O adeus ao Frei da Solidariedade – por Leonardo da Rocha Botega
Ode ao Frei Sérgio Görgen, militante e religioso que partiu semana passada

“A religião não começa quando a gente bota o pé para dentro da igreja, mas ela começa quando a gente esteve na igreja e bota o pé para fora”
Frei Sérgio Antônio Görgen
O dia 3 de fevereiro de 2026 amanheceu silencioso. Apesar do forte calor, o sol parecia brilhar como um sorriso tímido. Em revoada, os pássaros cantavam de forma melancólica. O adocicado perfume das flores pedia desculpas por se fazer sentir. As sementes brotavam mais lentas que o normal. O mundo girava como um olhar desatento. Frei Sérgio Görgen havia partido.
Frei Sérgio partiu de forma repentina, como quem se despede querendo que não acabem as boas celebrações. Havia completado 70 anos no dia 29 de janeiro e 51 anos de vida religiosa no dia 1 de fevereiro. Em mensagem publicada em suas Redes Sociais agradeceu “ao Senhor da Vida, em seu Filho e em sua Mãe”, afirmando que “é nos gestos que a Graça se faz prática e o Amor se faz vivo”.
Frei Sérgio foi um homem de gestos e práticas. Umas das grandes perguntas filosóficas do nosso tempo é: qual o sentido da religiosidade em mundo cada vez mais desencantado? Para alguns é ser uma válvula de escape para o niilismo cotidiano. Para outros é uma forma de construir um discurso adaptativo à ideológica da busca da prosperidade. Para Frei Sérgio, religiosidade era sinônimo de solidariedade.
Solidário, Frei Sérgio escolheu os camponeses e as camponesas como sujeitos de dedicação de sua vida política e religiosa. Ciente de que não existe completude em uma teologia que não se propõe a transformação das coisas, nunca pensou a caridade longe da luta por justiça social. Inserido nessa perspectiva, viu na organização do povo do campo a única forma de reivindicar uma nova sociedade.
Frei Sérgio esteve presente na fundação do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Sem Terra (MST) e nos momentos mais difíceis da luta pela reforma agrária. Foi um dos sobreviventes do Massacre da Fazenda Santa Elmira, promovido pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul, em 11 de março de 1989, após os representantes do governador Pedro Simon traírem acordo feito com o bispo de Cruz Alta, Dom Jacó Ilgert.
Em 1996, diante das mazelas enfrentadas pela seca e pela ausência de uma política agrícola que contemplasse os pequenos camponeses e as pequenas camponesas que não eram donos de fazendas-empresas de agroexportação, Frei Sérgio ajudou a fundar o Movimento dos Pequenos Agricultores e das Pequenas Agricultoras (MPA), do qual foi dirigente até o último dia de sua existência.
Em meio a essa trajetória marcada pela atuação junto aos movimentos populares do campo, Frei Sérgio também atuou na política institucional. Foi diretor do Departamento de Reforma Agrária da Secretaria Estadual da Agricultura durante o governo Olívio Dutra, entre 1999 e 2000, e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, entre 2002 e 2006.
Frei Sérgio inspirou inúmeros jovens dentro e fora da Igreja. Adorava estar ao lado da juventude, ouvir, aprender e ensinar pelo exemplo, da mesma forma como aprendeu a nadar com seu pai no Rio Colorado, na comunidade de Posse de São Miguel, interior de Não-Me-Toque (RS). Sua maior dor era ver crianças com fome e jovens sem esperança. Acabar com a fome e dar esperança foram suas grandes bandeiras de luta.
De uma pequena comunidade camponesa para o mundo, Frei Sérgio nunca abandonou dois preceitos básicos: a humildade e a coerência. Em tempo de Teologia da Prosperidade e de falsos profetas milionários, preferiu ser o Frei da Solidariedade. Em tempos de profissionalização da política, preferiu a política do afeto cotidiano. Vai fazer muita falta.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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