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É O KIKITO. “Quando a gente menina cresce”, muita coisa cresce junto – por Marilice Daronco

De dentro do filme que arrebatou corações e mentes e fez história em Gramado

Dois “Kikitos”, menções honrosas para as protagonistas e SM fazendo história no Festival de Gramado (Foto Cleiton Thiele/Divulgação)

Na segunda-feira passada, cheguei ao 53º Festival de Cinema de Gramado com uma mala, uma mochila e um sonho. Um sonho antigo e teimoso de ver uma história da nossa cidade ganhar corpo e tela concorrendo junto a outros longas-metragens em um dos maiores festivais do Brasil. E assim foi. Chegamos com um filme potente, sensível e com uma dose daquela teimosia que quem faz audiovisual no Brasil precisa ter. Longe da capital? A dose precisa ser multiplicada.

Um dia depois, na data marcada para a estreia de “Quando a gente menina cresce” na competição de longas gaúchos, um ônibus lotado de santa-marienses e expectativas chegou ao Palácio dos Festivais. Isso é muito bonito e cai bem nas imagens da mídia, mas não pense que é fácil de realizar.

Mas aquela era mais que uma delegação, era uma comunidade em movimento, a comunidade da Escola Municipal de Ensino Fundamental Sérgio Lopes. Na tela da sala principal do festival estavam Alana Matias, Ana Julia Freitas, Emilly Quevedo, Isadora de Freitas, Taiane da Rosa e Thaila Matias. Ouvi de uma mãe que sua filha tinha conseguido levar a família para Gramado. Sim, muitas das famílias que estavam ali nunca tinham saído da Renascença por motivos que vão muito além da questão geográfica.

Para que isso fosse possível, ao longo de todo o ano escolar de 2023, acompanhamos a transição entre infância e adolescência dessas seis meninas, de olho em como elas viviam a expectativa da primeira menstruação, os medos, os desejos e a necessidade de informação diante de tantas mudanças. Foi um tempo de encontro, daqueles que só aparece quando a espontaneidade da vida se encontra com a potência do cinema.

 “Quando a Gente Menina Cresce”, dirigido por Neli Mombelli, com roteiro dela, meu e de Inês Figueiró reúne uma equipe de profissionais, a maioria mulheres, com a característica especial de acreditar na potência do trabalho coletivo, característica marcante da TV OVO. Para além da técnica, foi necessária uma construção a muitas mãos e corações que contou com o apoio da direção da escola, professores, estagiários e profissionais da saúde e, principalmente, das meninas que são protagonistas.

A naturalidade com a qual as garotas dialogam com a câmera e sabem de cor e salteado a capacidade dos microfones, que acabaram conquistaram sorrisos e suspiros na sala de projeção, não é obra do acaso. O filme foi um processo, antes de qualquer outra coisa, de escuta e confiança. Isso só foi possível ao criar laços entre a equipe, as meninas e suas famílias. Nesse caminho, houve reuniões, visitas, oficinas de audiovisual para que as turmas conhecessem como tudo funciona, desde a câmera até a captação dos diferentes tipos de microfones. E também houve muita entrega das meninas.

Ver as seis garotas de uma periferia de Santa Maria ocuparem um dos espaços mais cobiçados do cinema brasileiro já era o nosso maior prêmio. Com elas lá, no centro do palco e da mídia, mais ainda. Elas deram entrevistas, assinaram autógrafos, participaram de debates. Elas se (re) descobriram também. Olhar para Alana, Ana Julia, Emilly, Isadora, Taiane e Thaila de microfone na mão deu um quentinho no coração. E ver os meninos da escola dispostos a dialogar sobre menstruação é poder acreditar em um futuro com mais respeito pelas pessoas que menstruam. São novos olhares que se abrem para a vida. E esse talvez seja o grande troféu: abrir novas portas para o mundo.

Durante a semana, recebemos uma acolhida bonita, especialmente de outros realizadores e de profissionais de veículos especializados. Conversamos, trocamos, aprendemos. Isso porque o festival não é só o cobiçado tapete vermelho, aliás, na maior parte do tempo, o coração do cinema pulsa longe dele.

Ao todo, no festival, foram sete longas nacionais de ficção, três documentários, cinco filmes do Rio Grande do Sul, 12 curtas, um episódio de série e até quatro curtas feitos por inteligência artificial. É quase impossível ver tudo. Mas é justamente nesse quase que o cinema respira, que se tem inspiração e se areja a cabeça para novas ideias, novos projetos, novas parcerias.

Sexta-feira foi o dia da premiação. A nossa combinação com a Neli era chegarmos sem expectativa para não haver frustração (bem como prega a Emilly no vídeo do Marcelo Canellas no Instagram dele, se não viram, vejam que vale a pena). Obviamente cada um de nós intimamente descumpria o acordo e alimentava borboletas no estômago esperando que não saíssemos de lá sem trazer uma estatueta para a cidade. Quando a maior parte da cerimônia já tinha se passado e estávamos de mãos vazias, esse desejo parecia cada vez mais distante. Quatro filmes já premiados e o único sem gosto de Kikito era o nosso.

Quando o primeiro prêmio veio, o Kikito de Júri Popular, ficamos anestesiados. Não temos a menor dúvida de que ele é o resultado de uma mobilização intensa de muitas pessoas que ousaram sonhar junto com a gente.

O segundo prêmio foi uma Menção Honrosa para o elenco feminino. Fiz questão de registra o Kikito ao lado dos seis envelopes que chegarão às mãos das meninas e que certamente vão causar as reações que a gente ama ver e que Santa Maria vai entender quando puder assistir ao filme. O que parecia impossível tinha virado história. Para a nossa surpresa veio o terceiro prêmio, o de melhor longa gaúcho, o maior prêmio da noite.

Três prêmios. E uma cidade inteira dentro deles.

Fazer documentário no Brasil é um ato de resistência. Não é fácil produzir quando faltam recursos, apoio e políticas públicas consistentes que nos ajudem a formar público. Nem tudo são flores nem mesmo em Gramado. O festival ainda precisa reconhecer, por exemplo, o óbvio: que filmes produzidos no Rio Grande do Sul também são brasileiros, e que merecem estar lado a lado na competição nacional. O que temos aqui não é sobra: é potência.

Sobre o longa, a nossa luta para ser compreendida não pode parar na camada superficial, ela é por dignidade menstrual, por adolescer com segurança, saúde, educação, apoio social e psicológico. Por lazer, cultura e oportunidades. Por mais escolas como a Sérgio Lopes. O Kikito é símbolo, mas o que importa é a vida que pulsa muito além da estatueta.

Santa Maria sabe disso. Há quase três décadas, a TV OVO tece narrativas coletivas, constrói histórias comunitárias, insiste no cinema como ferramenta de transformação. Esse Kikito também é filho de uma tradição que vem sendo alimentada todos os dias, com suor e persistência por todos os realizadores teimosos que lutam pelo audiovisual aqui, há muito tempo.

Santa Maria fez história em Gramado. Mas não podemos parar aqui. Precisamos de apoio para continuar. Apoio, por exemplo, para que o Santa Maria Vídeo e Cinema, que resiste, tenha mais espaço. Apoio para que novos filmes, ficções e documentários, encontrem caminhos.

Celebrar é preciso. Mas também é importante garantir que o cinema que nasce de sonhos teimosos não seja exceção. Na sexta-feira, quando as borboletas no estômago alçaram voo e os flashes se voltaram para nós, entendi que quem saiu bem na foto de verdade foi Santa Maria e isso traz também o peso não cabe nos ombros de uma só pessoa ou de uma só equipe, o de dar continuidade. O sonho do audiovisual nessa cidade é coletivo há muito tempo. E um sonho coletivo não se carrega: ele se compartilha, se multiplica, até se tornar impossível de conter. Se alguém duvidava do audiovisual do interior do estado, está registrado: ele pulsa! E agora? Como vamos cuidar do que está pela frente? É preciso planejamento e apoio para que a cidade que já é tradição no audiovisual possa ser também futuro.

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