Eleições 2010. Lula mexe os cordões (isto é: PT e Ciro Gomes) para ser o grande eleitor
Helena Chagas é uma jornalista muito (e bem) informada. Está em Brasília, no coração do poder, de onde faz comentários para o SBT e escreve para o Jornal do Brasil. E também para o Blog dos Blogs, alojado no IG.
Foi, a Helena, uma entre os vários jornalistas convidados para um café da manhã com Luiz Inácio Lula da Silva, na quinta-feira passada. Só no final da tarde daquele dia, e nos posteriores, foi possível conhecer a impressão dos profissionais que participaram do regabofe político. E é dela, em texto originalmente publicado no JB e reproduzido no Blog, a avaliação que com, penso, mais lucidez se avaliou o que vai na telha do Presidente da República.
Ele quer administrar a própria sucessão. Não será uma tarefa fácil, constata Helena. De um lado, o PT, que não tem ainda (mas terá) um candidato. De outro, Ciro Gomes, que encaminha-se para ser o nome do chamado bloquinho (PSB e PC do B, com outros aliados). E ambos querendo, e podendo (?) ser o candidato de Lula.
Como isso vai acontecer, e a tarefa delicada a que se impôs o Presidente para influenciar no pleito que vai determinar seu sucessor, são os temas principais do texto de HC, que você lê a seguir:
A questão não é fazer sucessor, é administrar 2010
A garantia de que não disputará um terceiro mandato não foi o principal recado político do presidente Lula na conversa com jornalistas de quinta-feira, como pode parecer à primeira vista. Pelo menos em termos de conseqüências a curto e médio prazos. Mais importante foi a revelação explícita de que pretende chegar muito bem ao fim do mandato para influir na eleição de seu sucessor. Com isso, Lula pode ter riscado o fósforo e se aproximado perigosamente do paiol da sucessão de 2010 – e muito antes do que seria razoável fazer, correndo o risco de deflagrar o processo e ver o tiroteio antecipado entre pré-candidatos e partidos da base governista inviabilizar seu próprio governo.
Seria ingênuo, porém, supor ingênuo o ex-metalúrgico que se elegeu e reelegeu presidente da República. Se Lula falou em seu papel na própria sucessão, não terá sido por falar. Mais provavelmente, terá se rendido à constatação de que, depois das disputas pela presidência da Câmara e pelos ministérios, sua base parece irremediavelmente dividida entre pelo menos duas forças, que devem se traduzir em pelo menos duas candidaturas presidenciais. De um lado, o PT, que pode ter o apoio do PMDB, vem deixando claro em atos e declarações de seus dirigentes que dificilmente chega a 2010 sem candidato próprio, seja ele Marta Suplicy, Jaques Wagner, Tarso Genro ou qualquer outro. De outro, as forças do chamado “bloquinho” de esquerda, capitaneadas pelo PSB e pelo PCdoB, mas com chance de atrair outras legendas como PDT, PTB, PR e até setores da oposição. Esse grupo vai se agregando em torno do ex-ministro Ciro Gomes – que, não também por acaso, declinou os convites para retornar à Esplanada.
Lula não ignora esse cenário e sabe que terá que administrá-lo no dia-a-dia, ora puxando as rédeas de um lado, ora de outro, para manter sua sustentação política e conseguir governar bem a ponto de assumir o papel que pretende ter em 2010. É, aliás, o que tem feito nos bastidores. Segundo relatos de políticos do “bloquinho” que têm conversado com o presidente, ele fala muito em candidatura única da base, e chega a afirmar nessas conversas no Planalto que o PT pode vir a apoiar Ciro Gomes, sim. Por que não?
Bem, todo mundo que conhece um pouquinho de PT – inclusive Lula, que conhece muito – sabe por que não. Os últimos meses vêm mostrando que, mesmo depois de tudo o que passou, o partido do presidente não baixou a cabeça e mantém seu ambicioso projeto de poder, que para alguns às vezes chega a ser até mais importante do que o próprio governo. Tanto Lula quanto os aliados do “bloquinho” estão, portanto, carecas de saber que são remotas as possibilidades de que em 2010 os petistas venham a montar uma chapa com Ciro na cabeça. Assim como dificilmente o ex-ministro, com o capital político de 2002, deixará de concorrer em favor de um nome do PT. Que hoje, aliás, nem existe ainda.
Mas alimentar o sonho do candidato único do governo, ou, pelo menos, situar-se como árbitro que poderá fazer a disputa interna na base pender para um lado ou para outro passou a ser a principal arma de Lula para administrar as ambições de pré-candidatos e partidos. Ao afirmar publicamente que quer eleger o sucessor e prontificar-se a subir no palanque do companheiro candidato, dando a entender que estará forte o suficiente para ajudar a elegê-lo, a intenção do presidente não é exatamente sair vitorioso em 2010. É, sobretudo, chegar a 2010 em boa situação. Coisa que só vai acontecer se conseguir segurar ou pelo menos manter sob controle as candidaturas em seu curral.
Porque uma coisa é clara: entre o atual momento, em que o presidente ainda vive a lua-de-mel pós-eleitoral, e a hora de escolher um candidato (ou dois), estão três anos e meio em que o governo vai ter que fazer a economia crescer, distribuir mais a renda e atender aos clamores da população em relação à segurança, educação, saúde, etc. E escapar da “fadiga de material” que acometeu Fernando Henrique e não permitiu que o primeiro dos presidentes reeleitos no país fizesse seu sucessor.
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