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Educação Especial e, ainda, as crises de descontrole na escola – por Demetrio Cherobini

“Porque, sim, as crianças precisam ser preparadas para viver em sociedade”

Um aluno de seis anos chega pela manhã em sua sala de aula regular. Já diante da primeira solicitação da professora ele irrompe em crise, joga-se no chão, chora, grita, fica agressivo e se debate contra quem está perto. A professora, zelosa, tenta acalmá-lo, mas não consegue. Chama a mãe do garoto, mas nem esta dá conta de tranquilizá-lo e fazê-lo se integrar às atividades de ensino. A cena se repete muitas vezes. Inclusão é isso?

Destaque-se algo aqui importante: o que provocou a crise não foi a “falta de planejamento individualizado”, mas o próprio fato de estar num ambiente coletivo, com regras e exigências triviais e, principalmente, com um nível de estresse maior do que a criança pode suportar. As crises ocorrem toda vez que essa criança se encontra num lugar assim, que abala sua condição frágil e vulnerável.

É impossível, portanto, que ela não tenha crises na escola, porque a escola, como outros espaços semelhantes, tem pressões e tensões peculiares que lhe são inerentes: cobranças, prazos, limites, metas, horários etc.

Por tal razão, a escola nem sempre é um lugar salubre para muitos que a frequentam. E não há como, nas condições atuais, a escola ser diferente nesse sentido, sem um índice mínimo de exigências, sem regras e cobranças – e também sem estresse. Sim: escola, às vezes, é um lugar estressante.

Escola é um ambiente coletivo, com responsabilidades compartilhadas, tarefas a serem cumpridas, objetivos comuns – e, não raro, conflitos. É isso o que afeta a constituição sensível de alguns. O que esperar se colocarmos uma criança com condição de saúde instável num ambiente potencialmente estressor para ela?

Nessa situação, por certo, a crise virá. E quando vier, já não será mais uma tarefa para educadores resolverem, pois é um problema de saúde que agora se estabelece. A culpa disso não é da criança, mas de quem a obriga a ficar num espaço para o qual ela ainda é frágil e indefesa: ou seja, do próprio Estado e de como implementa a “inclusão”.

Ora, um ideal muito elevado de inclusão (mesmo parecendo belo e justo), implementado em condições contraditórias, vai produzir, não a inclusão desejada, mas muitas vezes, justamente, as crises emocionais que vemos todos os dias – tensões essas em que o aspecto mais visível é o constrangimento do estudante incluído, mas que também atingem o professor: produzem nele frustração, mal-estar e um cansaço físico e mental que em nada ajuda a criar algo que se possa chamar de educação e/ou inclusão.

E por que, afinal, essas crises são vistas como algo que um professor deve resolver? As crises de desregulação interna são chamadas em inglês de meltdown, palavra que pode ser traduzida por colapso. Um colapso emocional-sensorialsignifica uma perda temporária do controle comportamental por parte da pessoa.

É, portanto, um problema de saúde e, como tal, requer tratamento de acordo com critérios das áreas da saúde – e não um tratamento pedagógico! Por muitos anos se botou a culpa nos professores por não evitarem e não resolverem essas crises na escola, mas isso está totalmente errado.

Discutir isso não é preconceito, mas sim uma exigência fundamental para melhor organizar e encaminhar a educação das pessoas com necessidades especiais. No caso de crianças com propensão a crises, antes de se tentar inseri-las de maneira forçada em espaços repletos de regras e exigências – e com certo nível de estresse, como são as escolas -, deve-se proporcionar a elas atividades terapêuticas (psicoterapia, terapia ocupacional, arteterapia etc.), para que robusteçam sua condição psíquica e neurológica, a fim de, num momento propício, poderem se inserir, gradualmente, em espaços de natureza social.

Porque, sim, as crianças precisam ser preparadas para viver em sociedade. Forçar a barra, aqui, e normalizar situações de crise na escola, não traz bons resultados, nem educativos, nem psicológicos, para ninguém. Por outro lado, com uma condição psíquica e neurológica fortalecida, a criança poderá adquirir maior consciência de si mesma, mais segurança, melhores possibilidades de autocontrole e assim diminuir as chances de crises.

(*) Demetrio Cherobini, professor da rede municipal de Santa Maria, é licenciado em Educação Especial e bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, mestre e doutor em Educação pela UFSM e pós-doutor em Sociologia pela Unicamp.

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2 Comentários

  1. Decisão de cima para baixo sem muito debate. Prometem coisas que muitas vezes não se cumprem (monitores em numero certo?). Problema semelhante ocorre com a diversidade, implantam a modo miguelão, colocam gente sem os atributos corretos nos lugares errados e a ‘colheita’ é só mais estereótipos.

  2. Na linha de comentarios antigos, ‘menos Platão e mais Aristoteles”. Por conta de beneficios ‘conceituais’, inclusão no caso, tem-se um prejuizo real/material. Sim, porque por conta de um aluno em crise, culpa não é dele obvio, todo o resto da turma muitas vezes fica ao Deus dará. Sem falar no efeito emocional nos(as) outros(as) alunos(as). Nada que não fosse previsivel.

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