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O heroico e o trágico da brasilidade olímpica – por Leonardo da Rocha Botega

Atletas como Rebeca, Alison, Abner, Herbert… só precisam de oportunidades

Tempos de Jogos Olímpicos são sempre tempos de construções de heróis. Atletas que quebram recordes, ganham medalhas e estabelecem novos limites para o que até então pensávamos ser o topo da capacidade física humana. Atletas que encantam as velhas e as novas gerações que a cada quatro anos param para apreciar o principal espetáculo esportivo do mundo. Entendidos ou não das modalidades em disputa, milhares de pessoas param para torcer e referenciar os novos heróis.

Falando de heroicidade, o romancista estadunidense Francis Scott Fitzgerald nos provocou com a seguinte afirmação: “mostre-me um herói e eu escreverei uma tragédia”. No Teatro Grego, a tragédia (gênero teatral mais antigo do mundo) era vista como um gênero maior, por isso seus personagens não eram “pessoas comuns”, mas sim, nobres, heróis, deuses e semideuses.

Até mesmo os júris das tragédias eram compostos por aristocratas, deixando a comédia para “as pessoas comuns”. Foi justamente na Grécia que nasceram os Jogos Olímpicos, em homenagem aos Deuses do Monte Olimpo.

Assim como os povos, nós, brasileiros e brasileiras, a cada Olimpíada temos construído nossos novos heróis e nossas novas heroínas, e (como uma espécie de concretização da frase do autor de “O Grande Gatsby”) recebemos a revelação de novas tragédias.

Tragédias essas que, diferentemente daquelas do Teatro Grego, não têm como personagens membros de nossa pseudo-aristocracia, mas sim, “pessoas comuns”. “Pessoas comuns” em um país onde tragédias são tratadas como vidas comuns.

“Pessoas comuns” como a ginasta consagrada por duas medalhas olímpicas, um ouro e uma prata, Rebeca Andrade, uma jovem mulher negra em um país que, apesar de ter 56% de sua população composta por negros e negras, cotidianamente dá demonstrações de que seu racismo estrutural está longe de acabar. Momentos depois da cerimônia que premiou Rebeca, a ex-ginasta negra, campeã mundial, Daiane dos Santos, revelou que colegas da equipe brasileira se negavam a dividir o banheiro com ela.  

Rebeca também foi uma menina criada por uma mãe solo em um país que tem um dos maiores índices de abandono paterno do mundo. O Brasil tem 11,5 milhões de mães solos, 57% vivendo abaixo da linha da pobreza. Em 2018, Ministério Público Federal divulgou que mais de cem mil processos de pensão alimentícia tramitavam em todo o país. Divulgou também que, em média, sessenta e cinco homens eram presos por dia pelo não pagamento de pensão alimentícia.

Mesmo assim, naquele mesmo ano, o país elegeu um vice-presidente que afirmou que “família sem pai/avô é fábrica de desajustados”. Era a naturalização da tragédia social em um país onde os poderes constituídos consideram mais problemático o ataque a estátua de um genocida do que o genocídio da população negra periférica que já dura mais de 500 anos.

Esta população negra periférica resiste, enfrentando todas as mazelas sociais e as tragédias cotidianas. Esta população negra periférica ganha medalhas de ouro, prata e bronze. Esta população negra periférica, assim como Rebeca Andrade, Alison dos Santos, Abner Teixeira, Hebert Souza e tantos outros brasileiros e outras brasileiras, só precisa de oportunidades para demonstrar seu potencial. Para alegrar um país tão carente de alegrias. Para despertar uma heroica brasilidade que alguns ousam sequestrar em nome da manutenção das tragédias sociais cotidianas.                                  

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do Editor: A foto (sem autoria determinada) de Rebeca Andrade, medalhas de prata e ouro olímpicos na Ginástica Artística, é uma reprodução obtida na internet.

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