Dos poderes – por Orlando Fonseca
‘O que está em jogo é a democracia e a defesa da democracia’

De acordo com pesquisa Datafolha, divulgada semana passada, a percepção de 75% dos brasileiros é de que os ministros do Supremo Tribunal Federal têm “poder demais”. Ou seja, o que está na base de tal investigação é a credibilidade da Suprema Corte. Em meio a uma opinião pública forjada pelo senso comum – o que se pode medir pelas manifestações em debates e fake news nas redes sociais – a pergunta não parece apresentar uma formulação adequada. E as contradições podem ser flagrantes, pois a mesma pesquisa aponta que 71% concordam que o STF é essencial para proteger a democracia.
Ora, ou bem entendem o significado do poder que a Corte Constitucional tem para exercer o seu papel, ou simplesmente não gostam, ou não admitem as decisões que têm sido tomadas pela atual formação da Corte. Para que se atribua algum crédito à pesquisa, seria preciso, antes de tudo ter em mente o tamanho do poder que um dos Três Poderes deveria ter – e, por óbvio, o tamanho dos outros dois. Para depois opinar sobre o poder que os ministros do não deveriam ter.
Para o meu gosto, o que se vê na conjuntura nacional, tanto entre parlamentares, quanto entre administradores públicos e imprensa, é a construção de narrativas que se adequem aos interesses de cada grupo. Quanto ao público, o cidadão, o eleitor, a maioria recebe as informações através do noticiário e redes sociais, e assim forma as suas convicções. Certezas que mudam com o tempo, pois os questionamentos não eram tão ostensivos quando dos julgamentos no último período.
A pesquisa se refere à atual composição do STF – e isso dá margem para uma avaliação dos resultados: porque em passado recente, os julgamentos atingiam governos petistas, e a partir do julgamento da tentativa de golpe, com a prisão dos envolvidos, incluindo o ex-presidente, esta “percepção” se alterou.
Na referida pesquisa do Datafolha, a resposta muda quando se observa a preferência político-ideológica dos entrevistados: entre eleitores que declararam voto em Lula da Silva no segundo turno em 2022, o índice de concordância sobre a essencialidade do STF atinge 84%; já entre os eleitores de Bolsonaro, 60%. Número expressivo também entre quem votou em branco ou nulo, percentual de 73%.
Embora haja quem tenha atentado contra, vivemos em uma democracia, em pleno estado de direito. O conceito de divisão de poderes, em uma república, tem origem na Antiguidade grega, com Aristóteles. Sua consolidação como teoria se deu pelos iluministas, como John Locke e Montesquieu, no século XVIII. A finalidade tem sido, desde então, evitar a tirania e a concentração de poder, garantindo a felicidade geral da sociedade.
A pergunta no questionário do Datafolha teria de comportar a referência aos outros poderes. O presidente brasileiro perdeu poder com o sequestro do orçamento pelos parlamentares, através das emendas impositivas. Ao certo, cabe ao executivo executar e ao legislativo legislar. Nesse último caso, o que se observa é que o STF tem sido chamado a arbitrar os vácuos legais, pela falta de agilidade do próprio Congresso.
A instância de controle da Corte Suprema deveria ser o Senado, mas este também se vê mergulhado em escândalos e lutas intestinas que os projetos estão parados por lá há anos. Vivemos em uma sociedade do espetáculo (segundo Debord), e desde que se instalaram câmeras nos julgamentos do STF, observa-se esta situação de conflito de imagem.
Um juiz não pode buscar popularidade, muito menos espetacularizar suas posições. Sem transmissões, portanto, como acontece nos EUA, Reino Unido, Alemanha, p. ex., pois importam as decisões da Corte, não o voto, a retórica, a beleza dos ministros. Não é pela transparência, mas pela discrição que se deve a imparcialidade. A instituição deve ser preservada, assim como as outras duas que formam o tripé de Poder na república.
Ao fim e ao cabo, o que está em jogo é a democracia e a defesa da democracia. A quem interessa ter um STF com “menos poder”? O que precisamos eliminar, sim, são os “podres poderes” e ficar com o que nos aponta Caetano Veloso em sua canção: “Enquanto os homens exercem seus podres poderes/ Morrer e matar de fome, de raiva e de sede/ São tantas vezes/ Gestos naturais”.
Não podemos naturalizar a narrativa do caos e a cultura do ódio, que não trazem propostas para construir a cidadania em bases humanitárias. Nesse período eleitoral que se aproxima, que os projetos sejam o de fortalecer a democracia e a construção de um país justo para todos.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Resumo da opera. Questão do STF não se resolve sem uma crise institucional séria. Tendencia é tudo acabar em meia calabresa e meia Marguerita. O resto é mimimi. Como sempre.
‘Nesse período eleitoral que se aproxima, que os projetos sejam o de fortalecer a democracia e a construção de um país justo para todos.’ Conversa mole. Pais vai quebrar de novo, é necessário uma nova reforma da previdencia. Gastança sem fim e dinheiro no ralo. Se perguntar a qualquer economista sério qual o futuro a resposta vai ser ‘Brasil vai ser um pais velho e pobre’. Não tem magica. Parabéns aos envolvidos.
‘Não podemos naturalizar a narrativa do caos e a cultura do ódio, que não trazem propostas para construir a cidadania em bases humanitárias.’ A tentativa de censura é sempre objetivo dos autoritarios. Criticas ao Tribunal com indicios de mal feitos que deveriam ser investigados são ‘narrativa do caos’ e ‘cultura do odio’ porque batem nas urnas desfavoravelmente ao Rato Rouco. Simples assim. Esta é a ‘base humanitaria’.
‘A quem interessa ter um STF com “menos poder”?’ A todos, porque ele extrapolou. Simples assim. Gilmar Mende pediu a Xandão que inclua Zema no Inquerito das Fake News. Falou que Zema já ‘precisou da Corte’ para assegurar recursos para MG. Como se decisão judicial fosse uma ‘graça’ ou ‘benesse’ concedida pelo Tribunal e não questão de direito.
‘Ao fim e ao cabo, o que está em jogo é a democracia e a defesa da democracia.’ Conversa mole da ultima eleição. Esconder mal feitos atras das instituições. Alas, Rato Rouco está comprando briga com o Agente Laranja para melhorar a popularidade e ganhar votos. Muito preocupado com o pais que está.
‘[…] como acontece nos EUA, Reino Unido, Alemanha, p. ex., pois importam as decisões da Corte […]’. Falacia repetida pelos causidicos. Primeiro, Reino Unido não tem constituição escrita. Os casos civis da Suprema Corte por lá são na maioria divulgados no Youtube em streaming. Na Alemanha não acontece, é verdade, mas as funções do Tribunal são diferentes. Não funciona como quarta instancia. Nos EUA, a Suprema Corte divulga o audio das sustentações orais e questionamento dos/das ‘justices’, o que dá ideia do voto. Trechos aparecem no Youtube também, há canais ‘especializados’.
‘Um juiz não pode buscar popularidade, muito menos espetacularizar suas posições.’ Nos Estados Unidos os julgamentos são transmitidos nas instancias inferiores em alguns estados. Camaras corporais dos policiais, as imagens são consideradas informações publicas, tem que ser divulgadas.
‘[…] desde que se instalaram câmeras nos julgamentos do STF, observa-se esta situação de conflito de imagem.’ Teve grande audiencia na epoca do Mensalão. Já não acontece. Quem mais assiste é a imprensa e o pessoal do juridico. Demais tem Youtube, Tik Tok. Assunto muito arido. Ministros em epocas diferentes tiveram Twitter pessoais.
‘A instância de controle da Corte Suprema deveria ser o Senado, […]’. ‘Deveria’, logo não está acontecendo. Logo ‘ evitar a tirania e a concentração de poder,’ não está acontecendo. Logo ‘vivemos em uma democracia, em pleno estado de direito.’ não está acontecendo. Mais claro do que isto só desenhando.
‘É aceitável que um ministro do STF julgue causas que envolvam clientes de seus parentes, quando a defesa não
estiver sendo exercida pelo parente.’ 79% discorda.
‘Os ministros do Supremo devem ter permissão para aceitar convites de interessados em ações judiciais que tramitam no tribunal’, 66% discordam.
Pesquisa de março tem outros quesitos. Afirmação ‘Os ministros do Supremo podem dar entrevistas e opiniões
sobre os temas que estão julgando sempre que quiserem, e não apenas no processo.’ 55% discordam. Esta na Lei Organica da Magistratura!
‘A pergunta no questionário do Datafolha teria de comportar a referência aos outros poderes.’ Pesquisa de março sobre confiança nas instituições. Mesmo Datafolha. 42% acham que o Congresso tem desempenho regular e 39% ruim/pessimo. Ministros do STF, desempenho ruim/pessimo para 39% e regular para 34%. Presidencia da Republica, 43% não confia, 34% confia um pouco e 22% confia muito. Alas, confia um pouco no nivel quarenta e poucos por cento é o nivel para imprensa, judiciario e forças armadas. Grandes empresas tem 52%.
Inquerito tem como relator Xandão. Foi ignorado o sorteio. Vitima, investigador e julgador na mesma pessoa. Chutadores dizem que pode ser que termine ano que vem. Tudo isto foi validado pelo plenario. Pergunta: quem tinha pousada, quem andou de avião, quem tinha esposa com contrato milionario? Ou vão dizer que é conspiração também?
‘Embora haja quem tenha atentado contra, vivemos em uma democracia, em pleno estado de direito.’ Se assim fosse não haveria controversia. Lava a Jato foi desmontada, no New York Times foi noticiado que o motivo foi se aproximar demais do Tribunal. Em 2019 foi instaurado o Inquerito das Fake News por Toffoli com base no artigo 43 do regimento interno do STF. ‘Ocorrendo infração à lei penal na sede ou dependência do Tribunal, o Presidente instaurará inquérito, se envolver autoridade ou pessoa sujeita à sua jurisdição, ou delegará esta atribuição a outro Ministro.’
‘[…] é a construção de narrativas que se adequem aos interesses de cada grupo.’ Volta a Jean Baudrillard. Só porque existe uma construção de ‘narrativa’ não significa que ela ‘cole’. Muito dificil dizer o que irá viralizar nas redes, as vezes uma bobagem esconde temas importantes. As vezes o que a grande midia apresenta como ‘muito importante’ é solenemente ignorado. O que se ve é a tentativa de vender conceitos antigos empacotados e fazer parecer que são novos. Lobby, relações publicas, etc. Sem falar na evidente teoria da conspiração.
‘Para que se atribua algum crédito à pesquisa, seria preciso, antes de tudo ter em mente o tamanho do poder que um dos Três Poderes deveria ter […]’. Pesquisa tem credito porque é coerente com outras. No mais defecação de regra de professor de portugues em materias que nunca estudou. Simples assim.
‘Ora, ou bem entendem o significado do poder que a Corte Constitucional tem para exercer o seu papel, ou simplesmente não gostam, ou não admitem as decisões que têm sido tomadas pela atual formação da Corte.’ De novo a tentativa de fazer colar a idéia de ‘normalidade’. ‘É assim mesmo’.
‘[…] 75% dos brasileiros é de que os ministros do Supremo Tribunal Federal têm “poder demais”.’ ‘[…] 71% concordam que o STF é essencial para proteger a democracia.’ Começo de conversa. Apareceu um ‘proteger’ que não existe no texto original. Correto é ‘essencial para a democracia’. Não é atividade, é instituição. ‘Tem poder demais’ é relativo a atividade. Obvio a discrepancia entre teoria e pratica, algo que surge cotidianamente em ‘debates’, quando algo não funciona aparece alguem, geralmente do juridico, para citar a teoria decorada. Se existe uma teoria, mesmo que não condiza com a pratica, quem reclama não deveria reclamar porque é ‘ignorante’.
‘[…] o que se pode medir pelas manifestações em debates […]’. Onde o tema não é literatura ou gramática. Alas, causidicos, bem ou mal, tem na formação as disciplinas de ciencia politica e teoria geral do Estado. Justamente o que se ensinava na disciplina, forma simplificada, de OSPB na minha epoca.
A coalizão Supremo Tribunal Cumpanhero e Rato Rouco fica evidente na pesquisa. ‘[…] observam-se diferenças significativas nas taxas de desconfiança, sendo mais alta entre os eleitores de Flávio Bolsonaro do que entre os eleitores de Lula.’
‘Em meio a uma opinião pública forjada pelo senso comum […]’. Beneficio da duvida. Arrogancia de achar que a patuleia é ignorante e alguns ‘sabem melhor’. Desqualificar a pesquisa com objetivos politicos.