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Iniciação de um serial killer: a história do Dr. Jairinho, o torturador e matador do menino Henry – por Carlos Wagner

O que acontecia entre as quatro paredes com Jairo Souza dos Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e as suas vítimas? (Foto Reprodução)

A história conhecida do torturador e matador do menino Henry. Morador de endereços elegantes no Rio de Janeiro, jovem, bem-apessoado, médico, vereador do Rio e dono de um discurso articulado e criativo. Essa é a figura pública de Jairo Souza dos Santos Júnior, 43 anos, o Dr. Jairinho, padrasto de Henry Borel, quatro anos, filho da professora Monique Medeiros, 32, e do ex-marido dela, o engenheiro Leniel Borel, 37.

Henry morreu no dia 8 de março. Segundo a versão da mãe e do padrasto, o menino havia caído da cama. A autópsia contou a verdadeira história: Henry fora vítima de uma surra. E a reconstituição da morte confirmou que a versão dada pelo casal era uma fantasia. No dia 8 de abril, uma quinta-feira, os dois foram presos por 30 dias por estarem pressionando testemunhas.

Nos dias seguintes, depoimentos de ex-namoradas do Dr. Jairinho que também eram mães relataram à polícia que ele agrediu e torturou seus filhos. A mãe de dois dos três filhos do vereador registrou em uma delegacia e depois anulou uma ocorrência policial na qual se queixava de ter sido agredida por ele.

Qual é a história não conhecida do vereador? Vamos lá. No rumoroso caso Nardoni, que aconteceu em 2008, na cidade de São Paulo, a estudante de Direito Anna Carolina Jatobá teve uma explosão de raiva e agrediu a sua enteada, Isabella Nardoni, cinco anos. Com cumplicidade do seu marido e pai da menina, o bacharel em Direito Alexandre Nardoni, eles montaram a história de um assalto ao apartamento e atiraram o corpo da Isabella do sexto andar do edifício onde moravam. Os dois estão presos, cumprindo pena. Uma pesquisa mostrou que 98% dos brasileiros tomaram conhecimento do crime.

O caso Bernardo Boldrini, 11 anos, em 2014, na cidade de Três Passos, município agrícola no interior do Rio Grande do Sul, começou em 2010, quando Odilaine Uglione, mãe do menino, entrou no consultório do seu marido, o médico Leandro Boldrini, pai de Bernardo, e se suicidou com um tiro na cabeça.

Na época trabalhava na região Graciela Ugulini. Ela se aproximou do médico, casou-se com ele e virou madrasta de Bernado. Planejou e executou o menino com o objetivo de ficar com o dinheiro da família. O médico foi cúmplice. Os dois estão cumprindo pena.

Então é o seguinte. No caso Nardoni, foi uma explosão de raiva e, no de Bernardo, a motivação do crime foi a herança do menino. Eu trabalhei nos dois casos. O motivo que levou à morte de Henry é diferente desses dois que citei.

Dr. Jairinho se relacionava com mães separadas para maltratar os enteados. Ou seja: ele tem um método de agir que foi colocado em ação pelo menos três vezes – matérias foram publicadas sobre o assunto. Ele atraía as mães dando a elas acesso a uma vida de classe média alta e ao prestígio do cargo público que exercia.

Dr. Jairinho tinha um método de agir. O que se sabe é que ele maltratava as crianças. Mas por quê? Não se sabe. Aqui é o seguinte: ele é médico. Portanto, sabe onde bater para causar dor. O que aconteceu no caso do Henry? Ele exagerou. O exagero foi intencional ou ele cometeu um erro? A investigação policial vai responder.

Ainda não foi divulgado. Mas a autópsia deve ter revelado se o menino foi vítima ou não de abuso sexual. Em 2004, eu trabalhei no caso de Adriano Silva, um serial killer que percorreu municípios da região de Passo de Fundo, no norte do Rio Grande do Sul, durante um ano, matando 12 meninos entre oito e 13 anos.

Eu conversei pelo menos duas vezes com ele, uma mais demoradamente, na ocasião em que estava levando pela polícia aos locais onde havia enterrado os corpos. Ele atraía os meninos, abusava sexualmente deles e depois os matava e enterrava. A impressão que tive nas conversas foi de que se tratava de um exibicionista. Apesar da pouca educação formal, era uma pessoa que tinha um discurso articulado.

O que existe de semelhante entre Adriano e Dr. Jairinho? Eles têm um método de agir. Li muito e conversei com vários especialistas na época do caso Adriano. Aprendi que um serial killler não nasce um assassino. Ele vai se aperfeiçoando com o tempo. Adriano começou matando um motorista de táxi no interior do Paraná e, anos depois, no Rio Grande do Sul, começou a matar em série. E se o Dr. Jairinho tivesse conseguido encobrir o assassinato de Henry? Ele trocaria a professora Monique por outra com filhos?

Lembro aos meus colegas o seguinte. Por muitos anos, nas redações dos jornais do Brasil, existia a ideia de que serial killer era coisa de filme americano. Nunca foi. Logo que surgiu a história do Adriano, ninguém acreditava que se tratasse de um assassino em série. Mas era. Ainda sabemos muito pouco sobre a história não conhecida do Dr. Jairinho. Até agora, só sabemos que ele tinha um método de agir. Não sabemos o principal. O que acontecia entre ele e suas vítimas entre as quatro paredes. O caso pode trazer surpresas logo ali. É bom ficarmos alerta.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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4 Comentários

  1. Acho que ele realmente abusava das crianças, só não está sendo comentado pela situação social do indivíduo, acredito também que a mãe vendeu o filho em troca do dinheiro , de certo ela sabia o que ocorria com a criança, no momento que ela estava no salão , era apenas 5 minutos da residência, mas ela não foi mesmo a Babá dando ciência do que estava acontecendo.fez vista grossa e deixou passar o tempo

  2. Resumo da ópera é simples, mistura de fatos, boatos, opinião e conhecimento superficial com objetivo de ‘moldar’ opinião pública.
    Qual o busílis? Abre-se uma janela para a defesa. Se o advogado convencer os jurados que o sujeito é maluco (vide facada no Cavalão) ele pode ir para uma ‘clinica psiquiátrica’ de luxo ao invés de ir para a cadeia. Pouco provável, mas não impossível.

  3. O que leva ao CID-10, código F60.2, Personalidade dissocial. ‘Transtorno de personalidade caracterizado por um desprezo das obrigações sociais, falta de empatia para com os outros. Há um desvio considerável entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas. O comportamento não é facilmente modificado pelas experiências adversas, inclusive pelas punições. Existe uma baixa tolerância à frustração e um baixo limiar de descarga da agressividade, inclusive da violência. Existe uma tendência a culpar os outros ou a fornecer racionalizações plausíveis para explicar um comportamento que leva o sujeito a entrar em conflito com a sociedade.’

  4. E o tipo de texto que deveria ser mostrado em toda faculdade de jornalismo do pais. Ressaltando com bastante ênfase o ‘é bem assim que não se faz’.
    O assassino virou um ‘serial killer’ mesmo com um único homicídio nas costas. Afirmação especulativa.
    O meliante se relacionava com mães solteiras com o fim precípuo de maltratar as crianças. Evidencias? Outras matérias publicadas. Ex-mulher do vereador, que não é criança, registrou queixa de maltratos anos atrás, não confirma o argumento, logo é omitido.
    Conversar com vários especialistas não transforma um jornalista em ‘especialista’. Ainda mais na área médica. Sem falar nas áreas jurídica e econômica.

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