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Sentimentos e consumismo – por Marta Tocchetto

Datas festivas, inclusive as religiosas, “não escapam ao consumismo selvagem”

Consumimos muito mais do que necessitamos e, mesmo assim, somos induzidos e estimulados, permanentemente, a consumir cada vez mais

Aproveitando a atmosfera do dia dos pais, um convite à reflexão – nosso padrão de consumo. O grande sábio Gandhi disse: “O mundo tem o suficiente para a necessidade de cada um, porém não tem o suficiente para a ganância de cada um”.

Vivemos uma sociedade que prioriza o ter em vez do ser. Consumimos muito mais do que necessitamos e, mesmo assim, somos induzidos e estimulados, permanentemente, a consumir cada vez mais. Somos uma sociedade de consumo, cujos desejos estão sempre insatisfeitos.

Como afirma Zygmunt Bauman em Vida Líquida, a sociedade de consumo consegue manter permanente a insatisfação. A insatisfação gera novos desejos e novas necessidades a serem atendidas. Necessidades e desejos que deixam de ser nossos. Necessidades e desejos impostos pela fúria comercial que transforma tudo, inclusive sentimentos, em pacotes de presentes.

A pandemia e a recomendação de permanecer em casa para evitar a transmissão do coronavírus deixaram uma reflexão importante – o excesso de bens materiais que sequer foram usados uma única vez.

A quarentena levou também à melhoria da qualidade do ar e das águas em vários locais do planeta, demonstrando que a atividade humana é a principal responsável pela degradação ambiental. A sobrevivência da espécie humana depende de novos padrões, de novos modos de produção e de consumo.

 Que o aprendizado da pandemia faça parte do tão falado novo normal. Torço! Porém, a esperança desmorona a cada dia, à medida que a economia volta ao patamar anterior às restrições. O novo normal deve representar uma nova postura frente a nossas práticas e hábitos, sobretudo em consumir menos e priorizar produtos com maior vida útil, ou seja, que tenham maior durabilidade.

O consumo excessivo é insustentável em um planeta finito e com recursos naturais esgotáveis. Ele é destruidor do meio ambiente, conduz à exaustão de recursos naturais e à poluição. Não dá para esquecer que no dia 29 de julho alcançamos a Sobrecarga da Terra, isso quer dizer que estamos consumindo além do que estava previsto para todo o ano de 2021.

O nosso déficit ambiental só cresce! A geração de resíduos cresce na proporção do aumento de consumo. Em média, uma pessoa gera, diariamente, 1 kg de resíduos. Esta quantidade é maior quanto maior é o poder aquisitivo. O crescimento da reciclagem não acompanha a geração resíduos. Diante disso, cresce o comprometimento de áreas para o descarte de bens inservíveis.

Materiais que poderiam voltar ao ciclo produtivo evitando a extração da natureza e que, muitas vezes, são descartados de forma inadequada provocando a destruição da biodiversidade e a degradação ambiental.

As datas comemorativas não escapam ao consumismo selvagem – dia das crianças, dia dos namorados, dia dos pais, dia das mães, dia dos avós. Inclusive as datas religiosas, páscoa e natal, a cada ano ganham contornos maiores de consumo.

Datas cuja associação representam sentimentos de reconhecimento, gratidão, amor – homenagem, são transformadas em estratégias de marketing para estimular o consumo e para vender mais. Os apelos para compra de presentes não foram poupados nem nos momentos de maior gravidade da pandemia, ao ponto de se criar a inexistente dicotomia entre saúde e economia.

Homenagear quem amamos e quem significa em nossas vidas é uma atitude de reconhecimento e gratidão. O convite é à reflexão. O convite é à transformação das homenagens em gestos diários de amor, gratidão e reconhecimento, não apenas em um dia pré-estabelecido e sobrecarregado de apelos econômicos desconectados de sentimentos verdadeiros e de vida.

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

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Um Comentário

  1. O grande sabio Ghandi dividiu a India em três e acabou assassinado por um nacionalista fanático. Não queria rachar o pais, mas não teve o discernimento politico para avaliar o que fazia.
    Bauman quando falava em sociedade de consumo dificilmente pensava no Brasil, é uma generalização. Morava em Londres e o padrão de consumo nos EUA e na Europa Ocidental é muitas vezes maior. Alás, Bauman foi acusado de plágio, teria copiado trechos inteiros da Wikipedia sem citar a fonte. Ao que seus defensores, vermelhinhos óbvio, responderam com um ‘é uma critica ideologica reacionaria’ e ‘defesa de empirismo estéril e cultura do positivismo’. O proprio autor afirmou que obediencia a regras tecnicas não era necessário que nunca deixou de reconhecer autoria das ideias’. Ou seja, para ele as regras não se aplicam, bastante humilde. Vide Wikipedia.
    Resumo da ópera: problemas muito grandes e muito complexos têm motu proprio. Este papo de ‘para salvar o planeta/meio ambiente temos que acabar com capitalismo’ não cola e não ajuda.

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