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Trump e o ensaio do fim da hegemonia norte-americana – por José Renato Ferraz da Silveira e Laryssa Cavalheiro

“Talvez se trate da última tentativa dos EUA de preservar seu protagonismo”

Na história dos Estados Unidos, dois presidentes se destacaram por exercerem poderes verdadeiramente imperiais: Abraham Lincoln e Franklin Delano Roosevelt. Ambos, contudo, conduziram o país em contextos extraordinários e de guerra, circunstâncias que, por si só, favoreceram a expansão do poder executivo.

A chegada de Abraham Lincoln à Presidência em 1860 representou o ponto de ruptura de uma tensão que vinha se acumulando ao longo da década de 1850. Sendo responsável pela reunificação dos Estados Unidos, ainda que às custas de quatro anos de guerra civil. Contrário à expansão da escravidão para os novos territórios, Lincoln tornou-se o principal símbolo de resistência à agenda dos estados do Sul, mesmo sem defender, naquele momento, a abolição imediata da instituição escravista. Sua eleição foi interpretada pelos confederados como uma ameaça existencial e desencadeou o processo de secessão que levaria à Guerra Civil.

A partir desse momento, Lincoln exerceu poderes excepcionais: mobilizou o exército, impôs bloqueios e recorreu a medidas extraordinárias para preservar a União. Com o prolongamento do conflito, percebeu que a escravidão era o principal pilar da resistência sulista e, em 1863, decretou a Lei de Emancipação. Nesse sentido, a vitória do Norte e a reunificação do país não apenas redefiniram os contornos da democracia norte-americana, como impactaram profundamente o restante do continente.

No caso de Roosevelt, os doze anos na Casa Branca o consolidaram como um excepcional estrategista político. Logo nos primeiros cem dias de governo, promoveu uma avalanche de medidas destinadas a combater os efeitos devastadores da Grande Depressão.

Para Jonathan Fenby, Roosevelt era “manipulador e visionário, jogava com a opinião pública como o pescador que joga iscas para levar o peixe para a rede. Assegurava o equilíbrio das coalizões de grupos de interesse e assumia pessoalmente o crédito por tudo que beneficiava seu governo, sempre pesando as implicações”.

Além disso, relatos de indivíduos que trabalharam com Roosevelt descrevem seu caráter como “contraditório no mais alto grau”. A própria Eleanor Roosevelt, esposa do presidente, observava que quando o presidente dizia “sim, sim”, isso não significava concordância, apenas que havia escutado o interlocutor. Na mesma linha, o vice-presidente Harry Truman afirmou que ele era “o homem mais frio que já conheci. Tanto quanto pude observar, não dava a mínima para mim, para você ou para quem quer fosse no mundo”.

Apesar dessas contradições e incoerências, Franklin Delano Roosevelt é amplamente reconhecido como um dos maiores presidentes da história norte-americana. Liderou o país durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, dois dos momentos mais críticos do século XX, implementando o New Deal e desempenhando papel decisivo na vitória das potências aliadas. Convencido de que os Estados Unidos emergiriam vencedores, aceitou a ideia de que o poder global implicava responsabilidade global: quanto maior o primeiro, maior a segunda.

Nessa perspectiva, o mundo redesenhado por Roosevelt (e, posteriormente, por Truman), em parceria com Churchill e Stalin, já não existe mais. Os antigos equilíbrios foram definitivamente rompidos quando duas superpotências bem distintas, com filosofias rivais, passaram a dominar o cenário internacional, enquanto a Inglaterra iniciava seu declínio no ocaso dos impérios europeus. Após o fim da Guerra Fria e o advento da chamada era do Terror, assistimos, atualmente, ao surgimento de uma nova configuração nas Relações Internacionais.

Talvez se trate da última e desesperada tentativa dos Estados Unidos de preservar seu protagonismo entre as Grandes Potências. Há sinais evidentes de declínio. Donald Trump personifica o “imperador bufão”, histriônico e trágico, uma das diversas manifestações clássicas da decadência de um império. Atualmente, não sabemos (ou apenas podemos imaginar) como os livros de História retratarão o legado de Trump. Dificilmente, porém, ele figurará no panteão dos grandes presidentes estadunidenses.

Mesmo em “tempos de paz”, Trump exerce poderes de natureza imperial. Uma lição que parece ter trazido do primeiro mandato, e da derrota que o impediu de alcançar o segundo, é a de que ele não permite que nada o detenha.  Repetidamente, invade esferas de competência do Poder Judiciário, agride autonomias estaduais e municipais, insulta prefeitos e governadores e, em várias ocasiões, recorre às tropas das forças regulares para intervenções domésticas.

Ademais, demite funcionários públicos por divulgarem dados desfavoráveis, mesmo que confiáveis, e promove ataques e desmantela as autonomias universitárias. Imigrantes foram colocados em situação de medo permanente, perseguidos pelas ruas do país. Autoridades do Federal Reserve são abertamente confrontadas, e lideranças do Legislativo, inclusive do seu próprio partido, são sistematicamente intimidadas. Mais recentemente, voltou-se até mesmo contra os sem-teto da capital americana, em clara tentativa de desmoralizar a autoridade da prefeita de Washington, Muriel Bowser.

No âmbito internacional, Trump instituiu uma política externa pautada pela intimidação e pelo “bullying global”. Nesse sentido, as tarifas comerciais tornaram-se instrumento central dessa estratégia. Argumentações racionais – inclusive as consagradas pela ciência econômica do mainstream – foram simplesmente ignoradas e atropeladas. As decisões baseiam-se muito mais no instinto e no senso comum do que em avaliações técnicas. Trata-se de um estilo errático, marcado por um amadorismo sinuoso, salpicado de lampejos superficiais.

Diante disso, o mundo reagiu com surpresa, perplexidade e insegurança. A personalidade instável do presidente e a agressividade renovada do imperialismo norte-americano alimentam um clima de incerteza que hoje paira sobre o sistema internacional. Essa conjuntura coloca em xeque parâmetros fundamentais da ordem liberal construída no pós-Segunda Guerra Mundial. A imprevisibilidade das decisões norte-americanas gera desconfiança entre parceiros tradicionais, fragiliza alianças históricas e abre espaço para que outras potências, como China e Rússia, ampliem sua influência no cenário internacional. Trata-se de um momento de transição, no qual o declínio relativo dos Estados Unidos, associado à ausência de uma potência hegemônica claramente definida, gera um ambiente de competição difusa e instabilidade permanente. Nesse contexto complexo, o futuro das Relações Internacionais parece cada vez mais indeterminado.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

Laryssa Cavalheiro é Graduanda em Relações Internacionais pela UFSM e membro do GTAP (Grupo de Teoria, Arte e Política).

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