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Mãe atípica na ‘bio’ – por Juliana Petermann

“A gente sabe quando o olhar é de julgamento e não de empatia”

Na última semana, pela primeira vez, acrescentei à minha bio a informação “mãe atípica”. Depois de mais de um ano de diagnóstico, quase três anos de investigação, entendi e assumi as complexidades da maternidade (que por si só já é bastante desafiadora) atípica. Mais do que isso, incorporei à minha descrição profissional essa tag.

Por que isso foi necessário? De alguma forma, sempre procurei reservar minha vida profissional da minha vida pessoal: minha casa, minhas pessoas. O trabalho já avança tanto, sobre tantos aspectos. Mas foi uma doce ilusão. Não consegui separar. Não quis mais separar. Por motivos que tocam desde aspectos muito pragmáticos, como a abertura de processo de horário especial para servidor com dependente com deficiência, até aspectos muito subjetivos, como a minha esperança de que a universidade seja um lugar mais acolhedor e, a cada dia, mais preparado para a neurodiversidade.

(Tentar) deixar a minha maternidade atípica no âmbito do privado seria desleal comigo, mas também seria injusto com a própria universidade, que precisa fazer de cada experiência singular um aspecto a considerar no caminho da busca pela diversidade. Um caminho árduo, porque exige, principalmente, vontade de aprender. Mas estamos na universidade não é mesmo? O local do aprendizado. Nem tudo é tão simples quanto parece. Conviver e compreender o diferente nunca é fácil. Eu aprendo todos os dias com meu filho, mas esta é uma meta de vida para mim: entender como funciona alguém que funciona diferente do meu típico modo de ser. Entender a potência de seus interesses, o extraordinário dos seus sentidos, sua memória incrível, a criatividade infinita e a intensidade do seu pensamento.

Mas intensa também é a rotina do tratamento, quase nove horas semanais de terapias, podem ser intensas suas reações e sua energia é, ainda mais, intensa. Mesmo no ambiente da universidade, próprio para o aprendizado, nem todo mundo está disposto a aprender sobre aquilo que não lhe toca a pele. Foi do lado de dentro do arco, quando eu ouvi um estudante dizer para o outro: “bah, meu, vou te dar um colar de quebra-cabeças”, debochando de algum erro que o amigo havia cometido. Em outros momentos, muitos – inclusive em locais de confraternização docente – senti olhares de julgamento, diante da energia do meu filho: “Como é que essa mãe não controla essa criança?”.

A gente sabe quando o olhar é de julgamento e não de empatia. É de dentro do universo da universidade que, frequentemente, me chegam as frases “1) mas nem parece que tem autismo” ou “2) todo mundo é um pouco autista” ou ainda “3) agora todo mundo é autista”. Já tenho as minhas respostas prontas por aqui: 1) Autismo não tem cara; ser uma pessoa introspectiva, assim como eu sou, não configura autismo porque não há prejuízo: me tornei professora e faço isso sem sofrimento. 2) Não, nem todo mundo é autista, estima-se que apenas 1% da população mundial. 3) O que aumentou, felizmente, foi a conscientização, a precisão dos diagnósticos e o acesso a serviços e terapias, que facilitam a identificação.

Estas frases assumem um tom capacitista. E eu, que não sou nenhuma especialista no tema, descobri isso há pouco tempo. Aprendi, quando essas frases passaram a doer um pouquinho em mim. Quando senti que quem diz, mesmo sem a intenção, retira do tema a complexidade que merece, minimiza as dificuldades de quem passa e banaliza o que não pode ser banalizado. Autismo não é moda. Não é algo que se escolha ter ou ser. Muito pelo contrário: é um diagnóstico que carrega medos, inseguranças, frustrações e sobrecarga.

Meu filho com cinco anos, tem uma agenda lotada de terapias, pouquíssimos horários de descanso. A rotina da nossa família é um cobertor curto: quando cobre o pai, destapa a mãe, e todos os vice-versa possíveis. Mas acreditamos no desenvolvimento dele e esta tem sido a nossa prioridade de vida. E isso, definitivamente, impacta na minha vida profissional, na minha sala de aula, nas pesquisas que oriento e desenvolvo. Preciso acreditar que a universidade, que é também a minha casa, possa ser a cada dia mais acolhedora para o meu filho e para todas as pessoas neurodivergentes, que já estão e que escolherão a UFSM.

Que a universidade não perca a oportunidade de se rever, de se refazer, a partir de outros modos de ver, de sentir e de perceber o mundo. E por entender que essa é também uma responsabilidade minha, como docente dessa instituição, que hoje carrego, com orgulho, coragem e esperança, a minha bio: 
Juliana Petermann nasceu em Candelária, uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul. Aos 16 anos, deixou a casa dos pais para estudar em Santa Maria, onde vive até hoje. É publicitária, professora e pesquisadora na UFSM. Busca a transformação da publicidade pelo ensino e acredita que a criatividade só vem com a diversidade. É mãe atípica e, a cada dia, redescobre os sentidos do mundo pela perspectiva de seu filho, Moreno.

(*) Juliana Petermann é Professora Associada do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM. O artigo acima foi publicado originalmente no site da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (AQUI) e reproduzido com a autorização da autora.

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