
Reproduzido do jornal eletrônico SUL21 / Texto e foto de Lucas Azeredo
No dia 23 de janeiro, uma noite estranhamente fria para janeiro, na Orla do Guaíba, teve início a pré-temporada do Magia Sport Club, primeiro clube esportivo LGBTQIA+ do Rio Grande do Sul. Fundada em 2005, há mais de 20 anos, a equipe volta do recesso para se preparar para a Champions Ligay, o principal torneio nacional LGBTQIA+ de futebol e um dos maiores eventos esportivos LGBTQIA+ da América Latina.
Jogada em quadras de society, com dimensões muito reduzidas em comparação ao campo profissional e com apenas sete atletas — contando com o goleiro —, a competição reúne equipes do Brasil que buscam levantar o troféu de campeão. O torneio é organizado pela Ligay Nacional de Futebol, cuja sede é na capital gaúcha.
“A Ligay é única no mundo”, destaca Renan Evaldt, presidente da Liga e do Magia. Hoje, 82 equipes de 14 estados são filiadas à Ligay, com uma expansão para o Norte e o Nordeste à vista. A lista de espera para participar da Champions Ligay tem mais de 60 times.
A história de criação da Ligay é um tanto curiosa. Como conta Renan, em março de 2017, na cidade de São Paulo, um aplicativo de relacionamentos promoveu um evento privado que reuniu quatro equipes de futebol gay do Sudeste, sendo três paulistas e uma do Rio de Janeiro. Ali começava o que viria a ser a Champions Ligay.
Poucos meses depois do evento em São Paulo, em novembro de 2017, oito times se encontraram em terras cariocas para o primeiro torneio de futebol LGBTQIA+ do Brasil. Em 2019, já eram 32 as equipes participantes. Logo depois, no ano de 2021, a sede da Ligay se mudou para Porto Alegre, sobre o comando de Evaldt.
A Ligay é separada em torneios regionais e o campeonato nacional. Os regionais funcionam como classificatório para o nacional, o grande sonho do ano. A meta de Renan em 2026, porém, é ampliar a Liga ao ponto de serem realizados dois campeonatos brasileiros anuais. Nesta temporada, está confirmado o torneio nacional para o final de maio, começo de junho.
“Vimos que tinha potencial e tinha necessidade”, relata Evaldt. Ainda há a possibilidade de um campeonato internacional no Rio de Janeiro no segundo semestre, com duas equipes de fora do país interessadas, até agora.
A maior dificuldade da Ligay, para o presidente, é conseguir se manter ativa com pouco apoio financeiro, seja para financiar as competições ou manter a base de atletas, o que vem dando certo, embora a duras penas. “A Liga funciona até hoje com as próprias pernas. Não temos patrocínios grandes”, conta. “O pessoal não vive do esporte, não vive do futebol. Viaja na sexta e joga no sábado e domingo. Na segunda-feira, tem que trabalhar”.
Outra barreira que o futebol da comunidade LGBTQIA+ enfrenta é o preconceito. “Nós construímos espaços seguros, mas a rejeição existe. O futebol é o último bastião da masculinidade tóxica”, comenta Evaldt. “O LGBT pode praticar o esporte que ele quiser. Nós queremos participar da sociedade”, diz.
Renan relata que o Magia, sua equipe, nunca enfrentou um episódio de homofobia nos torneios que participa, mas conta que times do Rio de Janeiro que jogam campeonatos tradicionais de futebol — os “campeonatos héteros” — já foram ameaçados por adversários. “A gente tem resistido. É um espaço que a gente está construindo”, avalia.
Contudo, o presidente da Ligay prefere destacar quem apoia, e não quem espalha ódio contra o campeonato. Segundo Evaldt, na última edição da Champions Ligay, realizada em São Paulo, cerca de 4 mil pessoas passaram para assistir o campeonato no final de semana em que estava ocorrendo.
“As federações tradicionais tiveram 120, 115 anos pra se organizar. Nós conseguimos, em 8 anos, não nos igualar em poderio, mas temos conseguido conquistar muita coisa”, diz Renan Evaldt.
À beira do campo
Para jogar no Magia, é obrigatório pagar uma mensalidade de R$ 85,00 para ajudar a cobrir os custos. A comunidade viu muitas pessoas não conseguirem se reerguer depois da pandemia e das enchentes de maio de 2024, além de ter jogadores em situação de vulnerabilidade social. “No auge, antes da pandemia, a gente tinha 350 pessoas”, revela Evaldt. Na noite de sexta-feira, no retorno aos treinamentos, são 15 jogadores participando.
Alguns atletas vestem o uniforme preto com uma listra azul e outra vermelha do Magia. Só três pessoas acompanham o treino à beira do campo. Uma delas é Renan, que deixou o posto de zagueiro para ficar exclusivamente na gestão da Ligay e do time. “A gurizada corre muito. Não aguento”, brinca. Ele comenta que tem pouco tempo para jogar, uma vez que, além do seu trabalho regular, faz cerca de 160 reuniões anuais envolvendo questões da Liga.
A segunda pessoa que acompanha de fora o treinamento na Orla do Guaíba é o treinador da equipe, Cristofer Macalli. O técnico se juntou ao Magia em setembro de 2025, comandando o time às quartas de final da Champions Ligay.
Trabalhando profissionalmente desde 2022, antes, em 2018, já treinava equipes do futebol amador e do futsal. Desde então, acumulou passagens, em especial, por times femininos e de base, como as Gurias Coloradas do Sport Club Internacional, onde foi campeão gaúcho Sub-17 e trabalhou como auxiliar técnico no time campeão brasileiro Sub-20, além do Flamengo de Tenente Portela, no Norte do Estado.
Hoje, além do Magia SC, Cristofer também é técnico do Tamoio FC, clube de Viamão que trabalha exclusivamente com futebol de categorias de base, seja masculino ou feminino.
Em ritmo de começo de temporada, o foco é no desempenho físico. Exercícios de força e resistência, alongamentos e um aquecimento básico. Tudo pensado pelo treinador Macalli para colocá-los em condição de um jogo completo o mais rápido possível.
Enquanto observa os jogadores do Magia, Cristofer diz que falta um “rabiscador” no elenco, alguém que parta pra cima do adversário com velocidade e habilidade, com um drible diferenciado. “A gente já jogou bem, o desempenho foi bom. Então a intenção é desempenhar melhor e ter um resultado melhor”, aponta.
Macalli conta que, em menos de seis meses com a equipe, já conseguiu se aproximar e conquistar a confiança dos jogadores, e também “mostrar que, aqui dentro, todo o mundo é igual, não tem diferença alguma”. “Aqui eles são tratados como jogadores, como atletas”, ressalta.
“Teve uma dinâmica que eu fiz com eles em dezembro do ano passado para unir bem o grupo e para falar sobre o que eles superam no dia a dia”, relembra o técnico. “Obviamente, eu não sei como é. Eu não sinto na pele. Mas eu imagino que, pela minha vivência, por ter amigos gays, por vir do futebol feminino, onde também há bastante preconceito, e por eu já ter trabalhado no futebol gay, já dá uma bagagem para eu entender um pouco do que eles realmente passam”.
“A palavra é ‘gratificante’. É gratificante até por eu ser hétero e eles abrirem portas para mim. Eles poderiam muito bem optar por um treinador gay, mas eles acreditaram no meu trabalho. Eu me sinto muito gratificado. E trabalhar com eles no dia a dia é divertido, é engraçado, é legal, é bacana”, comenta Cristofer Macalli.
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