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A ciência e as novas façanhas do Rio Grande do Sul – por Leonardo da Rocha Botega

“A Ciência, que tanto era propagada, foi abandonada pelo governador”

Desde o começo da Pandemia da Covid-19 inúmeros embates têm marcado as diferentes leituras e posturas adotadas pelos diferentes governos no mundo todo. Tal fato não é uma novidade ao longo da História das Pandemias.

Na Antiguidade, tanto a Praga de Atenas, ocorrida entre 430-428 a.C., como a Peste Antonina, ocorrida em 165, no Império Romano, foram entendidas por muitos como uma punição dos Deuses.

Em 1348, diante da Peste Bubônica, que vitimaria em torno de 50 milhões de pessoas na Europa, muitos governantes e membros da Igreja insuflavam a população a buscar os malfeitores que devido a sua baixa fé geraram a peste.

Até mesmo na Gripe Espanhola, já no século XX, governantes propagavam remédios miraculosos e tratamentos surreais como forma de conter o grande número de mortos e vender uma ideia de normalidade enquanto os cadáveres se avolumavam.

Obviamente, a História não se repete, ou no máximo como dizia Karl Marx, “a primeira como tragédia, a segunda como farsa”. Porém, é inegável que ao observarmos os comportamentos diante de outras epidemias e pandemias podemos encontrar semelhanças e possibilidades de paralelos.

Entre essas a que mais chama atenção é o abandono da Ciência diante das pressões para manutenção de poder e de lucro em uma situação onde o mundo entra em Curto-Circuito (para usar a expressão utilizada como título do livro recentemente lançado pela economista Laura Carvalho, no qual a autora analisa o papel das políticas públicas diante da Pandemia da Covid-19).

Sabemos que historicamente o Brasil nunca foi um país que valorizou os seus cientistas e a própria ciência. Poucos brasileiros e brasileiras sabem quem foi ou é Adolfo Lutz, Nise de Oliveira, Graziela Maciel Barroso, Duilia de Mello, Miguel Nicolelis, Suzana Herculano-Houzel, Niède Guidòn, Walter Neves, renomados cientistas que tem em comum o fato de terem nascido aqui. Fazer ciência no Brasil, assim como fazer educação, sempre foi um ato de remar contra a maré.

Uma maré que algumas vezes esteve mais favorável, mas que em linhas gerais sempre foi tortuosa ao ponto de muitos cientistas desistirem de pesquisarem por aqui ou até mesmo desistirem da ciência. Portanto, não é nenhuma novidade que no Brasil a ciência seja deixada de lado até mesmo em um momento onde vivenciamos a pior pandemia mundial desde 1918.

O negacionismo não ganhou força por acaso. Sempre esteve por aqui, sobretudo, quando os governos negam recursos para a ciência (e a educação) e “enchem as bufas” dos bancos de dinheiro. Tirar dinheiro dos únicos investimentos que comprovadamente geram desenvolvimentos futuros para muitos brasileiros “é normal”.

Por que então não seria “normal” virar as costas para o que dizem os cientistas? Pouco importa o que disse o biólogo, doutor em virologia, Átila Iamarino, alertando que a estratégia de “imunização do rebanho” seria desastrosa.

Pouco importa o que disse a doutora Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e uma das referências mundiais em doenças pulmonares e micobacterioses, que teríamos “o abril mais triste de nossa história” se medidas drásticas para a contenção do contágio não fossem tomadas.

Pouco importa o fato de sermos 2,7% da população mundial e representarmos 1/3 do número de óbitos mundiais pela Covid-19 na última semana.

Nesse país que sempre fez pouco caso da ciência, os negacionismos se difundem do governo para a sociedade com uma naturalidade chocante, mas não surpreendente. Um negacionismo que faz com que governos, que até então diziam estar sendo guiados pela ciência, abandonem qualquer coerência metodológica (por mais questionável que sejam) no combate à Pandemia. Foi o que fez o governo do Estado do Rio Grande do Sul.

A Ciência, que tanto era propagada, foi abandonada na última terça-feira pelo governador Eduardo Leite. A Ciência que vinha alertando que guiar o combate à Pandemia pelo número de leitos de UTI e não pela taxa de contágio já era problemático.

Essa mesma ciência que se debruçou nos estudos de casos como o da França e da Alemanha, países com protocolos rígidos, para afirmar que abrir escolas no momento em que o Estado se tornou um dos epicentros da pandemia era algo no mínimo temerário.

Essa mesma ciência que indica que se o Rio Grande do Sul fosse um país, ocuparia o 14º lugar no mundo em números de mortes por milhão de habitantes.

Isso tudo pouco importou para um governo que só escuta os interesses de manutenção do poder e do lucro e em nome destes interesses propaga “novas façanhas”.

A última “nova façanha” foi trocar os critérios das bandeiras, dando um “drible medíocre” na decisão da justiça, abandonando a ciência e o alerta de membros do próprio Comitê Científico de combate à Pandemia.

Uma “nova façanha” que reforça o negacionismo e se soma ao verdadeiro genocídio que o Brasil e o Rio Grande do Sul estão vivendo. Uma “nova façanha” que normaliza a morte e obscurantiza ainda mais a vida.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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Um Comentário

  1. Marx, o mesmo que fazia negócios na Bolsa de Londres. Com dinheiro emprestado, óbvio, porque sem trabalhar fica difícil.
    O nome desta lorota toda é cientificismo. E se os vermelhinhos adotam uma vertente filosófica derivada do positivismo que tanto criticam da boca para fora é porque alguma coisa errada esta acontecendo. Alas, criticam porque não gostam de avaliar resultado de politicas publicas alucinadas, o que demonstra a incomPeTencia. O que conta é a pureza de intenções. Que também vem do positivismo. Contradições e hipocrisias, o KY Gel das relações sociais.
    Dai passamos para a falácia, o apelo a autoridade. Porque ‘especialista’ é quem confirma um argumento posto por alguém de humanas com base na ideologia.
    Se vamos falar no mundo é bom não esconder o que la fora acontece com números furados. India passou o Brasil em numero de óbitos. Situação lá, basta assistir a BBC para constatar, esta no seguinte pé. Criaturas esperando noticias dos parentes internados nos corredores dos hospitais. Aparece um qualquer e avisa ‘teu familiar precisa de oxigênio; não tem; toma aqui um cilindro vazio e te vira para arranjar, senão ele morre’. Esta faltando material e lugar para as cremações.
    Antes de passar batido, a lista de cientistas não tem muitos desconhecidos. Passam a maior parte do tempo fazendo promoção pessoal. Carregar piano é com os alunos de pós-graduação.

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