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Não fez mais do que a sua obrigação – por Rosito Zepenfeld Bortes

“Algumas responsabilidades não exigem aplausos; exigem compromisso”

Durante a infância, quando eu estudava no “Rufino”, na saudosa Boca do Monte, esperava com expectativa o dia da entrega do boletim. Quem cresceu algumas décadas atrás provavelmente também ouviu essa frase em algum momento. Bastava chegar em casa com boas notas ou cumprir uma tarefa doméstica para escutar dos pais: “Não fez mais do que a sua obrigação.” A expressão podia soar dura, mas carregava uma mensagem implícita: algumas responsabilidades não exigem aplausos; exigem compromisso. Cumprir aquilo que nos cabe é o ponto de partida, não a linha de chegada.

O mundo mudou, e as relações humanas mudaram junto com ele. Vivemos na era das curtidas, dos comentários e das recompensas instantâneas. Nunca foi tão fácil receber aprovação, mas talvez nunca tenhamos dependido tanto dela. Essa cultura acabou atravessando as portas das empresas. Em muitos ambientes de trabalho, surgiu a expectativa de que toda entrega, por menor que seja, venha acompanhada de reconhecimento imediato. O elogio deixou de ser consequência de um desempenho excepcional e, em alguns casos, passou a ser esperado como parte da rotina.

Isso não significa que o reconhecimento perdeu importância. Muito pelo contrário. Organizações que valorizam seus profissionais tendem a construir equipes mais engajadas, comprometidas e inovadoras. O problema surge quando confundimos reconhecimento com validação permanente. Existe uma diferença importante entre agradecer um bom trabalho e alimentar a ideia de que cumprir aquilo para o qual fomos contratados merece, obrigatoriamente, uma celebração. Quando essa expectativa se instala, pequenas frustrações passam a ser interpretadas como falta de valorização, mesmo quando não há qualquer injustiça envolvida.

Na segurança do trabalho, essa reflexão faz ainda mais sentido. Grande parte do sucesso da área consiste justamente em fazer com que nada aconteça. Um acidente evitado dificilmente vira manchete; um procedimento seguido corretamente quase nunca rende aplausos. Ainda assim, é exatamente esse comportamento disciplinado, repetido diariamente, que preserva vidas. O profissional que utiliza corretamente os equipamentos de proteção, respeita um procedimento operacional ou interrompe uma atividade insegura não está realizando um ato heroico. Está fazendo aquilo que dele se espera. E isso não diminui a importância da sua atitude; ao contrário, reforça a maturidade de uma cultura organizacional baseada na responsabilidade, e não apenas na recompensa.

Talvez o maior desafio das lideranças contemporâneas seja encontrar esse equilíbrio. Reconhecer conquistas relevantes, celebrar resultados extraordinários e demonstrar gratidão pelo esforço das equipes são atitudes essenciais. Mas também é importante fortalecer uma cultura em que o senso de dever continue tendo valor próprio. Afinal, organizações sólidas não são construídas apenas por grandes feitos, e sim pela soma de milhares de pequenas obrigações cumpridas todos os dias, mesmo quando ninguém está olhando.

No fim das contas, talvez nossos pais estivessem ensinando algo que continua atual. Fazer a própria obrigação nunca deveria ser motivo de indiferença, mas tampouco depender de aplausos para acontecer. O verdadeiro profissionalismo se revela quando a motivação para agir corretamente nasce da consciência, da ética e do compromisso com um propósito maior. O reconhecimento é bem-vindo e faz parte das boas relações de trabalho. Mas ele deve ser um incentivo para continuar fazendo o certo, e não a única razão para fazê-lo.

(*) Rosito Zepenfeld Borges é Engenheiro de Segurança do Trabalho. Ele escreve no site às segundas-feiras.

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