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A imprensa e os motivos por que as estatísticas de feminicídio insistem em não cair – por Carlos Wagner

“Motivos pelos quais essa cultura persiste e resiste aos avanços da legislação”

Quem alimenta a sobrevivência da cultura da violência contra a mulher? (Foto EBC)

Nas primeiras semanas do ano eu estava na fila do caixa de um supermercado em Porto Alegre (RS) quando ouvi o comentário de uma jovem que fez-me sentir ofendido como repórter. Pelas vestes que usava, era uma típica garota de classe média gaúcha, portanto, uma pessoa bem-informada. Ela comentou o seguinte com uma amiga: “Esse monte de feminicídio é porque a imprensa fica fazendo sensacionalismo dos crimes e acaba encorajando os malucos”.

Claro que, na hora, não levantei a bandeira da liberdade de imprensa nem armei uma discussão. Fiquei na minha. Aprendi na lida de repórter que é necessário levar este tipo de comentário para a redação e debatê-lo com os colegas. Fiz isso entre 1979 e 2014, tempo que trabalhei em jornal. Atualmente, levo o assunto para ser debatido em uma ampla e bem organizada rede de colegas repórteres que tenho espalhados pelo Brasil, países vizinhos e em outros cantos do mundo. Formei esta rede depois que sai da redação porque continuo rodando pelas estradas em busca de histórias para contar em livros-reportagem, palestras e outras plataformas. Vamos conversar sobre o assunto.

A imprensa não faz sensacionalismo na cobertura dos casos de feminicídio. O que acontece é que são crimes de grande violência, em que a simples divulgação da notícia causa um enorme impacto – há vários casos disponíveis na internet. Além disso, eles ocorrem com assustadora frequência. No ano passado, no Brasil, houve um recorde de agressões contra mulheres, como foi revelado no Fórum de Segurança Pública: 37,5% das brasileiras sofrerem violência, somando mais de 21 milhões de vítimas. Foi o pior ano desde 2017.

Nas conversas que tive com os colegas repórteres por conta do comentário que ouvi na fila do supermercado chegamos à conclusão que podemos melhorar a cobertura dos casos fornecendo ao leitor informações sobre os motivos que levam as estatísticas de feminicídio a insistirem em não cair, como na maioria dos outros crimes.

A questão é a seguinte. Existe um discurso de violência contra a mulher consolidado no Brasil que circula há muitos anos. Sou testemunha disso. Por motivos que vou explicar aqui, fui criado em um ambiente de muita violência contra a mulher. Nasci e vivi até os 18 anos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Rio Pardo e Encruzilhada do Sul, no Vale do Rio Pardo, no Rio Grande Sul. Onde fui testemunha de muitas surras e mortes de mulheres. Daí vem o meu interesse por este tipo de crime.

Na redação, fiz muitas matérias sobre o assunto. E desde que montei o meu blog, Histórias Mal Contadas, sempre que tenho uma oportunidade “bato na pauta”, como foi o caso do post de 4 de setembro de 2018 chamado Procurados vivos ou mortos. No post, destaco o caso da professora Cláudia Hartleben, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que desapareceu na noite de 9 de abril de 2015, num caso em que, apesar do tempo que já se passou, ainda existem “pistas quentes” que podem levar à solução. Dos centros urbanos ao mais longínquo rincão do Brasil, a cultura da violência contra as mulheres sobrevive.

Em termos de história, são recentes as leis de proteção às mulheres. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) foi um avanço na prevenção da violência doméstica. A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015), promulgada há pouco mais de uma década, tornou o crime autônomo (elementos e tipo penal próprios), com penas de 20 a 40 anos.

Um colega me lembrou que até março de 2021 era permitida a tese da “defesa da honra”, que assim pode ser traduzida: o marido que flagrasse a esposa o traindo podia “defender” a sua honra. Frequentemente, matando a mulher e não sendo punido pelo crime. A tese foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Nas décadas de 60 e 70, época da minha adolescência no interior gaúcho, os júris que envolviam crimes “contra a honra” eram muitos concorridos. O colega me alertou que a rearticulação da extrema direita ao redor do mundo deu uma importante sobrevida à cultura da violência contra a mulher no Brasil, derrubando vários avanços que as mulheres haviam conseguido em favor da sua liberdade individual. Ele citou como exemplo o primeiro mandato (2017 – 2021) do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos.

Na ocasião, foi implementada uma política antiaborto, derrubando direitos adquiridos há mais de meio século pelas mulheres – matérias na internet. No Brasil, durante o governo (2019 – 2022) do presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, a pauta de costumes, criada e divulgada pelos parlamentares governistas, atacou direitos adquiridos das mulheres, como o aborto em caso de estupro – matérias na internet. Além disso, parlamentares ligados à extrema direita têm pregado a submissão das mulheres aos seus companheiros.

Para arrematar a nossa conversa. Não estou defendendo que temos que anexar às nossas matérias sobre feminicídio uma tese histórica sobre a cultura de violência contra a mulher. Mas que devemos adicionar aos textos uma explicação dos motivos pelos quais essa cultura persiste e resiste aos avanços da legislação e das novas tecnologias da comunicação, que facilitam a circulação das informações.

Em 2026 haverá eleição para deputados (federal e estadual), senadores, governadores e presidente da República. Uma ótima oportunidade para lançar luzes nos cantos escuros da persistência da cultura de violência contra a mulher.

PARA LER NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 75 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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19 Comentários

  1. Resumo da opera IV. Alem da sinalização de virtude uma cortina de fumaça. Negócio é levar o debate para onde acham que é mais ‘vantajoso’ eleitoreiramente.

  2. Resumo da opera III. Mudanças culturais levam gerações. Contabilizam cada geração em 25 anos. As mulheres que morrerem nos proximos 50 ou 75 anos são descartaveis segundo a aposta dos Vermelhos?

  3. Resumo da opera II. Ben Affleck e Matt Damon têm uma empresa chamada Artists Equity. Audiovisual. Produzem também publicidade. Inclusive comercial para a Stella Artois no Super Bowl. Promovendo um filme novo os dois estiveram no podcast de um cara chamado Joe Rogan. Numa passagem Affleck comentou da quantidade de spots de 6 e 7 segundos que produzem. No Brasil o atraso é grande, acham que muita gente vai ficar prestando atenção em ladainhas. Problema é que para vender o peixe em poucos segundos tem que ter talento. Ou IA.

  4. Resumo da opera. Mais do que obvio que os Vermelhos desejam utilizar a causa feminina como bandeira eleitoreira. Afinal as mulheres são oprimidas pelos homens ‘machistas’, pela ‘sociedade patriarcal’ e outras asneiras. Mulheres, assim como os imigrantes ilegais em outros paises, são o ‘novo proletariado’.

  5. ‘Uma ótima oportunidade para lançar luzes nos cantos escuros da persistência da cultura de violência contra a mulher.’ Vermelhos votam em quem estão orientados a votar. Os demais não levam o assunto em conta. Tendencia é cada um cuidar dos seus interesses, quem não gostar que passe maionese e engula.

  6. ‘Não estou defendendo que temos que anexar às nossas matérias sobre feminicídio […] uma explicação dos motivos pelos quais essa cultura persiste […]’. Podem anexar o que quiserem, existem alternativas hoje em dia, a encheção de saco começa e o Youtube, redes sociais e streaming estão ai para isto mesmo. Quem quiser falar para as paredes pode. Quem gosta de sermão vai na Missa ou no Culto.

  7. ‘Na ocasião, foi implementada uma política antiaborto, derrubando direitos adquiridos há mais de meio século pelas mulheres – matérias na internet.’ Nos EUA foi derrubado na Suprema Corte a decisão do caso Roe versus Wade. Decisão politica do assunto retornou aos estados. É o que dizem as ‘matérias na internet’. ‘Jornalistas’ gostam de omitir o que não interessa. Lembrando os direitos fundamentais da CF88 ‘[…] é assegurado a todos o acesso à informação […]’. O direito a ser informado. Não o direito a ser enganado ou doutrinado.

  8. ‘ O colega me alertou que a rearticulação da extrema direita ao redor do mundo deu uma importante sobrevida à cultura da violência contra a mulher no Brasil,[…]’. Ideologico eleitoreiro. Setembro de 2022. Ezequiel Lemos Ramos, de 39 anos confessou ter matado a ex-companheira Michelle Nicolich, de 37. Matou também um dos filhos do casal, Luiz Inácio Nicolich Lemos, de apenas 2 anos. Tem o rosto de Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista tatuado no braço esquerdo. Pelo que se ve o sujeito era muito ‘extrema-direita’.

  9. ‘No Brasil, durante o governo (2019 – 2022) do presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, a pauta de costumes, criada e divulgada pelos parlamentares governistas, atacou direitos adquiridos das mulheres, […]’. Vermelhos usam as feministas como bucha de canhão eleitoreiro. Mais do que óbvio.

  10. ‘Frequentemente, matando a mulher e não sendo punido pelo crime. A tese foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).’ Pode avisar o ‘colega’ que é uma besta. Doca Street, em cujo julgamento foi levantada a tese da defesa da honra, foi a segundo julgamento e pegou 15 anos de pena. Cumpriu 5, mas isto é coisa do Brasil. Por isto querem tranformar todo crime em hediondo, um crime de cada vez.

  11. ‘Um colega me lembrou que até março de 2021 era permitida a tese da “defesa da honra”, que assim pode ser traduzida: o marido que flagrasse a esposa o traindo podia “defender” a sua honra.’ Defesa pode alegar o que quiser, caso contrario é cerceamento de defesa. Criminalistas alegam qualquer coisa para safar o cliente. Isto é uma tentativa de usar moral para limitar prerrogativa passando por cima da lei.

  12. ‘A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015), promulgada há pouco mais de uma década, tornou o crime autônomo (elementos e tipo penal próprios), com penas de 20 a 40 anos.’ Todo mundo sabe que é so para criar estatistica. Antigamente era homicidio e vinha com duas ou mais qualificadoras, motivo futil, meio que impossibilitou a defesa da vitima. No final a diferença é pouca. Valor simbolico é o K7.

  13. ‘Sou testemunha disso. Por motivos que vou explicar aqui, fui criado em um ambiente de muita violência contra a mulher. Nasci e vivi até os 18 anos […]’. Uma curiosidade, qual a cor do barco do Noé?

  14. ‘Existe um discurso de violência contra a mulher consolidado no Brasil que circula há muitos anos.’ Existe uma pilha de ‘suposições’ na frase. Primeira é que discurso muda alguma coisa no mundo real. Imprensa sendo ignorada já mostra que não. Segunda é que o discurslo ‘é de violencia’. ‘Mulher é um ser santificado que caiu do céu, feito de cristal, não pode ser contrariado apesar de qualquer coisa que faça ou fale’. Existem mulheres que batem em homens (casos mais raros), que roubam, que traficam, que assinam e até que já chefiaram trafico nos morros do RJ. Alas, a noticia do dia é que uma mulher invadiu uma escola no Canada, matou 9 e deixou mais de uma duzia bastante mal. Terceiro é que é ‘consolidado’, de novo o ‘necessário mudar a cultura’, ‘mudar a educação’. Asneira ideologica.

  15. ‘O que acontece é que são crimes de grande violência, em que a simples divulgação da notícia causa um enorme impacto.’ Não causam. Já ‘fazem parte da paisagem’. Como acidente de transito, toda hora tem um. ‘Morreu um motoqueiro lá em Jaguarão’. Lamentável. Vida que segue. Quanto mais longe pior. Alas, em outubro morreram 121 em Operação no Alemão no RJ. Alguém ainda fala nisto?

  16. ‘A imprensa não faz sensacionalismo na cobertura dos casos de feminicídio.’ RS teve 80 casos de feminicidio em 2025. Num universo de 5,6 milhões de mulheres. Até agosto de 2025 havia 77 mil mulheres na fila esperando mamografia no SUS. Teria sido ‘zerada’ naquele mes. Quem acredita nisto e acredita que já não tem outra fila se formando eu tenho um viaduto para vender na BR-158. Alas, existe um esforço ideologico enorme de ‘coletivização’ do problema. Vide propaganda do governo estadual, ‘a sociedade sofre’. Acontece o ‘sensacionalismo’ e a sociedade majoritariamente ignora.

  17. ‘Claro que, na hora, não levantei a bandeira da liberdade de imprensa nem armei uma discussão.’ Liberdade de imprensa não significa vedação às criticas. Imprensa não é cavalo desfilando no 20 de Setembro, c@g@ndo, andando e sendo aplaudido. Curso de jornalismo não é dos mais dificeis da Academia. Alguns dizem que são 4 anos de conhecimentos gerais. Também não atrai, exceções de praxe, os/as candidatos(as) mais preparados(as). Simples assim.

  18. ‘Pelas vestes que usava, era uma típica garota de classe média gaúcha, […]’. Etiquetamento social só serve para livrar cara de vagabundo, na ‘luta de classes’ fiscalizar a vestimenta feminina é permitido.

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