão crítica que poderemos, um dia, reencantar a política com ética, a economia com justiça e o desenvolvimento com humanidade.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é Licenciado em Filosofia no Seminário Maior de Viamão, tem o curso de Teologia, é Mestre em Filosofia pela UFSM, Doutor em Educação pela UFRGS e Pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Desde 1998 é docente da UFSM. É professor de Ciências da Religião e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFSM).





Resumo da opera. Universidades necessitariam de uma reforma séria. Ninguém quer comprar a briga. Interessados(as) não querem nem discutir. Vão cair de podres. Orçamento e curva demografica darão um jeito no problema.
‘Enquanto alguns jogam pedras de fora, ela constrói – com essas mesmas pedras – pontes de conhecimento e de emancipação.’ Para usar cliches não é necessario doutorado. Que ‘poetico’! Kuakuakuakuakuakua!
‘A autonomia universitária não é uma licença para o silêncio, mas um compromisso com o conhecimento que se faz em liberdade.’ A deturpação aqui é usar a autonomia universitaria para proteger uma ideologia ultrapassada e aliciar novos militantes. Acham que enganam alguém com ‘discursos bonitos’.
‘[…] estas logo a acusem de viver “numa bolha”. Mas talvez o incômodo esteja em outra parte: a universidade resiste, e sua resistência não é silêncio nem omissão […]’. Universidade vive num bolha. Resistencia é expressao vermelha, pessoal da pedra lascada quer continuar a lascar pedra. Desculpa excepcional para fazer nada além de produzir textos que só a bolha dentro da bolha le, dar umas aulinhas e embolsar o salario.
Não esquecendo o Brasil. Quando a familia Maggi saiu do RS para criar o imperio do agronegocio no centro-oeste não consta que alguém tivesse curso superior. Rato Rouco é uma liderança da esquerda, curso tecnico. Não tem grau universitario e não é um cidadão pior ou melhor por conta disto.
Concepção errada. Estado não faz nada a contento no Brasil. Meia-boca é o limite. É o que a casa tem para oferecer, seja na saude, seja na educação. Existe a ideia disseminada e erronea de que as universidades são ilhas de conhecimento altamente avançado. Elas ‘compensariam’ o nivel de ensino melhor e o ambiente de negocios idem que existe na Ianquelandia. O que traria desenvolvimento. Não vai rolar. Outra: formar ‘cidadãos conscientes e humanos’ e assim mudar a sociedade. Outra ideia de jerico. Se uma pessoa vive 75 anos e passa 5 numa universidade são só 7% da vida. O ambiente aqui fora é que tem mais influencia. Mudança cultural é muito mais complexo do que isto e leva muito mais tempo.
‘Cobrar da UFSM que “forme lideranças para o agro, para a indústria, para a tecnologia” é justo […]’. Não. É uma jumentice. Formar pessoas com capacidade para ocupar cargos é uma coisa. Lideranças é outra bem diferente. Steve Jobs nunca terminou uma faculdade. Steve Wozniack foi expulso da universidade por hackear o computador da mesma. Depois de ajudar a fundar a Apple voltou para fazer a graduação. Bill Gates é outro que não terminou a faculdade.
‘[…] não forma militantes nem empreendedores prontos, mas seres pensantes, capazes de criar, dialogar e transformar. Isso não é ideologia; é competência ética.’ Propaganda, discurso ‘bonito’ despregado da realidade. Tudo muito ‘foto’ é um convite a omissão e a vagabundagem.
‘ A política partidária, como bem se sabe, opera no vaivém das disputas de poder – e é entre os próprios entes políticos que esse jogo se desenrola. Tentar arrastar a universidade para essa arena imediata […]’. Isto é cascata. Não faz muito tempo que o Rato Rouco visitou a reitoria da UFSM, na malfadada gestão Burmann, a segurança era feita pela milicia do MST e um professor aposentado foi fisicamente agredido.
‘[…] que subordina o conhecimento às urgências de mercado […]’. ‘Conhecimento’ até o segundo paragrafo. Gente estudando vacas esféricas colocadas no vacuo é o que não falta. Alas, o ‘mercado’ tem gente extremamente competente, não em SM óbvio, que coloca muita gente da Academia no chinelo. Tanto que quando se fala em IA geralmente se relaciona a Big Techs e não universidades.
Coluna do Nota de Sete Reais. Tentou usar estereotipos de uso da população local, inclusive de muita gente ‘bem’, para se promover. Novo é só um nome, um bando de mesozoicos.