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Brasil, um país que sangra – por Marta Tocchetto

O sangramento no Brasil não é exclusividade do sexo feminino. É resultado de políticas destruidoras do meio ambiente, da saúde, da dignidade, da economia, da ciência, da educação, da liberdade – por todos os lados há marcas, cuja reconstrução será árdua e desafiadora. Mais uma ferida é exposta pelo veto à distribuição de absorventes higiênicos para mulheres em situação de pobreza e vulnerabilidade. O sangramento feminino está ligado à fertilidade, à fecundidade.

O corpo da mulher se prepara e sinaliza cada ciclo do seu período fértil. O tempo passou, os avanços nas diversas áreas se sucederam, mas menstruação ainda é um tabu. Encarar com naturalidade e como sinal de saúde o sangramento mensal, não é uma unanimidade nem entre as mulheres.

Para muitas é um momento de sofrimento, discriminação, vergonha, exclusão. As dores atingem a alma, pois sequer têm condições de enfrentar o momento dignamente. As dores roubam o tempo, pois feito um “bicho esquisito que todo o mês sangra”, como se diz Rita Lee, são impedidas de desenvolver suas atividades, se valendo de inseguras formas.

Forram-se com jornal, papel de embrulho, guardanapo, papel higiênico, sacolas plásticas, panos velhos, algodão e outros materiais que sequer protegem contra vazamentos, motivo para constrangimentos e chacota pública. O improviso oferece riscos à saúde devido a presença de tintas, corantes e outros produtos tóxicos à pele e ao trato vaginal ocasionando alergias e outros comprometimentos graves.

A pobreza menstrual é uma forma cruel de exclusão de mulheres e meninas da sala de aula, do trabalho, de suas atividades. Virar as costas para esta realidade é dar as costas há milhões de brasileiras que sequer tem direito a um ciclo natural.

Bolsonaro e Damaris, mais uma vez ignoram problemas sociais com falta de humanidade. Atitude machista e discriminatória. A distribuição de absorventes é um problema de homens e de mulheres. É um problema social grave e urgente.

O impacto ambiental também requer enfrentamento. Produtos descartáveis para higiene como, absorventes e fraldas agravam o gerenciamento dos resíduos urbanos. A minimização requer melhoria na produção e o desenvolvimento de tecnologias que possibilitem o tratamento e a reciclagem destes produtos após o uso.

A ciência e as pesquisas científicas oferecem novas possibilidades para este enfrentamento. A ciência também sangra no país, golpeada com a redução de verbas em 90%, isso depois de sucessivos cortes. Trôpega e cambaleante decorrente de ataques fatais que torna, praticamente, impossível a missão dos cientistas para descobrir, desenvolver e inovar.

São poucos os estudos existentes sobre o impacto ambiental de absorventes e fraldas descartáveis. Um estudo da Universidade Federal de Goiás (2020) cita que fraldas compõem 2,7% do total dos resíduos urbanos da cidade de Goiânia. Pesquisa publicada em 2008, aponta que na Europa, o índice fica entre 2% e 3%. Calculo que percentual similar pode ser atribuído aos absorventes higiênicos.

A questão ambiental não se relaciona apenas à quantidade, mas à composição. Em geral, são formados por quatro camadas: duas de plástico, uma de polpa de celulose e poliéster e mais uma de polímero superabsorvente. Após o uso, a disposição final ocorre em aterros e lixões à céu aberto. Este último, triste realidade em muitos municípios brasileiros.

Uma alternativa é uso de coletores menstruais e produtos reutilizáveis evitando, assim o descarte, mas requerem cuidados com a higienização, fator limitante em um país no qual o saneamento também cambaleia. Muitos países desenvolvem pesquisas para compostar, tratar em digestores anaeróbios a parte orgânica destes resíduos, separando-a dos plásticos que são direcionados à reciclagem para a fabricação de madeira plástica e outros produtos.

A questão exige múltiplas ações e diferentes olhares sobre o problema. O inadmissível é fechar os olhos como se esse fosse um problema, exclusivamente, de mulheres e da pobreza, acirrando ainda mais as diferenças sociais e o preconceito.

*Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

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3 Comentários

  1. Sabrina Gonzalez Pasterki. Apontada pela midia como a ‘nova Einstein’. Obvio que nos EUA teve oportunidades que os tupiniquins não tem. Começou a montar um avião teco teco com 14 anos utilizando um kit. Com 16 fez o voo solo na mesma aeronave. Com 26 terminou o doutorado em fisica em Harvard. Ben Krasnow, criatura tem canal no Youtube, disponibilizou um ‘faça voce mesmo’ de um microscopio eletronico. Taylor Wilson aos 14 anos construiu uma especie de reator nuclear na garagem. Questão não é a genialidade, questão é que com poucos recursos conseguem resultados. O que leva a outro problema da ‘ciencia e tecnologia’ tupiniquim, produtividade. Publica-se um horror, mas os resultados praticos são pifios. Como quase tudo no pais tentam corrigir com publicidade e propaganda. Governo de SP tentou empurrar a narrativa de uma ‘vacina brasileira’. Cuja patente está no nome de um americano.

  2. Forma é a habitual, decidem em BSB sabe-se lá com que numeros e destinam uma verba que não se sabe se ira resolver o problema. Não porque seja insuficiente, mas porque muito provavelmente a grana vai parar em outros lugares que não a finalidade a que se destina. Quanto ao gerenciamento de residuos sou capaz de apostar que até nos lugares onde os números são ‘bons’ com uma verificação in loco os mesmos não se sustentam. Quanto a ciencia e tecnologia (tem muita gente boa no pais) a media leva a sugerir o personagem Coalhada como patrono. Aquele do Chico Anysio, o que não joga nada e ainda quer massagem.

  3. Só dando risada! Kuakuakuakuakua! Cavalão é tão desinfeliz que foi só ele assumir e as mulheres pobres começaram a menstruar. Antes de 1º de janeiro de 2019 não acontecia. Lei no mesmo sentido foi aprovada em novembro de 2020 na Escócia. Questão, antes que algum(a) abobado(a) das idéias comece a chiar, não é o mérito (projeto é iniciativa da Tabata Amaral se não me engano) é a forma e o motivo. Motivo é gerar resposta emocional (truque velho) e desgastar o governo (que é do jogo). Cavalão, com toda sua finesse, disse que teria que cortar da saúde e/ou educação. Fato é que não necessariamente cortará destas rubricas, mas vai ter que cortar em algum lugar. Orçamento não é um saco sem fundo. Qualquer pessoa minimamente racional entende isto. Mais ou menos como a mentira do ‘aumento da fome’ no Brasil. Obvio que deve ter aumentado. Mas uma ONG gerida não se sabe por quem divulga uma pesquisa feita por instituto obscuro e afirma que mais da metade da população brasileira sofre de ‘insegurança alimentar’. Obvio que é mentira. Alguém deve ter pensado em matar dois coelhos com uma cajadada só, desgastar o governo e aumentar as doações de alimentos.

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