Artigos

Na “Maratona da Segurança Alimentar”, o Brasil retoma o fôlego e avança – por Valdeci Oliveira

“Vitória iniciada em 2003, com a criação e fortalecimento de políticas sociais”

Ontem, 16 de outubro, foi celebrado o Dia Mundial da Alimentação, data vinculada à criação da FAO, braço da Organização das Nações Unidas voltado à alimentação e agricultura. Com a mesma idade da ONU, cuja certidão de nascimento registra o ano de 1945, a FAO, dentro das suas limitações e de conjunturas políticas nem sempre favoráveis, busca atuar, junto a governos e organizações, em questões que vão da produção e distribuição de comida, passando por outros pontos como armazenamento e o próprio consumo dos alimentos – incluindo o direito humano a este.

Celebrar o Dia Mundial da Alimentação é chamar a atenção a uma chaga vergonhosa e pesadamente criminosa que integra as sociedades como se fosse apenas mais um ente atuante, uma sombra a acompanhar o corpo em dia de sol.

E assim como a Maratona de Santa Maria, que no próximo domingo deverá reunir milhares de pessoas em busca por mais saúde e superação, a luta contra a insegurança alimentar também é de longa distância, onde é preciso fôlego e não ter descuidos. E assim como na também essencial atividade atlética, onde quem não estiver preparado fica no meio do caminho, no caso da garantia a uma alimentação digna o “treino” depende de um conjunto de políticas públicas transversais, que se entrelaçam, como a concessão de auxílios financeiros governamentais, a criação de postos de trabalho, reajustes reais do salário-mínimo, fortalecimento da merenda escolar e apoio à produção primária, para ficarmos nos mais básicos e visíveis.

A insegurança alimentar não deixa de fora nem mesmo algumas nações que integram o pelotão das mais desenvolvidas, como os Estados Unidos, onde o problema, que apesar de crítico não se compara a regiões da África ou Ásia, “deixou de existir”, pois o atual governo cancelou a realização anual do levantamento que a monitorava. E com a falta de dados, fica-se de mãos atadas, sem entender nem medir o tamanho do problema.

As estimativas hoje feitas por organismos internacionais sérios avaliam que aproximadamente 8,2% da população mundial enfrentaram, em algum grau, situações de fome no ano passado. Estamos falando em algo superior a 673 milhões de seres humanos, ou pouco mais de três “Brasis”, das mais variadas idades, parte considerável em grau de inação. Em comum entre eles, a pobreza, o ignorar de governos, a falta de prioridade e de investimentos, a cor da pele. Além disso, muito provavelmente há um certo grau de subdimensionamento, justamente porque as variáveis deste tipo de levantamento levam em conta as informações prestadas pelos próprios países, que não raras vezes “douram a pílula”, na esperança de que críticas sejam minimizadas.

E pior de tudo isso é que não há notícias de que faltam terras agriculturáveis no mundo nem dinheiro para ser investido. A título de exemplo, os dois últimos anos de guerra entre Rússia e Ucrânia, fora o custo humano de mais de 150 mil mortes, já enterrou mais de U$ 530 bilhões no conflito. No ano passado, a previsão mundial de investimento em armamento girou em torno de US$ 2,7 trilhões. E isso não me parece pouco.

Contrariando a premissa, não apenas por aqui, formulada por certos segmentos sociais que esbanjam poder político e econômico, de que a fome é algo inerente à vida, uma condição natural que pode ser, na melhor das hipóteses, “administrada”, o Brasil tem feito sua lição de casa e mostrado ao mundo que essa é apenas mais uma das grandes falácias difundidas por aqueles que até aceitam mudar algumas peças do sistema, desde que ele continue exatamente como está.

Com isso, o Brasil está vencendo a sua maratona rumo à segurança alimentar, uma vitória iniciada em 2003, com a criação e fortalecimento de inúmeras políticas sociais. Nessa disputa, onde mesmo os poucos metros avançados valem mais que os quilômetros de promessas por décadas nunca cumpridas, vimos seu auge em 2014, quando definitivamente saímos do Mapa da Fome da ONU. Mas retornamos a ele em 2021, justamente por conta do desmantelamento, a partir de meados de 2016, daquelas medidas já citadas. Mas a nossa persistência e teimosia, trazidas de volta com o retorno do presidente Lula ao cargo de presidente do país, fez com que novamente tirássemos da pobreza extrema cerca de 10 milhões de almas, cujo único “crime” é a própria existência, que faz pesar consciências.

Aqui no RS, com o Movimento Rio Grande Contra a Fome, que criamos em 2022 quando presidimos o Parlamento gaúcho, colocamos em prática a ideia de que todos podem e devem fazer a sua parte. Juntos com os outros poderes do estado, unimos esforços, buscamos recursos, firmamos parcerias e trouxemos a agricultura familiar para participar do processo, conseguindo assim atender a milhares de famílias, nas duas pontas, garantindo um mínimo de dignidade.

Como escreveu Lula esta semana, em artigo publicado em periódicos de vários países, e que pude comprovar nas experiências e relações com outros entes públicos através do nosso Movimento na Assembleia Legislativa, a “existência da fome é uma escolha.”

(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo