Poesias

Limite – por Eduardo Dall’Alba

É limite não poder voltar à terra do nunca
e consertar o passado
é limite não poder cruzar a pé o oceano
tirar fotos no escuro, tirar férias se cansando
girar estrelas no céu, ficar a pé no presente,
é limite ter ficado tanto tempo acorrentado,
é limite ficar preso no trânsito no passado
não recordar o limite, não se saber conversar
limite não se dizer tudo aquilo que se sente,
limite não conhecer nem a vizinha do lado,
não escutar o chamado do telefone alugado,
não saber o que se passa na cabeça dessa gente,
é limite não saber o que será amanhã,
limite não querer saber as coisas não vistas

Limite esta palavra
por mais que cave (e se cava)
é limite o pré-conceito, o pós-conceito é limite,
limite a vidinha burra, limite a surra
dos jornais sobre a cidade, é limite
não poder fazer além da conta,
limite ter a casa pronta
é limite terminar algo e ter de recomeçar
alguma coisa, é sempre limite,
no pulo na corrida no caminho,
é limite não decifrar o código, vale o enigma,
limite o frio à noite na rua,
limite a casa de madeira, de frestas cheia,
limite o tempo, dias contados, estoque
de manhãs, é limite o improviso

É limite saber o que virá, o que se diz,
limite o limite, a linha, o traço.
É limite voraz se aproximar e limite maior
se afastar, mas limite é a sombra,
limite feroz e não ter nenhum cuidado,
limite apenas ser estritamente educado,
limite não se ler todos os livros do mundo,
limite não ter visto como o ver limitado,
limite não parar por apenas um segundo
limite não pensar e limite pensar muito,
limite não mentir e limite mentir sempre,
limite a cópia, pastiche, xerox,
a arte pós-moderna, o quadro que não entendo,
é limite nomear, mas nomeemos ao menos,
nossa época ainda sem nome.

Limite limitar, não limitar é limite,
limite saber de deus, limite saber do diabo,
escolher entre poetas e discos e outros achados,
decidir a hora, o tempo, a viagem,
é limite existir, mas existindo
dar corda aos dias de temporal,
mas as coisas inesperadas, o sol
batendo na janela do quarto,
as palavras que ainda te esperam,
a música que vais conhecer,
é limite virar pó como existir é limite,
limite dizer não, e não dizer é limite

Por onde ande, se vivo
um resto de liberdade, limite saber-se solto,
o não limite, se livre, é mesmo estar livre-morto;
é limite ficar só como ficar entre a gente,
é limite se saber como se desconhecer é triste
por onde ando, se vivo, um tempo, se muito,
vejo, vejo, vejo, vejo o limite estampado
no outdoor do espaço livre
por onde ande sempre é triste ter o limite comigo,
por onde ande é sempre bem sempre nos meus passos o limite

Canto, canto, canto, canto, o meu cantar é meu grito,
por mais que saiba limite, haverá tempo no mundo,
por mais que saiba massacre, tenha visto muitas coisas,
saiba o limite de tudo, (tudo, tudo tem limite)
lanço o poema no espaço, arrisco o poema no tempo,
guardo-me livre, rompo com vontade,
o limite do limite; sem barulho sem alarde,
vou rompendo meu limite, como a vida me permite,
como se plantasse a arvore do impossível,
como se fizesse algo que rompesse, que marcasse;
vou rompendo, vou calando, vou pregando meu limite,
não permito desperdício, que o limite não permite,
vou rompendo meu limite, no verso, romance, vicio
no que ávida permite, vou rompendo meu limite.

A poesia
Limite, de Eduardo Dall’Alba, de Caxias do Sul, conquistou o 1º Lugar na Categoria Poesia, na 28ª Edição do Concurso Literário Felipe D’Oliveira, em 2005. Sua publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: ChadoNihi / Pixabay.

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