Contos

Com as mãos vazias – por Edileuza Bezerra de Lima Longo

Já passava das duas horas e era a décima vez que Zita saía à porta. Voltava, olhava para os irmãos e dizia enfaticamente:

– Eles já vêm. Se avexem não, eles vêm já.

O sol causticante; o chão seco e partido, as árvores peladas de folhas e de vida não geravam nem um pedacinho de sombra para as crianças brincarem embaixo para matar o tempo infalível.

Chico chorava. Zequinha apenas a olhava, sem dizer nada. Aquele olhar a feria mais que mil lamúrias. Zita tinha que ser forte. Era a mais velha e tinha que segurar a fome dos dois e a dela própria. De repente, lembrava-se de uma cantiga. Começava a cantar, mas o ronco do bucho era mais alto e encobria a voz fina e fraca.

Chico ensaiava uns pequenos passos vacilantes na sala de chão batido; caía, além da pouca idade, as perninhas eram magras e não aguentavam segurar o peso do corpo entupido de vermes. Tinha só um ano e já sentia as primeiras pancadas de uma existência árida, mas pelo menos não era consciente nem tinha os olhos tristes e secos de Zequinha.

Zita já estava se transformando numa moça bonita, apesar da ossada apontando sobre o seu corpo jovem. Tinha doze anos e a mãe tinha dito que logo; ela já podia se casar e ter uma casa caiada; com bastante comida; um roçado prolífero; um jardim com bastante flor, vestidos de chita e nunca mais de saco.

Ah! O seu noivo ia ser um cabra forte; seus cabelos iam ser mais claros do que a água lá do açude quando cheio; seus olhos negros e serenos iam ser mais vivos do que os olhos da piaba e, carinhosamente, ia chegar num dia de muita luz e dizer, segurando sua mão:

– Dona Madalena, tenho orgulho em pedir sua filha em casamento.

Ia ser lindo, lindo! E, ela risonha e rosada ia esconder a cara no ombro como toda donzela das redondezas fazia; e, de cabeça baixa, ia esperar o consentimento da mãe.

Seu vestido de noiva ia ser mais branco que a lua cheia e, ela com os olhos brilhantes de felicidade, ia parecer com a estrela que vira cair por cima dos montes lá distante. Como ia ser bom! Infelizmente, a realidade existia no puxão de saia de Zequinha:

– E se foram embora que nem painho?

Ela estremece levemente, retrucando rápido:

– Tu tá doido? Acha que mainha ia fazer uma safadeza dessas? Talvez já esteja na lida. Tu vai vê, gorinha mesmo, Tião aponta lá na ponta do caminho com as mãos cheias das coisas. Parece que tô inté vendo: macaxeira; farinha; feijão de corda; carne-seca, até um taco de queijo de coalho.

Zequinha escutava com a baba escorrendo pelo canto da boca, comendo avidamente, na imaginação, a comida que a irmã inventara. De repente, seus olhos inquisidores se alegram com uma ideia:

– E se a gente pedisse um pouco de açúcar pra Dona Sofia? A situação dela é melhor que a nossa. O marido volta, painho não. E, depois, ela não é madrinha de Chico? Pois é, então é que nem mãe, não vai negar nunca.

Zita não espera outro pedido. Sai num pinote louco; os cabelos negros nadando ao vento, os olhos excitados e o pensamento implorando para o Padim Ciço ajudar a convencer a vizinha.

A casa era quase ao lado da sua, mas chegou tão cansada, que parecia ter corrido mil léguas. Falou mais rápido do que o próprio desejo, como se a mulher, sem o devido tempo para pensar, fosse se convencer mais depressa:

– Será que a senhora não podia emprestar um tiquinho, bem tiquinho mesmo, de açúcar?

Esperou dois intermináveis segundos, infinitos. Dona Sofia pigarreou e seu coração acelerou as batidas. Quando alguém pigarreava diante de um pedido, era porque o negócio não ia dar certo. Já tinha experiência.

Sempre era ela quem pedia para os vizinhos, pois a mãe todo dia saía com o sol despontando para ver se conseguia algum lugar para trabalhar, desde que o pai fora embora.

As pernas bambolearam; o frio na barriga vazia aumentou; a esperança atrofiada se escondeu por entre os dentes cerrados e o peito calou um grito de raiva, quando escutou aquela voz triste:

– Tenho não, acabou.

Insistiu, apesar do resultado previsto:

– Aca…bou? Tudinho, foi?

E a maldita sentença foi mais uma vez confirmada, seca, dura:

– Tudinho. Quando Severino chegar à noitinha, eu arranjo.

À noitinha? Estava com fome agora, não podia adiar a fome. Estava cansada de esperar. Esperá-los que não voltavam.

Esperar o pai que não voltava nunca mais. Esperar até o vizinho que só voltava à noitinha.

Queria que o céu escurecesse já, mas pra mandar chuva, não para esperar um vizinho que nem sabia se ia lhe dar qualquer migalha. Pensava na mãe. Como a mãe sabia das coisas. E ela se orgulhava da sabedoria da mãe. Dizia coisas tão lindas, contava histórias doces, mas…

Eram histórias, não era açúcar que adoçava água. A mãe dizia que ela era seu braço direito. Na ausência dela, era ela quem cuidava dos menores; cozinhava, quando tinha; lavava, quando tinha… Água.

Bem, era só uma “meio” dona-de-casa. Só não era inteira porque só fazia as coisas… Quando tinha. Mas era muito importante.

Encheu o peito de orgulho, estufou-o inteirinho, jogou a bunda pra trás e ereta, voltou pra casa.

Zequinha esperava sentado no batente da porta. Ela entrou absolutamente séria, evitando, como sempre, o seu olhar.

Ao ver as mãos vazias da irmã, dava soco na parede indignado.

– Merda, num arrumou nadinha? É esse o braço direito de mainha, é?

Zita nem respondeu. Dizer o quê? Fica apenas olhando triste para o irmão que sai em disparada.

A camisa rota e desfraldada, totalmente aberta no peito magro, parecia galopar fora do corpo. Ele tinha visto seu Pedro passar perto da casa com um pacote na mão. Ele trabalha pra seu Anastácio e isso significa dinheiro, que significa comida. Isso era mais do que certo.

Enquanto ia mastigando essas ideias, mastigava antecipadamente o conteúdo do pacote. Devia ser macaxeira, farinha, feijão de corda, queijo de coalho, nossa mãe, quanta coisa!

Pelo menos a macaxeira já dava um jeito. Mas… Macaxeira sem o sal? Virgem Santa! Ia ter que praticar dois pecados juntos, tinha que roubar também o sal.

Mas não carecia ficar tão preocupado. Quando fosse dia de procissão lá no Sítio de seu Anastácio, ele ia pedir pra Padim Ciço perdoar. Ele ia compreender. Não era nada tão grave assim. Só dois pecados bem baratos.

Talvez valessem duas ave-marias, dois pais-nossos e um dia sem brincar no açude quando estivesse cheio. Cheio?! Óxente, só no dia de São Nunca. Então, tudo bem.

E depois, a mãe sempre dizia que Padim Ciço era amigo das crianças como Jesus. Afinal, só tinha dez anos, devia ser criança ainda. Ou será que não?

Engraçado, não se sentia criança. Não sabia bem porque, mas se sentia homem. Macho. Cabra muito do macho. Pensava até em dar um jeito, se bem que roubar não é coisa de gente de bem, como a mãe dizia. Roubar e matar.

Mas ele achava o Lampião um baita cabra macho, um herói.

Ele matava e roubava, mas era um herói. Ave Maria, se a mãe pudesse entrar nos seus pensamentos ia ser uma surra daquelas. Credo em Cruz! É bom nem pensar nisso. Lampião herói. Imaginem! Padim Ciço ia pedir mais penitências.

Melhor desviar esses pensamentos. Aliás, pra que praticar um terceiro pecado assim à toa, só por causa do merda do Lampião? Não, está decidido: só praticava pecados que valessem à pena, como a comida.

Não via a hora de chegar em casa e mostrar para Zita a macaxeira e o sal. Ela ia se orgulhar dele e nunca mais ia chamá-lo de criança.

Pronto. A casa do seu Pedro estava ali na sua frente. Agora tinha que ter peito e provar para Zita que era um homem.

Deu a volta pelos fundos do quintal; analisou a cerca de avelãs e arame farpado, mediu o salto pra não cair esbodegado em cima dela e tomou distância. Jesus, se não desse certo, avelã ardia que nem ferida braba quando caía na pele.

Seu Pedro tinha cachorro? Não, claro que não. Como iria sustentar? Então, o caminho estava livre. Não se via ninguém por perto.

Preparou o salto e as pernas lhe faltavam na hora, envergando-se quase sem forças. Diabo de fraqueza, não estava nem podendo se erguer, quanto mais pular uns dois metros de altura. Bem, pensando bem, a cerca não podia ser tão alta assim. Arame farpado é caro. Era ilusão da vontade.

Preparou o último e definitivo salto, quando sentiu que a terra faltava aos seus pés. Estava no alto. Virou devagarzinho o cangote e seu Pedro, em carne e literalmente osso, suspendia-o pela gola da camisa. As pernas balançando no ar. Sentiu um medo tão grande que se tivesse algo por dentro, fazia ali mesmo.

Mas, mais ágil que o velho homem, desvencilhou-se rapidamente, deixando nas mãos dele apenas uma manga surrada de camisa. A carreira de volta foi mais rápida e mais penosa. As lágrimas corriam sem que quisesse. Um ódio surdo se acumulava na goela, doendo. Odiava chorar. Achava desperdício de água.

O que ia dizer para Zita? Homem, quem dera! Ele era um grandessíssimo jumento, tinha mais é que andar de quatro, olhando sempre para o chão.

Enxugou as lágrimas com raiva e ficou esperando por um momento, com o cheiro da macaxeira nas ventas. Zita não podia vê-lo chorar, isso é que não.

E a mãe? O que estaria fazendo? Gostaria tanto de ajudar, mas era muito franzino e os empreiteiros não gostavam de homem franzino. A mãe disse que mais uns dois anos e ele já estava pronto para enfrentar a vida.

Doze anos, que merda, não chega nunca. Quando tivesse doze anos…Ah! Ia se emburacar pelo mundo afora. Ia para Sumpaulo, num pau-de-arara ou mesmo na rabeira de um caminhão de carga.

Ia trabalhar; juntar bastante dinheiro; comprar uma casa, bastante comida e vinha buscar a mãe e os irmãos. E nunca mais ia esperar aquele velho barbudo e muito do mentiroso que no Natal nunca vinha.

Ele mesmo ia comprar uma viola e um radinho de pilhas para ele; uma saia bem rodada de chita para Zita; uma bola para o Chico e um terno com gravata para o Tião. E para mainha?

Nossa, botara a coitada em último lugar. Mas, ela sabe como é importante e ia comprar uma máquina de costura e um véu preto igual aos das beatas.

Ah, e todos iam ter que estudar. Até mainha. Para desenharem as letras no papel. Suspirou de orgulho de seus futuros feitos. Acordou com a realidade batendo firme na sua cara. Deu uma pigarreada, endureceu o corpo e entrou de cara amarrada na sala já escurecendo.

Zita somente o olhou de rabo do olho, sem perguntar nada, porque não tinha nada para perguntar. Encolheu-se num canto com Chico no colo e ficou esperando por eles que não voltavam.


O caminho parecia um bolo retalhado. Era um córrego seco, coisa comum de se ver naquele sertão ardente. A terra ardia debaixo dos sapatos furados.

Madalena ia mais à frente, seguida por Tião que andava cabisbaixo e devagar. De vez em quando, ela parava para esperá-lo, levando-o, às vezes, montado nas próprias costas.

O sítio de seu Anastácio dava mais de duas léguas e a fome e a sede dificultavam ainda mais a caminhada.

Madalena tinha o rosto ainda jovem, mas já franzido de pequenas rugas. A testa transparecia os pensamentos múltiplos e desencontrados. Ora pensava nos filhos que ficaram em casa; ora pensava no emprego que precisava, ora pensava com mágoa na fuga do marido.

Homem não aguenta o tranco, acha mais fácil fugir do choro de criança e evitar os problemas. Tentava ainda desculpar a falha de caráter do marido.

Enquanto ia pensando, as mãos esqueléticas e cheias de calos iam desfiando as contas do rosário de pedras que ganhara de Januário no dia do noivado, há treze anos. Ela só tinha treze anos. Então, só tem vinte e seis e por que parecem tantos? Lembrou-se do dia que ele chegou em sua casa e disso para o pai:

– Quero me casar com essa cabrita, como tá bonita, parece até uma calunga!

E o pai respondeu orgulhosamente:

– É tua, Januário, é só marcar a data e nóis acerta tudo.

Fora feliz, apesar dos sofrimentos, dos maltratos, mas para ela, felicidade era ter os filhos para cuidar e o que comer todo dia. Só isso. Agora, Januário sumira com cinquenta por cento da sua felicidade, deixando só o outro cinquenta para ela cuidar. Não deixara nem o modo de fazer isso.

Como vai ser, se o homem souber que ela é mulher dele? O excomungado fugira com o dinheiro da última safra do Sítio. Mas seu Anastácio ia compreender. Lá isso ia. Ela não tinha culpa.

Como ia ser bom. Ia trabalhar; receber o pagamento no final do dia e toda tardinha; ia levar macaxeira; carne-seca, enfim, a outra parte de sua felicidade. Já via a filha correndo e gritando ao seu encontro.

– Mainha vem vindo, tá com as mãos cheinhas de coisas. E não via a hora de fazer uma surpresa no Natal para os meninos. Ia comprar uma saia bem rodada de chita para Zita; uma viola e um radinho de pilhas para o Zequinha; um terno para o Tião e uma bola bem grande para o Chico. E para mim?

Ah, se sobrar, vou comprar um véu bem bonito para receber Jesus Cristo como uma senhora respeitável, na hora da comunhão. Um suspiro enorme rompe do seu peito, volta à realidade e apressa os passos. Abaixa humildemente as costas e manda o filho montar para diminuírem a distância que parecia infinita.

Senhor Deus, ajuda que nós chegamos. Há que se ter fé, muita fé mesmo. E esperança. Suspira mais longamente, toma coragem, bate à porta e espera.

O capataz manda esperar numa sala semiescura; que deixa entrever apenas o retrato de um homem bem vestido, sorrindo; com um chapéu branco e com uma boca grande, cheinha de dentes de ouro.

Virgem Maria, o homem é rico mesmo, mas se ele rindo é assim, como será quando fica brabo? Pior ainda, como será quando a gente vem pedir alguma coisa?

Valha-me, Nossa Senhora! Tremia como vara verde, sentia todos os ossos do corpo chocalhando, as mãos se apertavam como se quisessem se atracar.

Depois de quase uma hora que parecera um século, surgiu o tal homem da boca de ouro.

Ele nem respondeu ao seu frágil “boa tarde”; sentou-se à mesa grande e ficou cutucando os dentes com os dedos, arrotando e olhando simplesmente.

A voz calou, murchou, morreu. O arroto dele se confundindo com o ronco do seu bucho. Por que será que me olha assim?

Talvez esteja me avaliando pra saber que tipo de trabalho pode me dar. Bem, a roupa era velha, mas limpa. Mas… Com essa ossada toda aparecendo… Bem, é melhor esperar.

Esperou milênios. De repente, assustada, ouviu aquela voz que mais parecia um trovão perguntando:

– Quantos anos tem? Quantos buchos? Vive mais teu cabra? Ave, isso tudo e de uma só vez.

Fez o que podia fazer. Respondeu também a tudo de uma só vez; com medo de perder totalmente aquele fio de voz e, principalmente, por estar feliz de ele não saber quem ela era.

E ele:

– Se teu cabra foi embora, boa coisa tu num dá. Pode ir que não tenho serviço pra tu não.

Uma descarga elétrica parecia tê-la fulminado. Num segundo, pensou em mil argumentos para convencer ao homem que era trabalhadeira; que não tinha culpa se o marido fugira com o dinheiro dele; não tinha culpa se ela e os filhos eram gente e, mesmo sem ter, tinham que comer; não tinha culpa se não nascia o que plantava; não tinha culpa se não chovia, e principalmente, se não a deixavam encontrar uma oportunidade para viver.

Queria dizer tudo isso mais uma vez de uma só vez, mas perdeu o fôlego até no pensamento atropelado e só conseguiu balbuciar:

– Senhor, seu Sítio é o único das redondezas, onde vou encontrar trabalho? Posso lavar; capinar; limpar suas botas; fazer a comida dos peões, sei lá, posso até costurar e…

Parou diante daquele olhar de pedra. Não sabia mais o que prometer em troca de um simples trabalho e ficou olhando aquele homem que tudo podia, jogar na sua cara que estava precisando de mulher para os seus peões. Que os rapazes solteiros estavam meio arredios por falta de vadiagem e, o pior, já andavam rondando as donzelas dele.

Mais uma vez, Madalena sentiu um gosto amargo de fel na boca; o bucho roncou mais forte; o ódio subiu na goela seca; a raiva contida estava querendo explodir no peito tísico e a imagem dos filhos com fome dançava na sua frente com as mãos esticadas, pedindo, mendigando migalhas.

Não podia fraquejar, voltar com as mãos vazias, não, isso não podia. Engoliu a seco a saliva escassa e o pudor ultrajado e, tentou argumentar mais uma vez:Senhor, isso é duro pra uma mãe de família, o senhor sabe. Valho mais do que dois de seus peões para qualquer trabalho pesado, deixe-me mostrar que posso. Não há homem nesse mundo que tenha mais força e vontade do que eu. Garanto. O homem nem lhe respondeu, virou as costas e ia saindo quando, de repente, perguntou:

– A não ser que tu tenha uma filha, tu não tem não? Mais moça, dá melhor pro ofício. Pálida, como se tivesse levado um soco na boca do estômago, Madalena gemeu um palavrão indecodificável. As mãos arrebentaram o pequeno rosário. Zita. Sua Zita para os peões. Não, não ouvira errado. O safado ainda repetiu.

Que vontade de dar um soco na cara desse filho de uma égua e quebrar todos esses dentes de ouro que mangam de sua mágoa. Não fosse o desvario do marido, teria até orgulho do que ele fizera àquele excomungado.

Januário, filho de uma quenga! Que vontade de lhe encontrar e lhe obrigar a servir de mulher para os peões enfileirados.

Sentia-se um animal embrutecido; um subumano; vazia por dentro; agora, até de sentimentos. Com a cabeça enfiada no próprio íntimo, olhou mais uma vez para o retrato sisudo do riso cheio de ouro; fulminou-o com o olhar enlouquecido e retirou-se, tropeçando nos próprios pensamentos desvairados.

Como num filme, só via os filhos à sua frente. Zita chorando embaixo de um brutamonte; Chico implorando com as mãozinhas inutilmente estendidas; Zequinha com aqueles olhos negros e indignados e, Tião chupando o dedo fino e coçando o umbigo.

E aquele filho de uma égua do Padim Ciço tinha dito que Deus olhava para os pobres. Aonde? Quando? Deus não estava ligando para o seu sofrimento, devia ser um safado como os outros.

Era tão safado que não nascera mulher só pra não ter o trabalho de parir, de criar e dar de comer para os filhos. Era um homem também. E como todos ainda era preguiçoso que precisou descansar no sétimo dia.

Mulher não, só descansa quando morre. Se Ele não dava trabalho, por que é que não dava chuva pra nascer o que plantava?

Não estava querendo nada de graça. E pensar que estava com os joelhos que eram um calo só de tanto ajoelhar para rezar e pedir, pra pedir, sempre pedir, pedir sempre…

Para quem? Será que tinha alguém ouvindo? Se ouvia… Por que não ajudava nunca?


Já estava escurecendo quando avistou a pequena casinha de sapé e seus olhos fincaram-se no chão, quando avistou os filhos que vinham correndo em sua direção.

Ia correr ao encontro, mas estancou quando ouviu:

– Zita, mãe está com as mãos vazias, não traz nada não.

Zequinha tropeçava nas palavras. Machucava sua visão as mãos vazias da mãe.

Madalena cambaleando nem entrou em casa, falando rápido para que os filhos não retrucassem:

– Mainha vai em todos os vizinhos; na casa das mulé dama, até nos quintos dos infernos negociar com o próprio Diabo, mas não volta com as mãos vazias, viram? Depois acerto minhas contas com Deus.

Com as pernas doloridas; as costas envergadas; as vistas ressecadas de tanto chorar e; principalmente, sem ter coragem de olhar de frente para os filhos que arregalavam os olhos tristes e esperançosos olhando-a se afastar; saiu mais uma vez, com a vida rastejando nos calcanhares.

FIM

O conto
Com as Mãos Vazias
, de Edileuza Bezerra de Lima Longo, de São Paulo/SP, conquistou o 1º lugar na categoria Contos no 37º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2014. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: Hai Nguyen Tien / Pixabay.

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