“A cidade está nas ruas”: Nova York, 2025 – por Leonardo da Rocha Botega
Quem é Zohran Mamdani, da ala esquerda do Partido Democrata nos EUA

Nas últimas semanas, enquanto o presidente estadunidense Donald Trump enviava o exército para reprimir os manifestantes em Los Angeles (passando por cima do próprio governador da Califórnia), censurava as universidades, brigava com aliados, bombardeava o Irã e via sua promessa de campanha de “acabar com todas as guerras” se diluir em seus próprios ventos autoritários, uma grande e surpreendente novidade política acontecia na cidade de Nova York.
Zohran Mamdani, “um jovem de 33 anos”, mulçumano, socialista, pertencente a ala esquerda do Partido Democrata, o movimento Democratic Socialists of America (DSA), venceu as eleições primárias que escolheram o candidato do partido para a prefeitura da cidade mais importante dos Estados Unidos. Um feito enorme, uma vez que Mamdani derrotou um dos pesos-pesados do partido, o ex-governador do Estado de Nova York Andrew Cuomo.
Cuomo governou o Estado de Nova York entre 2011 e 2021. Apesar de seu governo ter implementado algumas medidas como a coo-fundação da Aliança Climática dos Estados Unidos, a restrição do acesso as armas e a expansão do programa Medicaid, sua atuação na Pandemia, inicialmente elogiada, caiu em descredito após a descoberta de que a sua administração havia encoberto muitos dados. O governador acabou renunciando ao cargo em agosto de 2021, após uma série de denúncias de assédios e abusos sexuais.
Mesmo com sua renúncia tendo sido pedida por figuras de peso do Partido Democrata como o então presidente Joe Biden, a líder do partido na Câmara Nancy Pelosi, o líder do Senado Chuck Schumer e a senadora Kirsten Gillibrand, Andrew Cuomo era o candidato do establishment democrata e contava com significativos apoios financeiros na sua tentativa de recuperação política (o que não é pouco tendo em vista o aristocrático funcionamento da política estadunidense).
O ex-governador era o grande favorito à indicação do partido. Porém, Andrew Cuomo, o establishment democrata, os magnatas de Wall Street e a maioria dos “analistas políticos” do país não contavam com a ligação que Zohran Mamdani tem estabelecido com a população nova-iorquina a partir de pautas concretas que dialogam com os moradores da cidade e que afrontam os interesses estabelecidos nos principais círculos de poder de Nova York e do país como um todo.
Em seu discurso de comemoração da vitória nas primárias democrata, Mamdani afirmou que lutará “por uma cidade que funcione para vocês, que seja acessível para vocês, que seja segura para vocês”, complementando com as frases “Podemos ser livres e nos alimentar. Podemos exigir o que merecemos”. Em uma de suas Redes Sociais escreveu: “Os nova-iorquinos merecem um prefeito que possam ver, ouvir e até gritar. A cidade está nas ruas”.
Estas manifestações discursivas foram extremamente coerentes com a forma de fazer campanha adotada pelo candidato do Democratic Socialists of America. Assim como fez uma de suas principais apoiadoras, Alexandria Ocasio-Cortez, em sua vitoriosa campanha para o Congresso em 2018, Mandani não fez a política dos jantares, das bajulações aos magnatas do financismo, dos eventos artificiais. Preferiu o contato direto com a população.
Ouvir as vozes das ruas e não a dos arranha-céus da cidade fez toda diferença na sua escolha como candidato à prefeito. A cidade mais rica e mais populosa dos Estados Unidos é também uma das cidades com o maior custo de vida e concentração de renda do país. Um estudo feito pela ONG Robin Hood e a Universidade de Columbia, publicado em fevereiro, aponta que em torno de 25% da população de Nova York vivia abaixo da linha da pobreza em 2023, um índice muito acima da média nacional que é de 15%.
Com o objetivo de reduzir a pobreza e as desigualdades sociais, Mamdani apresentou propostas como ônibus públicos gratuitos, creches universais, congelamento de aluguéis em unidades subsidiadas e supermercados administrados pela cidade. Tudo seria financiado por novos impostos cobrados sobre os mais ricos. Cabe lembrar que taxar os super-ricos, como forma de reduzir a desigualdade social e financiar políticas públicas, é uma ideia que tem sido defendida há algum tempo pelo próprio bilionário Bill Gates.
Zohran Mamdani nasceu em Uganda e veio para os Estados Unidos quando tinha sete anos. É um dos tantos imigrantes que vivem em Nova York e em nenhum momento escondeu este fato em sua campanha. Também não escondeu seu apoio aos palestinos e suas críticas ao genocídio que vem sendo promovido por Israel em Gaza. Buscando dialogar com os imigrantes, duramente perseguidos pelo governo Trump, publicou vídeos em espanhol e em urdu, idioma falado no Sudeste Asiático.
Seu diálogo não foi apenas com “os iguais”. Ao invés de afastar os eleitores de Nova York que votaram em Trump, Mamdani procurou dialogar com estes, tentando entender o que os levou a votar no presidente republicano e o que os faria votar em um candidato democrata. Apesar de Kamala Harris ter vencido em Nova York e a cidade ser reconhecida como democrata, Trump teve o melhor desempenho de um candidato republicano na cidade desde 1984, sobretudo, nas regiões mais pobres.
Desta forma, fazendo a política das ruas e do diálogo com as ruas, o candidato democrata-socialista conseguiu a façanha de derrotar a forte estrutura da elite partidária. Zohran Mamdani demonstrou que, em tempos de redefinições de um campo político dominado pelas Fake News e pelas aristocracias financeiras, o “olho no olho”, o falar sobre o que de fato é concreto na vida da maioria da população ainda é a melhor forma de construir alternativas ao status quo.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





Resumo da opera. Não conseguimos resolver nossos problemas e os vermelhos preocupados com a politica ianque. Pagam de ‘anti-americanistas’, mas na verdade não existem alguém mais ‘colonizado’. Agente Laranja alugou um triplex na cabeça desta gente. Não no Guarujá.