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Imprensa esportiva calou-se sobre a vacinação do Atlético Goianiense no Paraguai – por Carlos Wagner

Isso não significa que o episódio tenha passado batido pela oposição paraguaia

O caso da vacinação de jogadores brasileiros (do clube Atlético Goianiense) no Paraguai foi um desrespeito com a população local, que sofre com falta de tudo perante a letalidade da Covid-19 (Foto Reprodução)

O fato. Na semana passada, quinta-feira (06/05), o time de futebol do Atlético Goianiense, de Goiânia (GO), estava em Assunção, capital do Paraguai, para disputar uma partida contra o Libertad, válida pela Copa Sul-Americana. Após a vitória por 2 a 1, todos os 44 integrantes da equipe brasileira receberam as primeiras doses da vacina SinoVac, doadas pela organizadora da competição, a Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol, como é conhecida, que tem a sua sede em Luque, uma cidade da região metropolitana de Assunção.

A Conmebol recebeu 50 mil doses da vacina que pretende distribuir a times de futebol dos 10 países, incluindo o Brasil, que fazem parte da confederação. Alejandro Dominguez, o presidente da Conmebol, disse que essas vacinas são uma contribuição da organização para o bem-estar dos jogadores, árbitros e demais pessoas envolvidas com as equipes que disputam os torneios da confederação, sendo o principal deles a Copa Libertadores da América.

O presidente do Atlético, Adson Batista, 50 anos, afirmou que não é culpa dele se o governo do Brasil não está oferecendo as vacinas. Dessa forma, aproveitou a oportunidade e vacinou a equipe. Como dizem os colegas da imprensa esportiva: a bola picou na área e ele chutou e fez o gol. Esse é o resumo da história. Vamos mergulhar nas entranhas do fato para mostrar ao nosso leitor os cantos escuros desse episódio.

Antes de seguir com a história, quero dar algumas explicações que julgo necessárias, principalmente aos jovens repórteres que estão na correria do dia a dia das redações. Eu tenho 70 anos de idade, 40 e poucos de carreira como repórter e um currículo bem nutrido – disponível na internet – que me autorizam a ter a honra de conversar com os meus colegas e leitores sobre esse episódio.

O que vou escrever não é um texto opinativo. Vou desfilar fatos que já publicamos e relatos de situações que conheço profundamente, como é o caso do Paraguai. O brasileiro não é proibido de fazer o “turismo da vacina” e viajar para outro país, por sua conta e risco, para se vacinar. Mas não é o caso do Atlético Goianiense. O time estava lá representando o Brasil em um torneio de futebol. É como se o clube fosse um pedaço do território brasileiro.

Portanto, só poderia ter tomado uma vacina que tivesse sido autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mais ainda: a Lei 14.125/2021 determina que qualquer vacina que entre no território nacional tem que ser repassada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Ou seja, o presidente do Atlético Goianiense pode ter feito um gol contra caso o governo brasileiro resolva passar o que aconteceu a limpo. Dificilmente fará isso porque o caso passou batido pela imprensa brasileira, em especial a esportiva.

Mas isso não significa que o episódio tenha passado batido entre os partidos de oposição do Paraguai. Por quê? Simples. A oposição paraguaia considera o Brasil um país imperialista e responsável por apoiar governos corruptos no seu país – há matéria na internet. Nos últimos anos tem sido comum a queima da bandeira brasileira nos protestos populares.

A primeira vez que isso aconteceu foi em 2008, na cidade de Curupaiti. Eu estive lá fazendo reportagens e por todos os cantos encontrei faixas acusando os brasileiros de imperialistas. Outra bandeira foi queimada em 2019 no município de Santa Rosa del Aguaray. O atual presidente do Paraguai, Mario Abdo Benitez, é acusado pela oposição de defender os interesses brasileiros na usina hidrelétrica de Itaipu – que pertence aos dois países. E vem sendo contestado pela população pela condução do combate à pandemia causada pela Covid-19.

Faltam leitos hospitalares, equipamentos nas UTIs, remédios e profissionais da área médica. Até a última sexta-feira (07/05) havia no Paraguai 296 mil pessoas que testaram positivo para o coronavírus, 7 mil mortos e apenas 143 mil doses de vacina aplicadas. Sendo que 12 mil tomaram a segunda dose, representando 0,2% dos 7 milhões de habitantes do país. Em março a população foi para a rua e pediu o impeachment do presidente Benitez.

Uma das dificuldades do governo do Paraguai é conseguir negociar vacinas com a China porque o país vende produtos eletrônicos e outros fabricados em Taiwan, um pequeno país insular cujo território é reivindicado pelos chineses – há matéria na internet. A Conmebol tem sede na cidade de Luque, mas também é de propriedade de outros nove países sul-americanos.

É dentro desse contexto que os paraguaios assistiram 44 pessoas do time brasileiro Atlético Goianiense tomarem a primeira dose da vacina no seu país. O ato foi uma provocação barata diante das dificuldades sanitárias que a população local enfrenta.

Conheço profundamente o Paraguai. Desde 1983 volto lá de dois em dois anos, a última vez foi em 2019. Em março, na ocasião das manifestações contra o presidente devido o alastramento da pandemia, fiz o post “Protestos no Paraguai: a imprensa esqueceu que lá vivem 1,5 milhão de brasileiros.”

Chamados, a maioria, de brasiguaios, são agricultores que migraram em busca de terras baratas e transformaram o país em um grande produtor de grãos e carnes. Sempre que acontece uma disputa política entre o governo e a oposição quem paga o pato são os brasileiros que lá vivem, principalmente os agricultores.

Dominguez, o presidente da Conmebol, precisa ser entrevistado pelos colegas jornalistas. A sua iniciativa de vacinar os jogadores de futebol é polêmica se levado em conta o atual quadro da pandemia nos países da América do Sul. A imprensa esportiva do Brasil precisa falar sobre isso.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Kuakuakuakuakua!
    Para começo de conversa, totalmente irrelevante. Um time de futebol em 211 milhões de habitantes não é significativo.
    Não estavam representando o pais, teoricamente quem faz isto é a Seleção Brasileira, sem muito sucesso ultimamente. Quando trocarem de técnico e o Neymarketing parar de jogar talvez a situação melhore.
    Lógica pura, ‘como representavam o pais não eram pessoas, eram parte do território, logo a vacina entrou no pais irregularmente’. Kuakuakuakuakua!
    Entre 25 e 30% das exportações de Taiwan, bem mais de 100 bilhões de dólares anuais, são para a China, maior parceiro comercial.
    Matéria da internet deve ter sido escrita por jornalistas.
    Ir ou não no pais vizinho não altera fato nenhum. Logo é bom olhar os números. Paraguay tem 7 milhões de habitantes. 1,5 milhão corresponde a 21%. Dizem as más línguas que nem os EUA, maior colônia fora do pais, tem este tanto (pouco mais de um milhão é o numero). Por lá seriam perto de 300 mil. Logo há grandes controvérsias.
    Como ficam as Fake News nesta história?

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