A revolução silenciosa do carro elétrico no barulhento trânsito brasileiro – por Carlos Wagner

Sem exagero. Posso dizer que fui atropelado por uma pauta. Vou contar a história. Sem correr os olhos para os lados, comecei a atravessar uma daquelas ruazinhas em que passa um carro pela manhã e outro à tarde, em um recanto de um elegante e arborizado bairro de Porto Alegre (RS). Já tinha dado alguns passos quando ouvi uma buzina. Olhei para o lado e me vi no caminho de um carro que avançava em minha direção. Apressei o passo e consegui chegar até a calçada. Por ser já um veterano repórter de 75 anos, nos últimos tempos tomei o cuidado de incluir no meu check up médico rotineiro a ida a uma clínica de audição para ver como estão os meus ouvidos. Pelo que sei, não tenho problemas auditivos. Então, por que não ouvi o som do motor do carro que se aproximava? Simples, era um carro elétrico. Ao contrário dos barulhentos veículos movidos por motores a combustão, cujo ronco pode ser percebido de longe, os carros elétricos são quase que totalmente silenciosos. O único barulho que se ouve é o som dos pneus no asfalto e do vento na lataria.
Claro, não foi a primeira vez que vi um carro elétrico. Mas foi a vez que “caiu a ficha”: eu estava diante de uma tecnologia está mudando a nossa maneira de viver. Sou um velho repórter estradeiro, 40 e tantos rondando pelos sertões do Brasil em busca de histórias para contar. Na minha adolescência, nas décadas de 60 e 70, o nosso interesse era por motores enormes, barulhentos, potentes e beberões de combustível. Vivi o auge da produção dos roteiristas de Hollywood de filmes sobre velocidade, estradas e motores. Lembro-me que, nos anos 90, a minha geração também viveu uma experiência muito interessante, que foi a chegada dos computadores. Nas redações dos jornais, a troca das velhas máquinas de escrever pelos terminais foi esquisita. De uma hora para outra, desapareceu o matraquear ruidoso dos teclados, deixando atrás de si um silêncio estranho. Os colegas repórteres que não se deram conta de que os terminais não eram simples substitutos das máquinas de escrever, mas um portal que se abria e nos ligaria a um mundo que estava nascendo com a internet, tiveram sérios problemas. Muitas garrafas foram esvaziadas nas mesas dos botecos em debates intermináveis sobre a chegada da “tal da internet” às redações. Entre os repórteres, a nossa maior preocupação era que o editor poderia cortar as matérias sem deixar pistas. Bom. Voltando a nossa conversa sobre os carros elétricos e fazendo uma contextualização, como manda o manual do bom jornalismo. Os números disponíveis sobre a quantidade de carros elétricos e híbridos (eletricidade e combustível) circulando no mundo não são confiáveis devido a acelerada velocidade com que surgem novas fábricas. Depois do meu quase atropelamento, sai por Porto Alegre a conversar com as pessoas sobre o carro elétrico. Falei com muita gente e descobri que não fui o único a atravessar uma rua na frente de um carro elétrico por não o ter escutado se aproximando. Um senhor, na fila do caixa de um supermercado, me contou que seu vizinho de apartamento tinha comprado um veículo elétrico e que saía da garagem do edifício buzinando para alertar as pessoas da sua presença.
Nunca tinha entrado em um carro elétrico. Chamei um pelo aplicativo. Senti-me como um dinossauro dentro de uma espaçonave. E contei a minha história do quase atropelamento para o motorista, homem de meia-idade que trabalha há mais de cinco anos com aplicativo. Ele comentou o seguinte: “Estou com este carro há meio ano. E a primeira coisa que percebi foi que as pessoas não ouvem quando o carro se aproxima e atravessavam na frente. Daí comecei a ficar ainda mais atento aos movimentos dos pedestres”. Acrescentou que também precisou se acostumar com o silêncio dentro do carro quando o rádio está desligado. Estive em revendas de carros elétricos e conversei com os vendedores. Ouvi deles que os compradores são orientados sobre as particularidades do veículo. O fato é o seguinte. A tecnologia do carro elétrico é tão antiga, ou mais, que a dos veículos a combustão. Começo a explicar com um conhecimento que está disponível na internet. Em 1899, o primeiro carro elétrico ultrapassou os 100 km/h, em Paris, França. Em 1900, 28% dos veículos produzidos nos Estados Unidos eram elétricos. A decadência dos elétricos aconteceu quando Henry Ford (1863 – 1947) inventou a linha de montagem e derrubou os custos da fabricação dos carros a combustão. Nos dias atuais, o carro elétrico ressuscitou em um ambiente totalmente diferente do final do século 19. Reapareceu como uma das soluções para diminuir a emissão de gases do efeito estufa que está colocando em risco o mundo como o conhecemos. Como mostram os documentos gerados nos debates que aconteceram na 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30), em novembro, em Belém (PA), no meio da Floresta Amazônica. Na ocasião, publiquei o post A imprensa e a trajetória das pautas ambientais nas redações. Por tudo que tenho lido sobre o futuro dos carros, ônibus e outros veículos elétricos, eles devem se tornar maioria nas grandes cidades. O que podemos notar na cobertura da imprensa sobre o assunto é que temos focado as nossas matérias mais na questão da tecnologia e dos custos. Defendo que é necessário os jornais prestarem mais atenção às mudanças de comportamento que esses veículos exigem dos moradores das cidades.
Não vou terminar a nossa conversa sem explicar para os leitores que não são jornalistas o que é uma pauta nas redações dos jornais. Trata-se de um roteiro para orientar o repórter sobre as perguntas que ele deverá responder na matéria que irá produzir (textos, vídeos, fotos) sobre o assunto que vai cobrir. A maioria das pautas resulta do próprio noticiário do dia. Mas muitas vezes o repórter tropeça em uma pauta caminhando pela rua. Geralmente, essas são as melhores. Foi o que me aconteceu com a história de atravessar a rua na frente de um carro elétrico. A minha opção de falar sobre o assunto não foi a de discutir se é necessário pendurar um sino nos veículos elétricos para que sejam notados pelos pedestres. O silêncio do carro elétrico é um avanço tecnológico. Não um defeito.
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(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.
SOBRE O AUTOR: Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 75 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.





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