A normalidade solta do Rosa – por Marcelo Arigony

No Rosa, o que chama atenção não é o que aparece.
É o que funciona – livre, leve e solto.
A vida segue sem sobressaltos, sem pressa e sem tensão. Não há sensação de vigilância nem de abandono. Há rotina em pé. Coisas abertas, gente circulando, acordos implícitos sendo respeitados. Uma normalidade que não pede licença – e não precisa ser explicada.
Na Praia do Rosa, o cotidiano se organiza com leveza. Não se veem viaturas em ronda ostensiva nem fiscais ocupando espaço simbólico. E, ainda assim, não há desordem. Bares funcionam. Mercados abastecidos. Farmácias abertas. Preços justos.
A ordem aqui não se anuncia.
Ela se mantém.
E a vida também se permite ser pujante. Uma popozelda cruza a praia em um biquíni que não cabe na mão – bônus silencioso das praias de surfe.
O que se percebe é uma normalidade rara. Não a normalidade empurrada por regra estatal, mas aquela que se sustenta porque há limites compartilhados. As relações são próximas. A memória social pesa. O anonimato não protege excessos. Quem exagera encontra o dia seguinte. Quem erra encontra o outro.
Não há lixeiras espalhadas pela praia.
E, ainda assim, a areia permanece limpa.
Cada pessoa leva de volta o que trouxe. Não existe a figura abstrata de “alguém” que virá depois resolver. A consequência não é delegada. É assumida.
Esse pequeno arranjo revela, sem gritar, o quanto certas narrativas ideológicas perderam contato com a vida real. Aqui, responsabilidade não é slogan – é prática cotidiana. Não há placas ensinando virtude.
O controle não sumiu; ele se diluiu no tecido social.
E, talvez por coincidência, o Rosa esteja tomado de argentinos. Estão à vontade, ocupam mesas, consomem, gastam. O fluxo diz tudo. Provavelmente porque, lá também, o peso do Estado diminuiu e a vida voltou a fechar conta. Talvez. Quem vai saber a verdade?
Enquanto isso, lá vem outra calipígia caminhando solta.

(*) Marcelo Arigony é Advogado e Professor, ex-Delegado da Polícia Civil e atual Diretor da ULBRA Santa Maria. Ele escreve no site às quartas-feiras.





Resumo da opera. E daí?
‘Aqui, responsabilidade não é slogan – é prática cotidiana. Não há placas ensinando virtude.’ E nem a plebe rude!
Não adianta, quem vive de aparencias não perde o vicio. Praia do Rosa fica em Imbituba, Santa Catarina. Onde 9% do esgoto sanitario é coletado e 1% é tratado. Onde o resto vai parar?