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O pós pós-feminismo – por Elen Biguelini

“Não é a toa que estamos já em uma quarta onda do movimento feminista”

Durante a década de noventa um movimento novo começou a surgir entre as mulheres brancas de alto poderio econômico. Era o pós-feminismo que aparecia, em especial, entre âncoras de jornais americanos e britânicos e na mídia. A personagem de crônicas, depois livros e filmes, Bridget Jones, exemplifica estas mulheres: que mesmo sem sucesso em sua carreira, viam outras mulheres de sucesso e achavam assim que a sociedade não impunha mais diferenças de tratamento entre os gêneros feminino e masculino.

A emergência de uma quarta vaga (ou onda) feminista, que bate de frente com os problemas da terceira e da segunda vagas (ou ondas), demonstra que isto não é verdade, visto que para além dos padrões de gênero impostos pela sociedade burguesa e branca, outras questões devem ser discutidas pelo movimento feminista: tais como preconceitos raciais e de sexualidade.

Mas estas mulheres (digo novamente, brancas e moradoras em países economicamente estáveis) não percebiam a existência destas questões. Especialmente as inglesas, entendiam o que chamamos de “teto de vidro”, que impede a ascendência das mulheres em diversas carreiras, como inexistente; visto que tinham não apenas uma Rainha como poder maior de seu país, como também uma Primeira Ministra. Ignoravam, no entanto, que aquela primeira ministra também sofrera preconceitos para chegar onde estava; e estes mesmos preconceitos existiam ainda, então de forma mais velada. A própria Rainha teve uma educação precária, se comparada com herdeiros do trono homens.

Viam também suas conterrâneas presidindo jornais na tela de televisão, mas não observavam a ausência de C.E.O.s, ou de outras mulheres em posição de poder. A própria Dama de Ferro via-se envolta em figuras masculinas.

Era um avanço, sim, mas não o final do feminismo. Não estavam extinguidas as relações de poder.

O pós-feminismo, então, criticava o movimento feminista, e as mulheres que ainda se associavam a ele, mas aproveitavam dos avanços que este mesmo movimento havia conseguido. Achavam que não havia mais disparidade de sexos e que aquelas que reclamavam por questões que são ainda hoje relevantes (tais como licença maternidade, violência doméstica e de gênero, entre outras coisas) eram iludidas.

Mas a própria sociedade demonstrou a elas que isto não era verdade. Não é a toa, então, que atualmente estamos já em uma quarta onda do movimento feminista, que observa as disparidades sociais, étnicas, raciais, sexuais, etc.

Falamos hoje do movimento pós-feminista, pois infelizmente a sociedade continua a repetir esta falácia de que não necessitamos mais discutir questões de gênero. Mas enquanto as americanas e britânicas tinham uma desculpa para seu comportamento retrógrado (o desconhecimento do resto do mundo e a presença de duas figuras femininas de poder quando a internet apenas estava em seu início); atualmente não há desculpas para defender que não há disparidade entre homens e mulheres na sociedade, visto que os feminicídios continuam a ser tema diário na vida das brasileiras e de muitas outras mulheres e sociedades do mundo.

E agora não podemos mais fingir que estas histórias não existem, visto que a internet se tornou algo corriqueiro de nosso dia-a-dia; algo que utilizamos em todos os momentos, e que nos acompanha em todas as horas.

(*) Elen Biguelini é Doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no site.

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Um Comentário

  1. Tribo engraçada. Militantes femiistas daqui discutem a objetivicação do corpo feminino no esporte. Playboy da Alemanha lança o exemplar mensal com tres atletas olimpicas e depois uma edição especial só com atletas olimpicas. Resposta padrão ‘mas foram eram que escolheram assim’, ao que se diz, pois é, escolha individual, não ‘coletiva’, nem imposta por um ‘coletivo’.

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