Poesias

Abertas – por Elder Rodrigues

(Nada de escancarar aos ventos,
nosso universo sozinho que o tempo nunca fecha)

Águas nos escapam, escorrem.
Infiltram a terra, que em poeira, se proclama morta.
E não somos barreira
nem forças de reter nos fogem da boca.
Somos parte desses rios
que correm rasteiros para longe de nós,
no avante de verem vencida a aridez de há tempos.
Cavam passagens, ultrapassam, resistem.
Esperam que a cheia surpreenda o velho vestido curto
e alivie o colo seco, para que ninguém mais
veja o fundo sem proteção.
Constroem o leito de ancas largas, ilusões prematuras
que se encharcam rumo aos mares que nunca chegam.
Inundam, aos poucos, os espaços esquecidos para que
não fiquem tão vazios nem apodreçam antes do tempo.

E temos voz pequena
de quem sussurra por medo dos próprios ecos.
Solos em cantigas de ninar que não resistem
aos presságios do fraco sol que ás vezes reina.
Pela falta dele, as lágrimas escorrem
pelos buracos que nos calaram um dia.
Escapam dos olhos com a mesma violência
com que regressam a eles:
a mesma nascente. a mesma foz.
Terra ainda menina e que já fecunda
o próprio receio em continuar assim.
Orvalho de nós mesmas,
(que arrepia) e ainda nem é desejo.
O toque que se precipita e pede correntezas,
quando nuvens simplesmente não estão.
Acalantos precoces e já tão distantes, que embalam,
enquanto a umidade alaga o que ainda era infância.

As águas vêm do nada
e elevam-se do repente de para sempre estar.
Afagam os lábios ressecados e ainda sem batom,
e correm no afã violento das tempestades.
Levam a sujeira que vai se amontoando
em distâncias e cursos irreais.
(Águas paradas são quase eternas)
Uma prece em molhar o que já fere
e respira enquanto raiz.
Nas enchentes que sobrepõem às margens,
nossa superfície se conserva pintada e
tudo o que não é suor escapa junto à corrente,
envelhecendo o que com ela segue.

É preciso se entupir e não se mover
na lama e no lodo de nossas saudades.
Os vãos estreitos apenas sufocam o que enterramos
em nós como parte do silêncio medido.
É fechar os olhos
para que as gotas não se multipliquem.
É fechar as pernas para que o sangue
vaze aos poucos e não nos torne tão mulher.
(Acenos aos anos que andamos descalças,
fechadas e vazias de cirandas).
A imprecisão de entulhar as bonecas e
preparar os braços para choros visíveis.
A obrigação de lavar as manchas do íntimo
de nossas roupas, até que o vento as enxuguem
ou não mais nos sirvam.

De tudo o que se funde: rezas, afagos, sonhos.
Tudo escorrega e se espalha.
As noites detêm o impossível de se permanecer junto.
Separam o que é carne do que adormeceu como alma,
para só assim não mais se calar o desejo de se estar suja.
Dilatam-se os poros que pedem preenchimento
e deixam que velejem livres os pecados indizíveis
de se amanhecer em outros braços.
(Tudo que se enche, entorna)
Febre única de desaguar em algum ponto,
o secreto viço de quando a terra cede.
Sim. Apesar de tudo, a terra cede.

Momento de se fartar os peitos
arrebatar o ventre
abafar a dor com que se racham os bicos
e permitir que o leite vá pingando,
deixando os rastros de futuras crias.
Acalmando assim a parte fértil
que nos transtorna e nos envelhece.
(Antes o corpo em dilúvio
do que a alma em deserto).

E do aguaceiro que tudo leva. Restam as ruínas,
os escombros, os ciscos que se desfazem
e que amamentamos como parte nossa.
O amor que arde por dentro e se desfaz,
cedendo ao crucial atrito de se estar sozinha.

Cerrar novamente as pernas,
não mais impede que tudo escape.
Alguns líquidos não se misturam.
Mulheres não se tocam
se rasgam, parindo a dor de jorrar sempre
o peso insuportável de filhos
que nos beijam e depois se vão.

Afunila-se assim a própria sina, num corpo já
incongruente, sinuoso, cansado.
Represado pelas gorduras e por tudo que não fomos.
Ser apenas e agora, o espaço largo, frígido,
áspero e de olhar desfeito (que nem encanta ou seduz).
Várzeas cada vez mais confusas,
que remontam aos antigos olhos
de homens que miravam apenas frouxas profundezas.
E agora, só alimentam nossa parte rasa
com o escuro dos seus equívocos.

No amargo dos tempos, em que o sangue cessa,
acalmamos as feridas e nos entregamos ao dilúvio de
esquecer as terras para sermos apenas nós:
restos de natureza morta, renegadas a própria sombra
que ofuscam o brio de existir-mulher.

E escoradas pela chuva que sempre tarda,
recolhemos ainda o universo que escapou da gente,
no sinalizar do fim de travessias secas,
que cabem só no impossível
ou no improvável de nossas velhas mãos.
No pesar da eternidade
de sermos apenas o que não se prende
o que não se guarda
o que não se diz.

De tudo que internamente nos forma,
e por sermos instintivamente abertas,
nunca fica dentro de nós.

A poesia
Abertas
, de Elder Rodrigues, de Belo Horizonte/MG, conquistou o 1º lugar no 32º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2009. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: S. Hermann & F. Richter / Pixabay.

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