A Universidade Pública entregue aos Tubarões? – por Amarildo Luiz Trevisan
“Nenhum regime, por mais autoritário e vigilante..., consegue controlar tudo”

Tenho lido muitas críticas e resenhas sobre o filme O Agente Secreto, do diretor Kleber Mendonça, estrelado pelo grande ator Wagner Moura no papel de Marcelo e pela fantástica atriz potiguar Tânia Maria como Dona Sebastiana, entre outros atores e atrizes competentes.
É interessante como cada um analisa sob o seu prisma, geralmente ligado à crítica da ditadura militar brasileira nos anos de chumbo, ou seja, no período áureo que foi durante o governo de Ernesto Geisel. No entanto, queria propor um outro olhar, mais ligado à minha área de conhecimento: a universidade. Embora essa não é só uma história de universidade, ela mistura também uma atmosfera de crítica política, sátira social com um toque de sobrenatural.
Então, o que uma perna encontrada na barriga de um tubarão pode ter a ver com o desmonte da universidade pública brasileira?
A trama do filme acompanha Marcelo (Wagner Moura), professor que volta do pós-doutorado para assumir um departamento vibrante de uma universidade pública em Recife, cheio de pesquisas e projetos com a sociedade. Ao mesmo tempo, a cidade vive o clima ambíguo dos anos da ditadura, com carnaval nas ruas e medo nas sombras. E, em meio a tudo isso, surge a tal perna humana, resgatada do tubarão, jogada ao mar, roubada, salva por capivaras e reaparecida num gramado, onde passa a assombrar amantes na calada da noite.
O departamento de Marcelo é o retrato do que a universidade pública pode ser quando recebe algum apoio. Pesquisas sobre carros elétricos, desenvolvimento de patentes, diálogo com empresas e com a comunidade. Nada de torre de marfim. O conhecimento aparece ligado ao cotidiano, à indústria, à cidade. Ali se vê, em poucos minutos de filme, o investimento de anos de estudo, de formação e de trabalho coletivo.
É justamente nesse cenário que entra o empresário ligado à Eletrobras. Ele visita o departamento, escuta as apresentações, examina relatórios, elogia de maneira polida. Em seguida, toma a decisão que dá o tom da crítica do filme. Declara que aquelas pesquisas não são necessárias, porque já existiriam projetos semelhantes no Rio de Janeiro ou em outros países, como o Canadá, no caso dos carros elétricos. O argumento parece racional, porém esconde uma escolha política. Em vez de fortalecer polos diversos, concentra recursos e prestígio em poucos centros. O resto pode ser, simbolicamente, lançado ao mar literalmente para ser devorado pelos tubarões.
E é nesse momento que a perna ganha força como metáfora. Ela foi arrancada de um corpo, descartada no oceano, engolida por um tubarão, e, ainda assim, insiste em voltar. Salva pelas capivaras, reaparece no gramado de uma praça, em plena semana de carnaval. Ali, assume vida própria, atravessa a noite, assusta casais, estraga encontros românticos.
A perna é o pedaço que o sistema tentou amputar, mas que retorna como fantasma. Do mesmo modo, a universidade pública fora dos grandes centros é tratada muitas vezes como membro excedente. Cortada nos orçamentos, engolida por burocracias, jogada aos discursos de desqualificação. No entanto, insiste em reaparecer na memória social.
O contraste entre ditadura e carnaval reforça essa leitura. De um lado, o Brasil vivia um regime de exceção duro, com vigilância, censura, repressão. De outro, as ruas de Recife se enchiam de pessoas fantasiadas, blocos, frevo, alegria coletiva. Realidade e fantasia conviviam, mundo oficial e mundo paralelo se tocavam.
Assim também funciona a universidade em tempos de desmonte. Nos documentos oficiais, ajustes, contingenciamentos, reorganizações. No cotidiano, professores e estudantes seguem orientando, pesquisando, inventando. Vivem entre o medo e a resistência, entre o corte e a teimosia.
Talvez Marx ajudasse a explicar esse processo de centralização de recursos, esse mecanismo de concentrar financiamento em poucos espaços enquanto o restante do mapa vai sendo, discretamente, transformado em mar aberto, cheio de destroços. Ele falaria da lógica do capital, da forma como as políticas de ciência e tecnologia se ajustam à engrenagem econômica, produzindo assimetrias regionais cada vez mais profundas.
Nenhum regime, por mais autoritário e vigilante que seja, consegue controlar tudo. Sempre resta uma fresta para o inesperado, o acaso, o que escapa à ordem planejada. É nesse intervalo que a perna cabeluda se transforma em marchinha de carnaval e passa a assombrar um regime de exceção, porque o fantasma, como lembrava Derrida, habita justamente as lacunas da escritura, aquilo que o poder não consegue nomear nem apagar.
Trata-se de uma presença ausente, de um não ser que insiste em se inscrever no ser, como o espírito hegeliano que retorna, atravessa o tempo histórico e reintroduz o sentido pelo lado do incômodo, do desajuste, do caos que rasga a superfície da ordem. Talvez, nesse dia, o verdadeiro fantasma não seja a perna que corre pelo gramado. Seja a consciência de que um país que desmonta sua universidade pública está, pouco a pouco, serrando as próprias pernas.
Podemos reconhecer, com justiça, que nas últimas décadas houve uma expansão significativa do ensino superior no Brasil, com a criação de novas universidades, institutos federais e campi no interior do país. Mesmo assim, os dados ainda pedem cautela e reflexão. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2023, cerca de 21,6% dos jovens entre 18 e 24 anos frequentam a universidade. Isso significa aproximadamente 1 em cada 5 jovens nessa faixa etária, um número que permanece distante da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação.
Nesse cenário, talvez o mais inquietante do filme esteja menos na denúncia direta e mais na pergunta silenciosa que ele sugere. O Agente Secreto não fala apenas de um passado de ditadura, sugere também um modo de organizar o país que ainda persiste, quando saberes e recursos se concentram em alguns poucos lugares enquanto outros seguem em esforço de afirmação.
A perna cabeluda, que à primeira vista parece só uma figura de horror e folclore, pode então ser lida como lembrete importante. Ela indica que qualquer tentativa de redução da universidade pública precisa ser discutida à luz desses desafios de expansão e inclusão, com serenidade, transparência e participação social, e compreendida como ocasião para reivindicar mais investimento e fortalecimento institucional, e não como algo simplesmente naturalizado ou inevitável.
Em tempos em que ciência e tecnologia se transformaram em força de produção acelerada, a universidade, quando não se rende, torna-se essa perna estranha que insiste em se mexer. Assusta quem deseja ordem sem pensamento; incomoda quem sonha com um país que apenas consome ideias alheias, sem risco, sem criação própria. Para o resto de nós, que ainda acreditamos no ato de ensinar e aprender, ela permanece como um lembrete teimoso, quase um membro fantasma que atravessa a história e, a cada passo, repete em voz baixa: ainda estou aqui.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. Universidades estão tendo um encontro com o avanço tecnologico. Inteligencia Artificial. O próximo encontro historico sera a curva demografica. Excesso de vagas e falta de alunos. Que já existe. Sem falar na irrelevancia. O sistema fordiano, a linha de montagem do ensino é anacronica. Gostem ou não.
‘[…] incomoda quem sonha com um país que apenas consome ideias alheias, sem risco, sem criação própria.’ O autor citou Marx, Hegel e Derrida. Apelo a autoridade. Pessoal de humanas não vive sem isto.
‘[…] um número que permanece distante da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação.’ Sociedade é um organismo vivo. Além disto sofre impacto do avanço tecnologico. Não tem nada a ver com metas estabelecidas por burocratas baseados em teorias do século passado. Alas, a imprensa bombardeia a população com um ‘estão faltando técnicos’, ‘estão faltando engenheiros’, ‘estão faltando medicos’ e os imbecis de plantão engolem com anzol e tudo e ficam repetindo sem saber o que na realidade acontece. Receita Federal está cheia de engenheiros. Tem até alguns médicos. Nas grandes cidades onde a população vem se concentrando há medicos sobrando (atendimento é outra coisa). Advogados é dar um coice na macega. Tecnicos muitas vezes ocupam o lugar de uma pessoa com nivel superior e saem bem mais barato.
‘[…] nas últimas décadas houve uma expansão significativa do ensino superior no Brasil, com a criação de novas universidades, institutos federais e campi no interior do país.’ Existe um problema cultural. Excessões de praxe. Muita gente encara o curso superior como uma continuação do ensino medio. Algo para dar um certo status no final. Algo burocratico, uma formalidade, um meio para conseguir um papel que comprova que ele tem condições de ser remunerado para desempenhar uma função (vide alunos e alunas que passam raspando todo semestre). Corpo docente não tem nada a ver com isto. O que acontece depois da colação de grau não é problema deles.
‘Talvez Marx ajudasse a explicar esse processo de centralização de recursos, esse mecanismo de concentrar financiamento em poucos espaços […]” Na finada União Soviética e na China atual existiam e existem universidades de primeira, segunda e terceira linha. O nivel do corpo docente, do corpo discente e do financiamento é diferente. É só observar os rankings que a UFSM vive editando para marketar que é melhor.
‘Cortada nos orçamentos, engolida por burocracias, jogada aos discursos de desqualificação.’ Não tem argumentos, parte para a ‘vitimização’. A culpa é sempre dos outros. Universidades funcionam na mesma base de todo e qualquer serviço publico: é o que a casa tem para oferecer. Alas, reclamam da falta de recursos mas todo mundo que ocupa a reitoria tem que construir um predio para eternizar o proprio nome em bronze. Predios necessarios ou não.
‘[…] porém esconde uma escolha política. Em vez de fortalecer polos diversos, concentra recursos e prestígio em poucos centros.’ Isto é ideologia, não tem nada de racional. Um pais pobre não pode desperdiçar recursos em ‘prestigio’. Economia, necessidades ilimitadas recursos limitados. Por isto a busca por eficiencia. o
‘Declara que aquelas pesquisas não são necessárias, porque já existiriam projetos semelhantes no Rio de Janeiro ou em outros países, como o Canadá, no caso dos carros elétricos.’ Falou a verdade. Pesquisa e desenvolvimento não sai barato. O risco é grande. Alas, o primeiro carro eletrico da AL foi o Gurgel Itaipu. De 1975. Iniciativa privada. No que deu?
‘[…] O departamento de Marcelo é o retrato do que a universidade pública pode ser quando recebe algum apoio.’ Poderia. Brasil está 60 anos atrasado tecnologigamente. Não tem retorno para isto. Não adianta colocar a culpa nos milicos. Basta ver o que era a Coreia do Sul na decada de 80 e o que é agora.
‘[…] para assumir um departamento vibrante de uma universidade pública em Recife, cheio de pesquisas e projetos com a sociedade […]’. É uma obra de ficção.
Para começo de conversa. Filme é uma coprodução francesa, alemã e holandesa. Moura deve ser indicado para melhor ator no Oscar. O filme para melhor estrangeiro. Com grandes chances de ganhar. Imprensa cumpenhera vai montar o circo de sempre. Imbecis vão vir com o discurso batido ‘voces devem achar isto importante’. Vai ser assistido pelo pessoal de costume. Vai ser declarado ‘um sucesso’. Vida que segue.