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Uma paixão em forma de Acesso – por Leonardo da Rocha Botega

Fala, cronista: "o Inter-SM soube apaixonar uma cidade carente de uma paixão"

17 de agosto de 2025, o relógio marcava 17 horas e 4 minutos quando o arbitro Jean-Pierre Lima apitou o final dos pouco mais de noventa minutos que definiram o retorno do Esporte Clube Internacional à elite do futebol gaúcho. Gritos, abraços, sorrisos, choros, cantos e escaladas no alambrado tomaram conta do estádio Presidente Vargas, a nossa popular Baixada Melancólica. Na última década e meia, nunca um apito foi tão esperado. Quatorze longos anos chegaram ao fim!

Muita coisa aconteceu desde o fatídico 2 de abril de 2011. Um clube beirando a falência. Um rebaixamento para a Terceirona evitado, em 2016, graças a um gol do zagueiro Zanini e um pênalti do adversário que ganhou as alturas. Um ano depois, um quase acesso tendo uma das folhas de pagamentos mais baixas do campeonato. No ano seguinte, outro quase acesso. Em 2024, novamente um quase acesso, dessa vez com ar de crueldade, frustrando uma Baixada lotada.

A Divisão de Acesso de 2025 era uma incógnita! As feridas abertas misturavam esperança e desconfiança em um mesmo corpo de torcedores. Mas, como nos ensinou o grande cineasta Juan José Campanella na clássica cena do filme “O Segredo dos seus olhos”, futebol é paixão. No dia 17 de maio, aniversário de Santa Maria, “os apaixonados” estavam lá para assistir aquele 2×0 na estreia contra o Lajeadense. Entre um 17 e outro, o acesso foi ganhando forma e a Baixada ganhando gente.

O pequeno público da salvação de 2016 virou uma multidão nas decisões de 2025. O outono e o inverno ganharam a Turma do Esquenta na Rua Niederauer. A arquibancada da “reta” da Avenida Liberdade vibrou com o retorno da Bebedores da Baixada. Atrás do gol da Niederauer, a Fanáticos da Baixada, “a mais vibrante, torcida louca que não para de cantar”, seguiu a promessa do “não verás nenhum jogo do alvirrubro sem a FB”. Enquanto isso, Paulinho Sangoi seguia firme com a sua faixa da Comando Vermelho.

Os “de fé” puxaram a fila das milhares de pessoas que lotaram o estádio de apelido mais charmoso do Brasil no 1×0 contra o Veranópolis. Foram milhares de cabeças atingindo a bola junto com o lateral esquerdo Alan Bald no gol que garantiu o retorno do Internacional de Santa Maria ao lugar de onde nunca deveria ter saído. Milhares de comemorações que sufocaram a covardia do ato racista cometido por um torcedor rival (devidamente identificado e autuado como deve ser feito com todos os criminosos).

A festa foi linda! Porém, algumas ausências não puderam deixar de ser notadas. Faltou o Lucas Lima, o eterno maquinista da Fanáticos da Baixada. Faltou o jovem Bernand. Faltou o Carlos “Cabide”. Faltou o Lucas Pires. Faltou o Manovan. Faltou o presidente Luiz Claudio Mello, que sonhava reviver a grande campanha de 1982 (onde nem o Roberto Dinamite resistiu ao fervor da Baixada Melancólica). Tantas ausências, tantas melancolias contrastando com tantas presenças coletivas glorificadas nesse Acesso.

A velha máxima “futebol é coletivo” não é apenas uma simples explicação tática. É a realidade presente na arquibancada, na rua, nas excursões, nos abraços depois do gol. Em tempos onde os inimigos de tudo que é coletivo, os discípulos da elitista Margareth Tatcher, afirmam que “não existe sociedade, apenas indivíduos e suas famílias”, o futebol comunitário, como é o nosso, vem mostrar o contrário. A vida só tem sentido onde há coletivo!

A conquista do Esporte Clube Internacional foi coletiva! Do roupeiro ao presidente, do menino de um único jogo ao craque de todos os jogos, ninguém ganhou nada sozinho. Albert Camus afirmou ter encontrado no futebol uma saída para o absurdo da vida. Muitas vezes, “o absurdo da vida” só precisa da construção de uma paixão coletiva. O Inter-SM soube apaixonar uma cidade carente de uma paixão. “Sempre avante, unidos iremos” se tornou o novo hino desta paixão. Uma paixão que agora é Série A do charmoso Gauchão.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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