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Quando a doçura se despede – por Leonardo da Rocha Botega

“Graça, Gracinha, Maninha, Dinda... Era múltipla e única ao mesmo tempo”

“Vai lá beija-flor! / Rotina de sempre / Colher néctar.” (Maria das Graças Py)

O que acontece quando a doçura se despede? Essa talvez seja uma pergunta ilógica para ser feita em um mundo onde a alegria de ser doce parece ter cada vez menos sentido. Em uma sociedade que não nos permite apreciar e sentir a beleza de um beija-flor colhendo néctar. O que nos salva é que, em meio a essa sociedade do cansaço, ainda existem pessoas que nos chamam atenção para a doçura da vida.

Maria das Graças Py era uma dessas pessoas. Graça, Gracinha, Maninha, Dinda. Muitas eram as formas como a chamavam. Era múltipla e única ao mesmo tempo. Tinha a capacidade de produzir inúmeros sentidos e significados na vida de muitas pessoas. Uma característica que somente pessoas realmente especiais conseguem. Maria das Graças era literalmente uma pessoa especial.

Professora de muitas gerações que passaram pelo glorioso Instituto de Educação Olavo Bilac. Amante das letras. Se tornou uma poeta das pequenas coisas da vida ou de seus “pequenos pensamentos” como falava. Amava profundamente a sua família. Sua irmã gêmea, Maria Rita, suas sobrinhas, Tatiana e Patrícia, seu sobrinho-neto, Júnior, sua sobrinha-bisneta, Naomi.

Não guardava esse amor apenas para a sua família. Amar para Maria das Graças era ser solidária e ter um abraço para cada pessoa que precisava. Era assim quando dedicava parte de seus dias para visitar pessoas enfermas ou pronunciar mensagens de alento na rádio ou nas rodas de oração. Foi assim, quando desde os primeiros dias, abraçou as mães, os pais e as vítimas da Tragédia da Boate Kiss.

Maria das Graças era presença constante na vigília semanal dos familiares. Não importava se com frio, calor, chuva, vento ou até mesmo cansaço. Estava lá, toda semana, rezando, conversando, consolando e fortalecendo aquelas e aqueles que aos poucos iam sendo abandonados por quem prefere a hipocrisia do esquecimento à justiça. Graça tinha a palavra certa para cada coração apertado. A esperança para cada dor.

Maria das Graças Py foi a pessoa mais doce que eu conheci. Nunca a vi brava ou expondo mágoas. Não havia lugar para o que era ruim em seu coração. Quando conversava com ela o mundo parecia ser bem melhor do que é. Se a rotina do beija-flor de sua poesia era colher o néctar, sua rotina era fazer o bem, fazer as pessoas se sentirem bem. Sua partida deixou o mundo menor e menos doce!

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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