Não basta dizer: é preciso mostrar que outra gestão é possível na governança pública – por Marionaldo Ferreira

No cenário contemporâneo, a frase “outro mundo é possível” ressoa como um chamado à esperança e à transformação. No entanto, quando se trata da esfera pública e da governança, essa afirmativa ganha uma camada adicional de complexidade e urgência.
Não basta apenas declarar a possibilidade de um futuro diferente; é imperativo demonstrar, por meio de ações concretas e propostas funcionais, que outra gestão é não apenas desejável, mas plenamente alcançável.
O discurso teórico e pode até ser bonitinho, mas temos que apresentar soluções práticas que redefinam a governança pública, tornando-a mais eficiente, transparente e responsiva às necessidades da sociedade.
Para compreendermos como “outra gestão é possível”, é fundamental primeiro estabelecer a diferença entre governança e gestão. Embora frequentemente usados de forma intercambiável, esses conceitos possuem papéis distintos e complementares no setor público. A Controladoria-Geral da União (CGU) define governança pública como o “conjunto de mecanismos de liderança, estratégia e controle postos em prática para avaliar, direcionar e monitorar a gestão, com vistas à condução de políticas públicas e à prestação de serviços de interesse da sociedade”.
Em outras palavras, a governança estabelece a direção, define os objetivos e os limites, e monitora o desempenho geral. É o cérebro que pensa e planeja a rota. A gestão, por sua vez, é a execução dessas diretrizes. É a função realizadora, responsável por planejar as operações, executar os planos e controlar o desempenho. Se a governança decide o ‘quê’ e o ‘porquê’, a gestão se ocupa do ‘como’ e do ‘quando’. A ineficácia na gestão muitas vezes reflete falhas na governança, e a melhoria de uma depende intrinsecamente da outra.
Mostrando que Outra Gestão é Possível:
Propostas Práticas:
A transição de um discurso aspiracional para uma realidade tangível exige a implementação de propostas práticas e funcionais. Não se trata de reinventar a roda, mas de aplicar e adaptar princípios de boa governança e gestão que já se mostraram eficazes. O Tribunal de Contas da União (TCU), por exemplo, apresenta ” Passos para a Boa Governança”, que servem como um guia para gestores públicos.
Para demonstrar que “outra gestão é possível”, é fundamental focar em:
Orientação para Resultados e Valor Público
A governança eficaz direciona as ações para a busca de resultados que gerem valor para a sociedade. Isso implica em encontrar soluções inovadoras para lidar com a limitação de recursos e as constantes mudanças de prioridades. A gestão deve ser capaz de traduzir essas diretrizes em serviços públicos de excelência, desburocratizados e que atendam às reais necessidades dos cidadãos.
Transparência e Prestação de Contas (Accountability)
A confiança pública é construída sobre a base da transparência e da accountability. A garantia de acesso a informações legítimas e fidedignas sobre as operações, decisões e resultados da gestão pública é crucial. Mecanismos robustos de prestação de contas permitem que a sociedade avalie o desempenho dos gestores e a utilização dos recursos, fortalecendo a legitimidade das instituições.
A atuação pautada na priorização do interesse público, em valores morais e conduta ética, é um pilar inegociável para uma nova gestão. A integridade não apenas constrói a confiança, mas também previne práticas corruptas e fortalece a credibilidade da organização. A implementação de sistemas de integridade amplos e coerentes, juntamente com o cultivo de uma cultura de integridade, são essenciais.
Uma gestão que se propõe a ser diferente deve ser capaz de responder de forma clara, eficiente e eficaz às demandas da sociedade. Isso envolve não apenas a capacitação técnica dos agentes públicos, mas também o envolvimento ativo dos cidadãos nas decisões públicas, inclusive por meios eletrônicos. A participação cidadã potencializa a influência da sociedade na formulação de políticas e na prestação de serviços, promovendo uma cultura de gestão pública colaborativa.
A capacidade de adaptação e a busca por soluções inovadoras são características de uma gestão que funciona. Isso inclui a modernização da gestão pública, a simplificação administrativa e a integração de serviços, especialmente por meio eletrônico. A avaliação contínua de políticas públicas e a incorporação de padrões elevados de conduta pela alta administração são fundamentais para assegurar a melhoria contínua.
Não basta dizer que outro mundo é possível; é preciso mostrar que outra gestão é possível.
A governança pública, quando alinhada a princípios de transparência, integridade, capacidade de resposta e inovação, oferece o arcabouço necessário para que a gestão pública transcenda o discurso e se materialize em ações concretas. Ao focar na geração de valor público, na participação cidadã e na melhoria contínua, é possível construir um setor público mais eficiente, ético e verdadeiramente a serviço da sociedade. O desafio é grande, mas as ferramentas e os conhecimentos para essa transformação já existem. Cabe a nós, como sociedade e como gestores, a responsabilidade de implementá-los e, assim, provar que a mudança é não apenas uma utopia, mas uma realidade construível.
(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.





Resumo da opera. Singapura tinha estratégia e alinhamento estratégico. Brasil é na base do ‘vamos continuar assim porque está bom para alguns, marketar bastante e ver no que é que vai dar’. Brasil pais do futuro, a cenoura na frente do burro para puxar carroça com mais vontade.
‘Cabe a nós, como sociedade e como gestores, a responsabilidade de implementá-los e, assim, provar que a mudança é não apenas uma utopia, mas uma realidade construível.’ Exortação de praxe que precede o ‘vai continuar tudo como antes’. Pais não está assim por falta de exortações.
Brasil não sabe o que é e não tem idéia de onde quer chegar. Tudo vai sendo empurrado com a barriga. Numa empresa privada se falaria em ‘visão’ e ‘missão’, planejamento estrategico. Alguma vez já existiu? Estado Novo (ditadura), governo JK, parte do Regime Militar (idem) e talvez os governos Itamar Franco e Efeaga. Obviamente varios periodos de desenvolvimentismo que deram com os burros n’agua. Mas havia rumo, errado mas havia.
Obviamente existe um problema de escala. Mas o primeiro Primeiro Ministro de Singapura estabeleceu diretrizes e metas no inicio do pais. Combate sem trégua a corrupção (lá não tem STF liberando a tigrada), todos tinham que sair da escola com inglês fluente (no Brasil o ensino de língua estrangeira é uma enganação, meritocracia (que em lugar nenhum é perfeita) e buscar recursos humanos da melhor qualidade não importando de onde (Brasil não precisa, tem um jenio em cada esquina, é autossuficiente). Resultado: PIB per capita de Singapura é 9 vezes maior do que o tupiniquim.
Brasil é uma esculhambação. Simples assim. Conversa ‘meta’ sob governança e gestão é puro mimimi. Funciona com base no personalismo, nas ideias do grupo de plantão no poder e os interesses do estamento politico. Logo apesar de uma imagem de ‘planejamento’ e de muita marketagem eleitoreira tudo é muito ‘ad hoc’.
‘[…] é imperativo demonstrar, por meio de ações concretas e propostas funcionais, que outra gestão é não apenas desejável, mas plenamente alcançável.’ Outro discurso teórico ‘bonitinho’.
‘No cenário contemporâneo, a frase “outro mundo é possível” ressoa como um chamado à esperança e à transformação.’ Chavão. Não muito inteligente ainda por cima. Muitos outros mundos são possiveis, não necessariamente melhores. Ainda por cima existe uma megalomania embutida. Alas, os mundos são diferentes, obvio, para habitantes de lugares diversos. Sudão do Sul, Nova Iorque, Indonesia, etc.