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O planeta não é uma grande lata de lixo – por Marta Tocchetto

Mundo “sofre diversos impactos decorrentes da crescente geração de resíduos”

O planeta sofre diversos impactos decorrentes da crescente geração de resíduos. Ele não é uma grande lata de lixo com capacidade infinita!

Dia 17 de maio, além de ser o aniversário de Santa Maria é o Dia Internacional da Reciclagem. A data foi instituída pela Unesco com o objetivo de estimular a reflexão sobre a importância do descarte correto dos resíduos gerados pelo nosso consumo. A industrialização foi um dos fatores que contribuiu para o aumento da geração de resíduos. O incentivo ao consumo, como medida de qualidade de vida é outro importante aspecto para o agravamento da questão.

O sistema econômico vigente condiciona e mede sua eficiência pelo consumo. Quanto mais consumo, maior a movimentação financeira e a riqueza que, de forma desigual, se concentra em uma camada ínfima da sociedade. Criam-se necessidades contestáveis e supérfluas para renovar, constantemente, a necessidade de comprar mais e mais.

Este contexto perverso que confunde destruição com desenvolvimento tem levado não apenas a sociedade, mas o planeta, ao caos. A geração de resíduos é crescente, assim como crescem os problemas decorrentes do descarte incorreto, da decomposição dos materiais e da poluição causada pelos aditivos e contaminantes presentes na composição química dos mais variados produtos.

O Brasil é um dos maiores geradores mundiais de resíduos, mas, por outro lado, é um dos que menos recicla. A reciclagem guarda uma importante dicotomia. Se por um lado, ela contribui para a redução do envio de materiais para os aterros por meio da transformação, refazendo o ciclo daqueles que apresentam potencial de reaproveitamento, por outro, ela incentiva o consumo passando a ideia de que como é reciclável, não há problema em consumir porque de alguma forma, o material retornará ao ciclo.

A ideia de que a reciclagem resolve os problemas da crescente geração de resíduos levou a afirmação de que lixo é dinheiro ou lixo é riqueza. Afirmação da qual eu discordo. Resíduos representam perdas, desperdício. O ideal é que o consumo de um determinado produto seja integral, de modo que não sobre nada ou, pelo menos, muito pouco, para o descarte. O ideal é que a vida útil dos materiais seja estendida ao máximo possível, diferentemente do que acontece de fato.

Muito do que é descartado ainda poderia ser reutilizado ou desmontado para o beneficiamento das partes. Um exemplo clássico são os eletroeletrônicos. Muitos computadores, televisores, equipamentos de som, telefones celulares ainda funcionam, mas necessitam ser trocados porque não atualizam seus sistemas operacionais ou, simplesmente, porque foi lançada uma versão mais moderna.

A obsolescência programada vem ao encontro da aceleração da substituição e na linha de manter o consumo em alta. A reciclagem destes equipamentos possibilita a redução da extração de metais, como o ouro, a prata e a platina, obtidos por processos de mineração, os quais são altamente impactantes.

A mineração tem sido apontada como uma das grandes responsáveis pelo envenenamento dos cursos d´água, além da destruição do solo e pelo surgimento de muitas doenças ocupacionais e nas populações de entorno, em especial, decorrentes dos despejos tóxicos originados pelo processamento dos metais.

É possível também o reaproveitamento das partes plásticas, pois o petróleo que é usado como matéria prima, é um bem não renovável. A reciclagem, nestes casos, contribui para a redução da extração e para o aumento da vida útil das reservas naturais.

É importante destacar que os processos consomem energia e água, em alguns casos, em quantidades maiores do que o beneficiamento das matérias primas virgens. Diversos fatores, além da viabilidade econômica, devem ser levados em conta quando é necessário transformar. Os custos ambientais decorrentes da crescente geração de resíduos são extremamente significativos, mas a economia tradicional fecha os olhos para este aspecto.

Em Santa Maria (RS), o uso de embalagens de isopor, por exemplo, é um grave problema ambiental, pois este material tem como destino o aterro, apesar de ser reciclável. O principal fator é a inviabilidade econômica, ou seja, não há quem compre das associações, na região, esse material.

O isopor enterrado permanece extensos anos até se decompor. Além disso, muitas vezes, embalagens de outros materiais como, papelão, papel e plástico, são descartadas sujas e com restos alimentares, impedindo o encaminhamento à reciclagem. Todos pagamos o alto preço da destruição ambiental inclusive, as gerações futuras punidas antecipadamente.

Políticas públicas podem, e devem, incentivar a substituição de materiais visando o abandono de alternativas que não dialogam com a sustentabilidade e com a qualidade ambiental. Antes de reciclar é fundamental não gerar ou, se for inevitável, gerar o mínimo possível para reduzir os impactos socioambientais, econômicos e à saúde, provocados pela elevada carga poluente despejada diariamente no planeta, como se esse fosse uma lata de lixo com capacidade infinita.

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

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Um Comentário

  1. Vermelhinhos não pensam na moeda como medida de alocação de recursos. Começam a colocar ineficiencias em todos os lugares possiveis e imaginaveis, o que leva a derrocada do sistema economico eventualmente. Por isto basta cruzar os braços, não tem governo que se sustente. No mais, noticia, se é possivel confiar, é que encontraram microplasticos no sangue de humanos pela primeira vez. E segue o baile.

    https://www.theguardian.com/environment/2022/mar/24/microplastics-found-in-human-blood-for-first-time

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