Carl Schmitt e a política do inimigo! – por Marionaldo Ferreira
‘Quando conhecemos a história do outro, fica mais difícil tratá-lo como inimigo’

Carl Schmitt foi um jurista e filósofo alemão que ficou conhecido por defender ideias que ajudaram a dar base ao regime nazista. Para ele, a política não nasce do diálogo nem da busca por entendimento. Ela nasce quando se decide quem é amigo e quem é inimigo.
No livro O Conceito do Político, Schmitt diz que a verdadeira política depende dessa divisão. Na visão dele, não é a negociação que move a sociedade, mas o conflito. O importante não é encontrar pontos em comum, e sim definir quem está do seu lado e quem deve ser enfrentado.
Essa forma de enxergar a política ajuda a entender não apenas o que aconteceu na Alemanha nazista, mas também muitos movimentos políticos dos dias de hoje. Boa parte da nova direita tem usado essa lógica: em vez de unir pessoas em torno de um projeto de país, prefere criar um inimigo comum.
Quando isso acontece, o diálogo perde espaço. O respeito às diferenças passa a ser visto como fraqueza. A empatia incomoda porque aproxima as pessoas. Quando conhecemos a história do outro, fica mais difícil tratá-lo como inimigo.
É por isso que, muitas vezes, vemos discursos que atacam a solidariedade, ridicularizam o cuidado com os mais vulneráveis e fazem parecer que defender direitos é um privilégio para alguns. Aos poucos, a política deixa de buscar soluções para os problemas da população e passa a viver da criação permanente de novos adversários.
Schmitt defendia exatamente isso: uma política baseada no confronto. Para ele, a força estava na decisão, não na conversa. Mas essa visão enfraquece a democracia, porque democracia pressupõe convivência entre pessoas que pensam diferente. Não exige que todos concordem, mas que todos sejam reconhecidos como parte da mesma sociedade.
A história mostra que existem outros caminhos. Grandes líderes transformaram seus países construindo pontes, e não muros. Entender quem pensa diferente, ouvir, dialogar e buscar soluções comuns não é sinal de fraqueza. É sinal de maturidade política.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente esse: não aceitar que a política seja reduzida a uma guerra entre “nós” e “eles”. Um país cresce quando consegue transformar diferenças em diálogo e conflitos em soluções. Quando a política troca o cuidado pelo ódio, todos perdem. Quando coloca as pessoas acima dos inimigos, a democracia se fortalece.
(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.





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