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A inversão ideológica de direita e esquerda – por Giorgio Forgiarini

Como assim o “PCO comungar em inúmeros pontos com Novo e até o PL”?

A distinção entre direita e esquerda remonta à Revolução Francesa. Na época, lá pelos estertores do Século XVIII, o Parlamento Francês foi dividido em dois grupos: os girondinos, que se sentavam à direita do plenário, e os jacobinos, sentados à esquerda.

Os primeiros propunham um arrefecimento gradual e moderado dos poderes da monarquia. Sua ideia era mitigar o absolutismo, porém conservando tradições e instituições preexistentes. Prezavam por um regime monárquico constitucional nos moldes ingleses e só abraçaram o modelo republicano após a fuga do Rei Luís XVI.

O segundo grupo, os jacobinos, pleiteava uma ruptura total com tradições passadas, bem como o fim de toda e qualquer instituição de poder vigente. Desde então, direita significa (ou costumava significar) conservação, preservação, tradição, enquanto esquerda se traduz em ruptura, modificação, até subversão, talvez. Em apertadíssima síntese, eis a lógica.

No entanto, chama a atenção que desde algum tempo os papéis parecem ter se invertido. Muitos dos que se proclamam “de esquerda” tendem a defender com muito mais ênfase a conservação de instituições estatais, ao passo em que grande parte da direita advoga a ruptura, o desmantelamento do Estado e de instituições até então reinantes.

A própria ideia de “Estado” já foi defendida pela direita ou por pensadores anteriores à dicotomia entre direita e esquerda, mas que basearam muitos dos discursos direitistas. Estou me referindo a Nicolau de Maquiavel, John Locke e Thomas Hobbes, por exemplo. Os três defendiam a existência de um estado uno, forte, com poder suficiente para suprimir fetiches individualistas e garantir a ordem social e os direitos dos cidadãos, dentre os quais, o direito de propriedade.

Comunistas por outro lado, viam o Estado e seus tentáculos como instrumento de opressão. “É o balcão de negócios da burguesia”, dizia Karl Marx. Ao proclamar “trabalhadores do mundo, uni-vos”, Marx não apenas convocava os proletários a se unir em luta contra o capital, como também pugnava pela extinção das fronteiras, dos governos e dos órgãos de opressão, enfim, da figura do Estado em si.

Otto Von Bismarck foi primeiro Ministro da Prússia e contemporâneo a Karl Marx. Conviveu com os efeitos das agitações marxistas. Ao perceber o risco de os comunistas arregimentarem a simpatia dos trabalhadores prussianos, estabeleceu um sistema de previdência social inteiramente sustentado pelo Estado, o primeiro do mundo. Seu objetivo declarado era “subornar o coração e a mente de cada trabalhador germânico” e evitar que aderissem à subversão comunista. Bismarck não era tolo.

Vargas, décadas mais tarde, fez algo semelhante no Brasil. Não concebeu os direitos trabalhistas por bondade ou altruísmo, mas por entender que com isso angariaria a simpatia popular, aliviaria a pressão dos trabalhadores organizados em sindicatos, evidenciaria a importância do Estado para a população e afastaria do país o “fantasma do comunismo”. Ambos, Bismarck e Vargas, sabiam que não basta o Estado ser truculento. Para existir ele deve se mostrar relevante.

Max Weber, sociólogo alemão e também antagônico a Marx, condiciona o sucesso do capitalismo à existência de um Estado forte e racional a atuar como “detentor do monopólio do poder de violência”, com o objetivo justamente de garantir o cumprimento dos contratos. Sim, para Weber, no que tendo a concordar, o Estado é fundamental para estabelecer uma unidade monetária (moeda) que possa servir de parâmetro para o comércio, bem como para impedir que um indivíduo passe a perna no outro. Em suma: Sem Estado não há capitalismo. Sim, eu concordo com isso.

Desde a revolução soviética de 1917 essa lógica parece ter se invertido. A pretexto de fazer uma transição lenta para o comunismo (onde não haveria Estado), a própria esquerda se acostumou com a lógica de um Estado grande, pujante, quase onipresente, com o objetivo justamente de domar o ímpeto do capital privado.

Surge aí a lógica do “Estado de Bem Estar Social” e as teorias desenvolvimentistas da economia, que fizeram muito sucesso sobretudo na Europa entre 1960 e 2000 e é mais ou menos isso o que vem fazendo a China até hoje, respeitadas peculiaridades muito próprias.

A direita, ao contrário, se abraçou no liberalismo, principalmente depois dos anos 1980. Privatização passou a ser sua bandeira, burocracia virou sinônimo de doença e o Estado se tornou o causador de todos os males da humanidade, o inimigo a ser combatido.

Hoje a direita repele tudo o que diz respeito ao Estado ou a suas instituições: universidades públicas, campanhas de vacinação, serviços públicos, decisões judiciais, regulamentos e restrições sanitárias, nada que venha de ente público presta. É notável, inclusive, o entusiasmo de grande parte da direita com as criptomoedas, em detrimento das moedas fiduciárias institucionalizadas por um país. A própria pauta do armamentismo da população vai contra a lógica de Estado como detentor do “monopólio do poder de violência”, que mencionei acima.

Em suma, no que tange às coisas do Estado, hoje a esquerda quer conservar e a direita quer subverter. Parece confuso e é. Não é coincidência o fato de o Partido da Causa Operária (PCO) comungar em inúmeros pontos com as ideias do Partido Novo (Novo) e até do Partido Liberal (PL). Basta olhar as páginas dos dois partidos nas redes sociais.

Justamente por isso afirmo, com algum constrangimento: sou muito mais conservador que a maioria dos que se proclamam conservadores. Talvez por isso eles me definam como de esquerda. Talvez, quem sabe.

(*) Giorgio Forgiarini é advogado militante, com curso de Direito pela Universidade Franciscana, é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Ele escreve nas madrugadas de sábado.

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21 Comentários

  1. Resumo da opera. Vermelhos gostam da tal ‘provocação’. Coisa antiga e infantil. Mas não adianta dizer para uma ovelha ‘vai e voa!, ela não vai decolar.

  2. ‘Talvez por isso eles me definam como de esquerda.’ Definem como um monte de coisa. Só não dá para falar/escrever porque dá processo. Alas, depois do puxasaquismo, da babação de ovo e do chauvinismo local, falar mal dos outros pelas costas é o esporte mais praticado na aldeia.

  3. ‘[…] com algum constrangimento: sou muito mais conservador que a maioria dos que se proclamam conservadores.’ Se o autor disse que agora é a Wilza Carla problema do proprio. Outros não tem nada a ver com isto.

  4. PCO é trotskista. Partido também teve contas nas redes sociais bloqueadas pelo STF. Há boatos que o tribunal deseja cassar o partido. Novo é ‘novo tucanato’, se precisar abraçar o capeta para se eleger eles abraçam. Alas, ‘Novo’ só no nome. Por aqui são iguais ao que tem de mais antigo na politica.

  5. ‘ Basta olhar as páginas dos dois partidos nas redes sociais.’ Tem coisa melhor para gastar o tempo.

  6. ‘Em suma, no que tange às coisas do Estado, hoje a esquerda quer conservar e a direita quer subverter. É só ver quem está no poder.

  7. ‘A própria pauta do armamentismo da população vai contra a lógica de Estado […]’. É só sair na rua nas grandes cidades e perguntar para as pessoas se estão satisfeitas com a segurança proporcionada pelo Estado. Ou com o ‘coitadismo penal’. Vermelhos são contra o ‘punitivismo’, a favor do abolicionismo penal e do coitadismo penal. Para eles bandido bom é bandido solto.

  8. ‘ É notável, inclusive, o entusiasmo de grande parte da direita com as criptomoedas, […]’. Anarco-capitalisas não são propriamente ‘direita’. Truquezinho velho do ‘joga tudo no mesmo balaio’.

  9. ‘Hoje a direita repele tudo o que diz respeito ao Estado ou a suas instituições: universidades públicas, campanhas de vacinação, serviços públicos, decisões judiciais, regulamentos e restrições sanitárias, nada que venha de ente público presta.’ Brasil. Tudo é meia boca e marketado como ‘melhor do mundo’. Um horror de impostos com muito pouco retorno, ineficiência. Pior que em muito lugar privatiza-se e não melhora muito. Cultural. Uma pangarezada.

  10. ‘[…] se abraçou no liberalismo, principalmente depois dos anos 1980. Privatização passou a ser sua bandeira, burocracia virou sinônimo de doença e o Estado se tornou o causador de todos os males da humanidade, o inimigo a ser combatido.’ Baboseira de ‘neo-liberalismo’ dos vermelhos. Reagan que sucedeu o governo fraco de Carter e Thatcher que pegou a economia britanica em frangalhos, cortesia dos trabalhistas.

  11. ‘Surge aí a lógica do “Estado de Bem Estar Social” […] e é mais ou menos isso o que vem fazendo a China até hoje, respeitadas peculiaridades muito próprias.’ China é uma ditadura do Partido Comunista Chines. Alia capitalismo de Estado (que é ‘sócio’ de quase tudo) com confuncionismo. Há que separar a propaganda onde ‘tudo é lindo e maravilhoso’, as grandes cidades que servem de ‘laranja de amostra’ do dia a dia da população. Vigilância aburda com uso de tecnologia, sistema de ‘credito social’ (um escore social que classifica cidadãos conforme comportamento e ‘confiabilidade’). Sem falar em aspectos culturais, chineses culturalmente não acreditam em propriedade intelectual. Um dos pilares do capitalismo atual.

  12. Bismarck sofreu oposição dos social-democratas. Eram adversários mais fortes. O partido existe até hoje.

  13. ‘[…] a própria esquerda se acostumou com a lógica de um Estado grande, pujante, quase onipresente, com o objetivo justamente de domar o ímpeto do capital privado.’ Na URSS havia clientelismo, mercado negro, corrupção, prostituição, etc. Seres humanos são muito bons em se adaptar. Vide Argentina, Venezuela, Cuba.

  14. ‘[…] o Estado é fundamental para estabelecer uma unidade monetária (moeda) que possa servir de parâmetro para o comércio, bem como para impedir que um indivíduo passe a perna no outro.’ Estado não evita que um individuo passe a perna no outro. Ele tenta, sem muito sucesso no Brasil, punir quem o faz. Como diz o ditado ‘todo dia saem um malandro e um otário na rua; caso se encontrem acontece negocio’. Alas, hoje nem precisa sair na rua. Alas, vide roubalheira no INSS. Gente dentro do Estado passando a perna nos aposentados.

  15. ‘ “detentor do monopólio do poder de violência”, com o objetivo justamente de garantir o cumprimento dos contratos. ‘ Arbitragem funciona e muito bem noutros paises.

  16. ‘[…] extinção das fronteiras, dos governos e dos órgãos de opressão, enfim, da figura do Estado em si.’ Há que separar Marx de Engels. Utopia que causou muitas mortes.

  17. ‘Ao proclamar “trabalhadores do mundo, uni-vos”. Proletarios, não trabalhadores. Os que vendem a força de trabalho por não possuirem meios de produção. Datado obviamente. Vide aplicativos tipo Uber. Criatura poderia ser simplesmente um ‘ilegal’, um ‘taxi executivo’, como existe na cidade. Mas adere a uma empresa maior. Que não possui os veiculos, só a facilidade via celular, uma certa garantia de qualidade e preço.

  18. ‘[…] chama a atenção que desde algum tempo os papéis parecem ter se invertido. Muitos dos que se proclamam “de esquerda” tendem a defender com muito mais ênfase a conservação de instituições estatais, ao passo em que grande parte da direita advoga a ruptura, o desmantelamento do Estado e de instituições até então reinantes.’ Inversão nenhuma. Guerra Fria. Alende e Fidel. Quem derrubou um e tentou derrubar outro? Questão toda é quem está no poder.

  19. ‘ Estou me referindo a Nicolau de Maquiavel, John Locke e Thomas Hobbes, por exemplo.’. Fora de contexto. Maquiavel viveu numa epoca onde o direito divino dos reis começava a fazer agua, buscava-se outras maneiras de legitimação do poder. Hobbes testemunhou os horrores da Guerra Civil Inglesa.

  20. ‘A própria ideia de “Estado” já foi defendida pela direita ou por pensadores anteriores à dicotomia entre direita e esquerda, mas que basearam muitos dos discursos direitistas.’ Mula sem cabeça teorica. Noção de Estado é muito anterior a dicotomia direita-esquerda. Marx tinha uma teoria de Estado (pre-capitalista, capitalista e pos-capitalista). Cidades-Estado na antiga Grecia (Republica de Platão), Berlim, Hamburgo e Bremen na atual Alemanha. Alas, os anarquistas (a esquerda e direita) são os patinhos feios da historia. Na Guerra Civil espanhola Stalin mandou passar o rodo neles e outros mais. Uma guerra civil dentro de uma guerra civil.

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