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A arte de persistir – por Bianca Zasso

Quando uma criança coloca uma idéia na cabeça, prepare-se: vai ser preciso muita lábia e jogo de cintura para fazê-la mudar. O que para a maioria dos pais não passa de teimosia, para a vida pode significar o surgimento de um adulto que não desiste fácil de seus ideais. Parece papo de livro de auto-ajuda, mas é uma boa forma de definir a sensação que paira no ar logo após assistirmos O Balão Branco. Produção iraniana de meados dos anos 90, o filme tem roteiro do talentoso Abbas Kiarostami, um dos nomes mais populares do cinema produzido numa das partes mais misteriosas do Oriente.

Acostumado a lidar com temas tocantes e ambientados em paisagens urbanas, Kiarostami e o diretor Jafar Panahi (o mesmo do ótimo O Círculo) nos apresentam a trajetória de Razieh, uma menina de sete anos que, em pleno dia de ano novo, não quer saber de outra coisa a não ser comprar um rechonchudo e colorido peixinho, como manda a tradição de seu país.

O que parece apenas um capricho, um desejo infantil se torna uma verdadeira odisséia desde o seu início, quando a pequena usa todo o seu persa para convencer a mãe a lhe dar o dinheiro necessário para o tão sonhado presente.  Entre pedidos insistentes, algumas lágrimas e uma ajudinha do irmão, Razieh sai em busca de seu peixinho. O que parecia a solução de seus problemas é apenas o pontapé inicial de uma jornada cheia de adultos mal-intencionados, tentações e muita esperança.

Mesmo que a menina não precise de muitos motivos para cair em prantos, seu choro é sempre acompanhado de uma personalidade forte, respostas afiadas e uma persistência que chega a ser irritante. Nós, adultos, nos perguntamos como alguém tão pequeno pode ter tanta vontade de possuir algo e, mesmo diante de desafios, não sossega o facho por nada. Simples. Quando se é criança, a arte de persistir nos acompanha até nas mínimas coisas, dos primeiros passos até as primeiras palavras.  Tentamos, erramos e começamos outra vez.

O que move Razieh é um misto de tradição com desejo. Ora, ela poderia se contentar com um peixinho do tanque de sua casa, mas o gorducho e dançante da loja enche seu olhos. Ela quer e vai tê-lo. Para isso, não vai se fazer de vítima nem usar de chantagem. Vai batalhar, pedir socorro, tentar.

O Balão Branco levou a Câmera de Ouro no Festival de Cannes e surpreendeu os espectadores com sua história simples, mas cheia de significados. O leitor deve estar se perguntando: mas porque o filme se chama O Balão Branco se o que a menina quer é um peixinho? Assista, caro leitor. Não vou estragar a surpresa.

O Balão Branco (Badkonake Sefid)

Direção: Jafar Panahi

Ano: 1995

Disponível em DVD

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