“Pra Frente Brasil”: Copa do Mundo e repressão política – por Roselâine Casanova Corrêa
Ao afirmar ser “um filme de ficção”, o realizador foi prudente. Ou irônico!

A Copa do Mundo é o maior torneio de futebol em âmbito planetário e foi idealizada na década de 1920, pelo francês Jules Rimet. O regulamento da Taça Jules Rimet previa que o primeiro país a vencer três edições ficaria com o troféu em definitivo, o que o Brasil conquistou em 1970.
Realizada a cada quatro anos, a competição passou de um evento com apenas 13 seleções (1930), para um fenômeno global que mobiliza bilhões de espectadores e é acompanhado em quase todos os cantos do planeta.
O Brasil venceu os jogos em 5 ocasiões (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002) e é o único país pentacampeão da história do torneio.
O regime utilizou o tricampeonato brasileiro na Copa do Mundo de 1970 – realizado no México – como propaganda ufanista do chamado “milagre econômico”. Pano de fundo para contrastar com o auge da repressão e da tortura durante o regime civil-militar (1964-1984). Slogans característicos desse período – “Brasil: ame-o ou deixe-o”, “Ninguém segura este país”, dentre outros – balançavam em Guadalajara, nas ruas brasileiras e nos atos cívicos.
Um dos primeiros filmes nacionais que retrata – de forma indireta – a tortura e o sumiço de pessoas sob o regime ditatorial brasileiro, aborda a Copa de 1970, sob o título “Pra Frente Brasil” (1982), com direção de Roberto Farias (1932-2018). O longa tem no elenco artistas significativos do cinema e do teatro, como Reginaldo Faria, Antônio Fagundes, Natália do Valle, Elizabeth Savalla, Cláudio Marzo e Carlos Zara.
Realizado sob o governo do General João Batista Figueiredo (1979-1985), amealhou percalços, comprovando o quanto a abertura política era frágil e a censura ainda grassava no país do Verde & Amarelo.

O filme chegou a sofrer censura provisória, sendo retirado do Festival de Cannes daquele ano. Farias tomou o cuidado em apresentar aspectos violentos da repressão e da tortura, como ação de “grupos descontrolados”, sem nomear a participação direta da hierarquia militar. Sobretudo nos “desaparecimentos”, caso do personagem Jofre (Reginaldo Faria). Implacáveis são as cenas do sádico Dr Barreto (Carlos Zara), torturando o protagonista até a exaustão, para abandoná-lo em um descampado, quase nu e o acompanhando no icônico carro chamado de camburão (Chevrolet Veraneio).
Dr Barreto é a síntese da ditadura civil-militar no Brasil. Parece com vários torturadores, como o Delegado Fleury (chefe de grupos de extermínio conhecidos como Esquadrão da Morte). O grupo de empresários que financia a repressão e participa de sessões de tortura, lembra a célebre – e triste – “Operação Bandeirantes” (Oban), coordenação policial e militar da repressão política.
Com exceção de Mariana (Elizabeth Savalla), cujo envolvimento com o sequestro de Jofre a conduziu à luta armada e à ruptura com Miguel (Antônio Fagundes), os demais personagens do círculo de relações dos irmãos de classe média – Jofre e Miguel – são indiferentes ou cúmplices da repressão.
Toda a trama é entrecortada pelas partidas do Brasil na Copa do Mundo, às vésperas do inverno de 1970.
A frase final do longa – “Este é um filme de ficção” – pode ter sido uma prudência de seu realizador.
Ou uma ironia!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.





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