“Vá pro raio que o parta!” – por José Renato Ferraz da Silveira
Tem a derrota do São Paulo na Copinha. E tem ainda o Nikolas. Tudo a ver?

Foi essa a expressão que me escapou, num misto de raiva e frustração, após a derrota do meu São Paulo na final da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Uma velha expressão popular, carregada de indignação, usada quando a paciência se esgota. O fim de semana, de fato, não foi bom para nós, são-paulinos.
Horas depois, já mais calmo, descansava após o almoço quando me deparei com uma notícia inquietante vinda de Brasília. Manifestantes ficaram feridos e precisaram ser levados a hospitais públicos após serem atingidos por uma descarga elétrica provocada por um raio, na tarde de domingo (25), no Eixo Monumental. O grupo estava reunido nas proximidades do Memorial JK, sob forte chuva, aguardando a chegada de uma passeata de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O ato havia sido convocado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e fazia parte da chamada “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, uma mobilização de sete dias liderada pelo parlamentar, políticos de direita e apoiadores. O episódio do raio, trágico e simbólico, passou praticamente ao largo do discurso político que se seguiu.
Nikolas Ferreira discursou no encerramento do ato, na praça do Cruzeiro, sem mencionar os feridos. Preferiu insistir na retórica de que a manifestação teria como objetivo “trazer luz” às questões políticas que, segundo ele, motivam a mobilização, além de “reacender o engajamento popular”. A escolha da metáfora não deixa de ser irônica: enquanto pessoas eram literalmente atingidas por uma descarga elétrica, o deputado seguia mobilizando seus apoiadores por meio de uma retórica que opera em outra esfera – a da desinformação, da polarização permanente e da exploração emocional amplificada pelos algoritmos das redes sociais.
Durante o discurso, Nikolas classificou o presidente do Senado como omisso e cobrou a abertura de duas CPMIs: uma sobre o INSS e outra sobre o Banco Master. Dirigindo-se diretamente a Davi Alcolumbre (União-AP), o parlamentar buscou reforçar a narrativa de que há um sistema travado, que apenas seus seguidores seriam capazes de “acordar”.
A manifestação foi convocada sob o mote “Acorda, Brasil”. Em diversos momentos, Nikolas Ferreira afirmou que os manifestantes tinham a missão de “acordar outras pessoas”. Não poupou sequer os professores, a quem dirigiu um apelo para que também “acordassem” – numa clara tentativa de deslegitimar o pensamento crítico, o conhecimento acadêmico e a produção científica, substituindo-os por slogans fáceis e apelos morais.
Em seu primeiro mandato como deputado federal, eleito pelo Partido Liberal de Minas Gerais com quase um milhão e meio de votos, Nikolas Ferreira tem se destacado na Câmara dos Deputados por discursos inflamados, polêmicos e altamente viralizáveis. Seus projetos se concentram majoritariamente em áreas como educação, família, segurança e costumes, sempre alinhados a uma agenda conservadora de viés religioso.
Defensor declarado de pautas associadas aos chamados “princípios cristãos”, Nikolas se posiciona contra o aborto em qualquer circunstância, defende a ampliação do acesso a armas, a flexibilização de regras para posse e porte, e sustenta um discurso recorrente de ataque àquilo que chama de “ideologia” no campo educacional. Trata-se de uma atuação política que privilegia o embate cultural e moral, frequentemente dissociado de evidências empíricas e dados técnicos.
Desde o início do mandato (2023-2027), Nikolas Ferreira apresentou centenas de projetos de lei e relatou diversas propostas em tramitação na Câmara. Segundo dados do próprio portal da Câmara dos Deputados, apenas em 2023 o parlamentar foi autor de 438 proposições e relator de duas. Em 2025, participou de 292 votações nominais e realizou 57 discursos em plenário.
Em 2024, apresentou mais 261 projetos, relatou seis matérias, participou de 274 votações e discursou 31 vezes na tribuna do plenário Ulysses Guimarães. No último ano, foi responsável por 109 projetos, relatou quatro propostas, participou de 44 votações e fez 10 discursos. Os números impressionam, mas quantidade não é sinônimo de qualidade legislativa, nem de compromisso democrático.
Entre seus principais projetos, destacam-se propostas para aumentar penas por atos considerados obscenos em instituições públicas de ensino, dobrar punições para crimes cometidos em períodos de calamidade pública e facilitar a aquisição de armas e munições no país. Em outra frente, propôs alterações no Código de Defesa do Consumidor para criminalizar aumentos de preços sem justa causa em situações de emergência. No campo do aborto, foi coautor do projeto que equiparava a pena do aborto após 22 semanas ao crime de homicídio simples – uma proposta amplamente criticada por juristas, médicos e entidades de direitos humanos.
Nikolas Ferreira também presidiu a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, entre 2024 e o início de 2025. Apesar da resistência de parlamentares da esquerda, que historicamente ocupavam a comissão, Nikolas evitou pautar temas mais explosivos durante sua gestão, adotando uma estratégia de contenção institucional. Segundo o próprio deputado, nesse período foram realizadas 36 audiências públicas, deliberadas mais de 239 proposições e aprovados 34 projetos, incluindo medidas de combate à evasão escolar e ações de valorização docente.
Contudo, é nas redes sociais que Nikolas Ferreira concentra sua principal força política. No sábado (24), o deputado ultrapassou a marca de 20 milhões de seguidores no Instagram, impulsionado pela visibilidade da caminhada rumo a Brasília. Em poucos dias, saltou de 19,7 milhões para 20,2 milhões de seguidores, superando com folga lideranças políticas tradicionais, como o presidente Lula, que soma cerca de 14,3 milhões na plataforma.
Esse crescimento não é casual. Estudos da plataforma AtivaWeb indicam que Nikolas atingiu o que se denomina “domínio algorítmico” – um estágio em que o ator político deixa de depender da relevância do conteúdo ou da veracidade das informações e passa a ditar o ritmo do debate público por meio da lógica das plataformas digitais. Sua taxa de engajamento recente chegou a 8,47%, um índice raríssimo, sustentado por mensagens simplificadas, polarizadoras e emocionalmente carregadas.
É justamente aqui que reside o maior problema. O sucesso digital de Nikolas Ferreira não se baseia na construção de consensos, no diálogo democrático ou no compromisso com a verdade, mas na exploração sistemática do conflito, da desinformação e das fake news como combustível político. Ao transformar cada polêmica em audiência e cada ataque institucional em engajamento, o deputado consolida uma forma de atuação que corrói o debate público e enfraquece a democracia.
No mundo virtual, Nikolas fala exatamente o que seu público quer ouvir – não o que precisa ser discutido. O algoritmo recompensa essa prática. A democracia, não.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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